loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 29/07/2026 | Ano | Nº 6277
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Cidades

Cidades

Maceió: a cada dia dormindo mais cedo

Ouvir
Compartilhar

Fernando Coelho Foi sintomático. Quando uma das mais movimentadas lojas de conveniência de Maceió, que era aberta 24 horas, passou a fechar suas portas às 23 horas, os habituais clientes da madrugada foram os primeiros a sentir e reclamar. O estabelecimento era o único aberto em tempo integral na região do Farol e recebia diariamente baladeiros, trabalhadores da noite e gente que tinha apenas horários nada usuais para fazer desde um lanche a pequenas compras domésticas. O fato evidencia uma desconfiança não confirmada oficialmente, mas percebida de fato: a capital alagoana não acompanha o ritmo das grandes cidades brasileiras, cada dia mais vivas a oferecer diversas opções de serviços durante a madrugada. O que está em xeque não é o leque de diversões - afinal, bares, restaurantes e boates after hours sempre fizeram parte do cardápio local - e sim de serviços. Segundo comerciantes e especialistas em desenvolvimento econômico, as causas para o quase inexistente comércio nas altas horas são variadas: vão desde o aumento da violência urbana à baixa demanda de clientes, passando ainda pela falta de tradição cultural da cidade nos hábitos notívagos. Para entender a atual situação, a Gazeta ouviu empresários e entidades de classe e deu um giro em busca daqueles que povoam a madrugada e gostariam de mais opções no horário da coruja. ### Serviços 24 horas em extinção na capital Fernando Coelho É um fato. Em Maceió não existem locadoras, livrarias, pizzarias ou padarias 24 horas; há apenas um supermercado aberto em tempo integral, e as poucas lojas de conveniência dia e noite vêm encerrando o expediente cada vez mais cedo. O número de farmácias e postos de gasolina 24 horas vem diminuindo nos últimos anos, assim como os serviços de entrega (delivery) têm baixado o horário de atendimento para até a meia-noite. Até os chaveiros e as borracharias de plantão são cada vez mais raros nas ruas. Sobram apenas alguns caixas eletrônicos - já que nem todos estão disponíveis para saque - e lanchonetes. Para o economista e professor Bartolomeu Bueno, da Universidade Federal de Alagoas, não há dúvida de que a diminuição na oferta de serviços 24 horas afeta diretamente a geração de renda e a arrecadação de impostos. Além disso, cai o número de empregos, principalmente para os mais jovens que estão entrando no mercado de trabalho. As entidades ligadas ao setor de serviços, como a Junta Comercial, o Clube dos Diretores Lojistas, a Federação do Comércio de Alagoas, o Sebrae e até o Procon, foram contactadas, mas nenhuma delas possui qualquer levantamento sobre estabelecimentos que funcionam 24 horas em Maceió. O Sindicato do Comércio Varejista acredita que há receio exagerado e falta de ousadia por parte dos empresários locais. Talvez por causa dos custos e dos encargos, estima Sílvio Arruda, presidente da entidade. Rua 24 horas Esbanjando tradição e competência em planejamento urbano, Curitiba foi pioneira em criar uma rua 24 horas com opções de lazer e comércio. Lá, turistas e nativos podem encontrar livrarias, lojas de roupas, acesso à Internet, floricultura, farmácia, entre outros serviços, que nunca fecham. Na década de 1990, a prefeitura de Maceió tentou fazer sua versão da idéia. O objetivo seria transformar a Rua da Praia - antiga Rua Libertadora Alagoana, no Centro - numa galeria nos mesmos moldes da curitibana. O projeto não saiu do papel. Já na vizinha Aracaju, a Rua 24 horas é uma realidade e vem se configurando um importante ponto turístico da capital sergipana. Em outras grandes cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Brasília e Recife, o oferecimento de serviços 24 horas também não é novidade. De volta a Maceió: no bairro do Farol, uma das únicas lojas de conveniência da cidade deixou de funcionar em tempo integral. O fato atesta o retrocesso urbano local e solidifica a imagem de uma capital voltada para hábitos essencialmente diurnos. Há 10 anos em funcionamento, a Casa do Pão, localizada no início da Avenida Fernandes Lima, não resistiu à algazarra dos baladeiros e, desde janeiro, passou a encerrar o expediente às 23 horas. Estávamos sendo prejudicados por algumas pessoas