Cidades
João Paulo II rezou por trabalho e moradia
Carla Serqueira Repórter Muita coisa mudou depois de 1991, quando o papa João Paulo II esteve, pela primeira e única vez, em Alagoas. Um exemplo é o papódromo, que serviu de altar para o maior líder religioso do mundo. Hoje, abandonado, o local não atrai mais as famílias e se transformou em ponto de encontro de marginais. No entanto, o clero e o governo anunciaram, para a próxima sexta-feira, a missa do sétimo dia da morte de João Paulo II no papódromo. Geni Maria da Conceição tem 53 anos e há 22 mora ao lado do papódromo. Lembro de quando ele estava sendo construído, frisou a dona-de-casa, hoje decepcionada com o que se transformou o lugar. Toda noite, fica cheio de maloqueiro. Os bancos estão sujos, quebrados. O piso, coberto de mato. É triste ver um lugar tão bonito e abandonado, lamentou. Por outro lado, uma coisa permanece intocável: a lembrança de quem esteve no dia 19 de outubro de 1991 diante do altar, hoje inoperante. Milhares de pessoas esperaram o papamóvel trazer João Paulo II para a celebração da missa que teve como tema Trabalho e Moradia. Preparativos Em fevereiro de 1991, Alagoas recebeu a visita de uma comissão de Brasília, responsávelpor planejar a passagem do papa pela capital, organizando a segurança do pontífice. Visitamos três bairros de Maceió. O Dique Estrada foi escolhido pela visibilidade, espaço amplo e por causa da estrada nova, que comportava milhares de veículos, observou dom Edvaldo Amaral que, na época, era o arcebispo de Maceió e integrante da comissão responsável pela visita. Dom Edvaldo Amaral esteve com o papa João Paulo II durante as três horas em que ele esteve em Maceió. O papa esteve o tempo inteiro com o terço na mão. Ele era um homem de poucas palavras, revelou, dizendo que a passagem do papa pelo Estado foi um dos maiores acontecimentos da história de Alagoas, comparado apenas à visita feita por D. Pedro II à Catedral de Maceió. Dom Edvaldo revelou sua admiração pelo papa, quando, por telefone - ele está em Brasília - e com a voz embargada de emoção, reproduziu as últimas palavras ditas por João Paulo II, já no leito onde faleceu. Ele ouviu algum barulho e perguntou: ?o que é??, responderam: ?são os jovens lá fora?. Ele disse: ?Na minha vida toda, procurei encontrar com os jovens, e agora são os jovens que vêm ao meu encontro. 75 beijos Quando o papa chegou em Maceió (confira o roteiro abaixo) a única igreja que visitou foi a do conjunto Virgem dos Pobres. A irmã Josefa Umbelina dos Santos organizou a recepção que contou com a presença de 150 crianças, alunas da catequese. Na entrada, dois meninos, vestidos de guarda suíço, foram recebê-lo. As outras crianças formaram um corredor por onde ele passou quando entrou na igreja, relatou irmã Josefa, dizendo que na chegada, o papa João Paulo II beijou todas as crianças do lado esquerdo e, na saída, deu um beijo na testa das outras setenta e cinco crianças. Ele era muito carinhoso, relembrou, avaliando que o papa permaneceu na capela por cerca de meia hora. Ele entrou sozinho, rezou um pouco, e depois saiu. Irmã Josefa não escondeu a emoção quando falou sobre as bençãos que recebeu de João Paulo II. É como se a gente estivesse olhando para Jesus. A gente se vê refletido nele; sente o que você já fez de bom e de ruim. Vem aquele propósito muito forte de melhorar. É bem rápido, pelo menos em mim foi assim. Um olhar muito penetrante e amoroso, lembrou. Quando deixou a igreja, João Paulo II seguiu no papamóvel até o papódromo, onde celebrou a missa na presença de milhares de pessoas. Segundo dom Edvaldo, as palavras dele recomendaram solidariedade e paz e lembraram que a falta de emprego era causadora da miséria. ### De helicóptero, o papa João Paulo II sobrevoou Maceió O caminho que o papa João Paulo II percorreu em Maceió foi escolhido num acordo entre as comissões de Brasília e de Alagoas, formadas por representantes da Igreja Católica. Com três meses de antecedência, começaram os preparativos. Foram visitados vários bairros da capital. Inúmeras reuniões com as polícias Federal, Militar e Civil foram realizadas para que nada colocasse em risco o bem- estar do papa. Após desembarcar de um vôo que chegou do Espírito Santo, o papa João Paulo II pisou, pela única vez, o solo alagoano. Por volta das 15h, o papa João Paulo II deixou o Aeroporto Zumbi dos Palmares e sobrevoou Maceió, a bordo de um helicóptero, para conhecer a cidade, contou o padre Celso Alípio, hoje pároco da Catedral e, na época, o mestre-de-cerimônias da visita. Após meia hora, o helicóptero pousou no Trapichão e, de papamóvel, João Paulo II partiu para abençoar a população que lotou as ruas dos bairros do Trapiche, Levada e Dique Estrada para vê-lo passar. O papa percorreu as principais avenidas entre o estádio e o papódromo, onde celebraria a missa com o tema Trabalho e Moradia. Por volta das 16h, 150 crianças esperavam, com ansiedade e nervosismo, a chegada do papa na Igreja Virgem dos Pobres. Uma delas, hoje com 25 anos e dois filhos, era Lidiane Caetano Ferreira. Na época com 11, a menina, moradora do conjunto Virgem dos Pobres, pôde receber um beijo e um abraço do papa. Nunca esqueci o papa. Ele tinha uma voz mansa que acalmava qualquer um, disse. Quebra de protocolo Para o papa João Paulo II, nem toda regra deveria ser respeitada. Quando ele queria, quebrava mesmo o protocolo, afirmou irmã Josefa Umbelina. E foi isso que ele fez, durante a sua passagem por Maceió, em outubro de 1991, para surpresa de todos que organizaram a trajetória. Após sair da Igreja Virgem dos Pobres, o papa desviou do caminho programado e seguiu em direção a um barraco da favela Área Verde, nas imediações da igreja. Ele caminhou lentamente e em silêncio, entrou no barraco, que era bem pobrezinho, ficou uns segundos lá dentro e saiu emocionado, narrou a irmã Josefa. Depois da visita ao barraco, o papa, com toda a sua ternura, entrou no papamóvel e seguiu, estendendo a mão e abençoando a população que se espremia para vê-lo.