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Trem vira opção para trabalho e turismo

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Regina Carvalho No trem eu me sinto mais seguro. Acho arriscado andar de ônibus. A declaração é do aposentado Severino Aglício Ataíde, que todas as quintas-feiras sai de Rio Largo em direção ao Mercado Público de Maceió para comprar peixe e revender na feira livre de sua cidade. Há aproximadamente duas décadas, Severino pega o trem de Rio Largo a Maceió, e hoje aos 63 anos, diz que tem disposição para enfrentar quantas viagens forem necessárias. O trem percorre uma distância aproximada de 32 quilômetros, saindo da Estação Central na Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), no centro, até o povoado Lourenço de Albuquerque, no município de Rio Largo. A duração do percurso é de uma hora e meia, tempo seguido à risca pelos maquinistas. O trajeto pelos velhos e perigosos dormentes leva trabalhadores da lida e também turistas mais descolados, já que o passeio não consta nos programas oficiais de turismo, mas mostra trechos belíssimos de uma mata atlântica fechada, a paisagem infinita da Lagoa Mundau e os subúrbios com habitações simples e gente alegre do lugar, que da soleira da porta troca acenos com os passageiros. Estações Levantamentos da CBTU apontam que diariamente cerca de sete mil pessoas utilizam o trem entre Maceió e Rio Largo. A linha é servida por três locomotivas, mas uma delas está em manutenção. As outras duas seguem o mesmo trajeto. Segundo a assessoria de imprensa da CBTU, a locomotiva em manutenção, quando pronta, ficará de reserva para substituir outra que apresentar algum problema. Durante o percurso, o trem passa por 15 estações. (Veja quadro ao lado) Mais barato Quem opta pelo trem como meio de transporte ressalta que o principal atrativo é o preço. Custa apenas R$ 0,50, enquanto que o mesmo trajeto, sendo realizado pelo ônibus sai por R$ 2,95. Se botasse a passagem do trem por um real ainda seria barato, acrescentou Severino Aglício Ataíde. Enquanto o ônibus leva cerca de meia hora até o centro de Rio Largo, o trem da CBTU demora mais de uma hora. Sururu Na estação de Bebedouro, um evangélico subiu no trem e começou a declamar versos da bíblia, para alegria dos estudantes. Toda vez que eu pego o trem sobe sempre um evangélico. Isso já faz parte da nossa viagem, disse a dona-de-casa Maria da Apresentação Araújo. Ela carregava dentro do trem um balde e sacolas grandes cheias de sururu e peixe. Maria da Apresentação mora na Mata do Rolo, bairro de Rio Largo, e duas vezes por semana pega sururu na Lagoa Mundaú para ser consumido dentro em casa. Algumas vezes também compro peixe, mas só quando sobra um dinheirinho, disse. Mãe de 12 filhos, a mais velha com 43 anos, Maria tem 57 anos. Meu primeiro marido morreu e hoje sou casada novamente, declarou. A animação ao contar sua história de vida somente foi esquecida quando, em poucos minutos, Maria Apresentação adormeceu no banco do trem. ### Viagem com cheiro de mato, paisagens e conversa animada Regina Carvalho Fernão Velho e Satuba são estações de cruzamento (com apenas uma linha), por isso, o trem tem que esperar que o outro passe para seguir viagem e evitar colisão. Há cerca de cinco anos, foram colocadas grades nas janelas dos trens para evitar que vândalos atirassem pedras. Vimos casos de pessoas que perderam a visão com as pedras jogadas no trem e que entraram pelas janelas, atingindo passageiros, conta o maquinista Manoel Raimundo Correia dos Santos. Durante a viagem de trem, alguns passageiros lêem folhetos que anunciam promoções nas lojas, outros optam por livros, a exemplo de estudantes. Parte adere a uma boa conversa para o tempo passar mais rápido, mas a maioria mesmo tira um bom cochilo. No trem, os cheiros se misturam, do peixe que será vendido e consumido, da pipoca vendida no corredor e dos cigarros tragados pelos passageiros entre os vagões (classe ou carro). As paisagens também são as mais variadas. Até o pacato povoado de Lourenço de Albuquerque, em Rio Largo, lagoas, morros, vilarejos, vegetação rasteira, coqueirais e roças de milho seguem de forma rápida, mas ainda com tempo para serem admirados pelos passageiros. No bairro Gustavo Paiva, em Rio Largo, subiu a estudante de psicologia de uma faculdade particular de Maceió, Maria Rita de Cássia. Ela pegou o trem até o centro da cidade, onde iria a uma agência bancária. Gosto muito de andar de trem. Além de tudo, o preço é muito bom. Pena que não existe trem até o Farol, onde estudo, falou. O trem que sai às 8h30 da Estação Central na CBTU, chega exatamente às 10h no povoado Lourenço de Albuquerque. E retorna a Maceió pontualmente às 10h19. Adelmo Cavalcante de Melo, 65 anos, é proprietário de duas lanchonetes no povoado Lourenço de Albuquerque. A vida dele hoje está mais tranqüila, mas nem sempre foi assim. Natural de Cajueiro, ele foi cobrador de trem de 1958 a 1990. Até o ano de 75, Adelmo trabalhava no trem que saía de Maceió a Recife e Aracaju (quando ainda não existia a CBTU). Era muito cansativo. A gente saía na hora certa, mas não sabia a hora que ia chegar lá. E quando o trem quebrava era o maior sufoco, falou. O trem conta com dois seguranças, dois maquinistas e ainda dois fiscais (que recolhem os bilhetes). Às vezes tem passageiro que não quer pagar a passagem, daí somos obrigados a colocá-lo para fora do trem, disse o fiscal Geraldo Pereira. No trem, um maquinista guia e o outro fica observando com atenção os trilhos e o que pode surgir de repente. O maquinista Manuel Raimundo Correia dos Santos, que atua há sete anos já viu casos que até hoje não esquece. Há uns três anos, um homem se jogou na linha do trem, na chegada da estação do Rio Largo. Não pudemos evitar, foi terrível, afirmou. O trem segue a uma velocidade média de 30 Km/h. Os maquinistas mantêm contato direto, por meio de rádio, com a CBTU, que orienta para possíveis problemas que podem acontecer durante o percurso. A CBTU está em funcionamento desde 1985 e ainda nessa data colocou os trens no mesmo percurso que até hoje são seguidos (Maceió-Rio Largo).

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