vindas das farras, geralmente alteradas ou bêbadas. Isso assustava nossos clientes da manhã, justifica Afrânio Vergetti, administrador do estabelecimento. Segundo a gerência, apesar das insistentes reclamações e pedidos dos clientes para o negócio voltar a operar sem interrupções, a única boa nova é que a partir de maio uma lanchonete será aberta 24 horas, mas os serviços da loja não estarão disponíveis para os consumidores. Do lado da concorrência, nenhum sinal no intuito de preencher a lacuna deixada pela Casa do Pão. A Pão & Companhia, conveniência instalada há 13 anos na esquina da Rua Comendador Palmeira, no Farol, não pensa em mudar seu funcionamento atual, aberta diariamente das seis da manhã às 22 horas. Chegamos a fazer um teste anos atrás e passamos um dia inteiro abertos 24 horas. Mas o baixo movimento deixou claro que não valia a pena funcionar neste formato, diz a gerente Mônica Salustiano. Já a rede AM/PM Express, franquia de conveniência nos postos de combustíveis Ipiranga, faz jus ao nome e funciona 24 horas na maioria das capitais brasileiras. Já em Maceió, as quatro lojas da rede fecham entre as 22 horas e a meia-noite. É o proprietário do posto quem define o horário, explica Valmar Nóbrega, gerente de uma das lojas e que promete funcionar 24 horas a partir de abril. ### Compras somente até meia-noite Fernando coelho Quando as estatísticas acerca do funcionamento de estabelecimentos 24 horas são sobre o ramo de supermercados, os números impressionam. De acordo com o Sindicato do Comércio Varejista de Maceió (Sincomércio), aproximadamente quatro mil mercearias, mercadinhos e supermercados estão registrados na entidade. Destes, apenas um funciona 24 horas. Auto-intitulado o 1º supermercado 24 horas de Maceió, o Palato é o único no segmento a funcionar dia e noite sem fechar as portas. Fundado em dezembro de 1998, seus donos acreditam que esse é o seu principal diferencial. Segundo a direção, apesar de não dar lucro a partir da alta madrugada, a relação custo-benefício é compensadora porque neste horário é realizado o abastecimento da loja. Eu não digo que financeiramente seja interessante, mas é um desafio, explica Marcelo Martins, gerente de marketing. Mesmo assim, alguns setores, como a cafeteria e o bazar, não funcionam 24 horas. Em relação à segurança - sempre o maior temor dos comerciantes - o problema nunca se configurou como ameaça para o funcionamento do supermercado. Em seis anos de existência, o Palato não sofreu nenhuma tentativa de assalto. Temos bons mecanismos de segurança. Não pensamos em mudar nosso funcionamento, garante Marcelo Martins. A maior rede de supermercados do Nordeste, o Bompreço, há um ano foi comprada pela maior rede de supermercado do mundo, a Wal-Mart. Com 118 lojas distribuídas nos nove estados da região, o Bompreço tem quatro filiais na Bahia e três em Pernambuco que funcionam 24 horas por dia. A comodidade de poder escolher o horário de fazer a feira do mês ou pequenas compras não vale para o consumidor maceioense. Todas as oito lojas do Bompreço situadas em Alagoas estão na capital, mas, mesmo assim, só funcionam, no máximo, entre as sete da manhã e a meia-noite. A direção da empresa diz que a operação das lojas em todos os estados nordestinos é baseada em estudos técnicos que levam em consideração critérios como densidade demográfica, perfil socioeconômico e o grau de competitividade do mercado local. Daí, concluiu-se que Maceió ainda não parece rentável o suficiente para abrigar uma loja 24 horas da rede. Já o Via Box, supermercado alagoano em operação desde 1998 na Serraria e, mais recentemente, também em Cruz das Almas, abre suas portas de segunda a sábado, das sete da manhã à meia-noite, e aos domingos, das sete da manhã às 22 horas. O supermercado não pára durante a madrugada, mas apenas internamente. Não há fluxo de clientes que compense um funcionamento 24 horas, explica Bianca Raposo, gerente de marketing. Para Sílvio Arruda, presidente do Sincomércio, é preciso implantar o funcionamento diferenciado por um determinado período para que os clientes se acostumem. Ele se diz ansioso com as futuras instalações do supermercado Extra, da rede Pão de Açúcar, a maior do Brasil no ramo. Será o maior supermercado de Maceió e funcionará 24 horas gerando 800 empregos, assegura. As obras de construção do Extra já começaram.

Relacionadas