Cidades
Roubo de gado atormenta produtores
Maikel Marques Repórter Sucursal Arapiraca - Quadrilhas especializadas no roubo de gado em propriedades rurais de municípios sertanejos estão assustando os pequenos criadores e produtores. Os ladrões atuam em grupo de três ou quatro pessoas, invadem imóveis rurais na calada da noite, amarram a boca dos animais, puxam os bois e vacas para a carroceria de pequenos veículos, fogem com rapidez pelas estradas vicinais e deixam poucos rastros. A quadrilha abate os animais e vende a carne com 100% de lucro. O couro e os restos das reses são enterrados. As principais vítimas - pequenos produtores - geralmente não prestam queixa dos roubos às autoridades policiais, cuja estrutura operacional é precária e raramente utilizada em operações nas estradas vicinais onde as quadrilhas costumam agir. Praga O roubo de animais na calada da noite é uma praga muito comum no Sertão, afirma o produtor Álvaro Vasconcelos, ex-presidente da Associação dos Criadores de Alagoas. Embora seja considerado grande produtor, Álvaro também foi vítima da uma quadrilha que, recentemente, furtou de sua propriedade, em Jaramataia, duas vacas leiteiras avaliadas em mais de R$ 1.500 cada uma. Os animais nunca foram localizados pela polícia da cidade, que, depois de denúncia anônima, conseguiu prender em flagrante dois dos quatro integrantes de uma quadrilha que se preparava para o transporte de sete animais furtados de um pequeno produtor no Sítio Ribeira, zona rural de Jaramataia. Produtores rurais, policiais civis e militares ouvidos pela Gazeta apontam a zona rural de Craíbas, Traipu, Girau do Ponciano, Jaramataia, Major Isidoro, Dois Riachos, Batalha, São José da Tapera, Senador Rui Palmeira, Piranhas e Delmiro Gouveia como terra fértil para a atuação das quadrilhas. Não há estatística atualizada sobre a atividade criminosa, por uma razão bem simples: as vítimas amargam prejuízos, mas decidem não prestar queixa. Elas têm medo de represália por parte dos ladrões. Sentem-se inseguras e ficam no prejuízo, diz Ailton Soares Prazeres, delegado regional de Santana do Ipanema. Para fugir da repressão policial, os ladrões teriam adotado como estratégia o furto de no máximo três animais por vez. Dessa forma, ganham mobilidade na fuga e dão sumiço no animal com rapidez. ### Fronteira com PE, BA e SE facilita roubo Sucursal Arapiraca - Eles abatem a rês e depois vendem a carne com grande margem de lucro. Aí, não há quem encontre o animal, explica Kelmanny Oliveira, delegado de Piranhas. Para não deixar rastros, os integrantes das quadrilhas enterram o couro do animal e abandonam sua carcaça distante do local de abate. A proximidade com a fronteira dos estados de Sergipe, Bahia e Pernambuco também é incentivo à ação das quadrilhas que atuam em Piranhas e Delmiro Gouveia, por exemplo. A precariedade da estrutura policial na região também dificulta o trabalho de repressão aos grupos. A Polícia Civil dispõe de uma única viatura e a 2ª Companhia da Polícia Militar de Xingó (Piranhas) conta também com apenas um veículo Ipanema com mais de uma década de uso e que, segundo constatou a Gazeta, está parado em conseqüência da proliferação de problemas mecânicos. O fazendeiro Adelmo Rodrigues de Melo, o Neguinho Boiadeiro, proprietário de uma fazenda a cinco quilômetros do centro de Batalha, também teme a atuação das quadrilhas de roubo de gado. Vigia noturno Ele gasta R$ 500 por mês com um funcionário contratado para vigiar o seu curral no período noturno. Seu capataz circula armado com um telefone celular utilizado para pedir reforço em caso de presença dos ladrões de gado, como já existe nas grandes fazendas de gado do Sul do País. Entrevistado pela Gazeta na última sexta-feira, Neguinho Boiadeiro explicou que, embora nunca tenha recebido a visita dos ladrões de gado, decidiu se precaver em conseqüência das inúmeras histórias que ouve no dia-a-dia dos pequenos produtores da região. Esse pessoal [os ladrões] me respeita, mas rouba sem dó nem piedade o animal, que é a única fonte de renda de pequenos produtores, declarou. Feira do gado Profundo conhecedor da zona rural sertaneja, Boiadeiro também explica que os animais furtados geralmente são destinados ao abate. Vendem a carne e enterram o couro. Aí, sumiu o animal, comenta o fazendeiro. Além do furto de animais, ele alerta ainda para a ação das quadrilhas que atuam à margem da rodovia que liga Major Isidoro a Cacimbinhas, permitindo acesso ao município de Dois Riachos, que abriga tradicional feira de gado. Geralmente às quartas-feiras, os malandros ficam de prontidão para roubar o dinheiro da turma que vai vender ou comprar gado lá em Dois Riachos. A Polícia precisa atuar nessa região, alerta Boiadeiro. Ainda de acordo com o produtor, os ladrões atuam com certa freqüência na zona rural de Traipu, Girau do Ponciano e Craíbas. Esse pessoal é ruim e penaliza principalmente pequenos produtores pouco conhecidos das autoridades, completa. MM ### Polícia procura líder do grupo As polícias Civil e Militar de Piranhas conseguiram identificar o produtor rural Devonete Souza Lima, o Devo, como o suposto líder de uma quadrilha composta por outras sete pessoas e cuja base planejamento das ações criminosas é o povoado Piau, à margem da rodovia AL-220. Devo é foragido da Justiça de Senador Rui Palmeira - onde já foi condenado por roubo de gado - e responde a dois processos em Piranhas pela prática do mesmo crime. O delegado Kelmanny Oliveira conseguiu identificar Devonete Souza no final do ano passado, numa noite em que a Polícia Militar fazia uma inédita blitz numa das estradas vicinais de acesso ao centro de Piranhas. Uma hora depois do início da operação, os policiais decidiram abordar um Fiorino (MUL 5979-Santana do Ipanema) que circulava com faróis apagados. Devo era o condutor do veículo, mas decidiu furar o cerco policial. Novilha amarrada Só paramos o carro depois de atirar e furar os pneus, conta o tenente Raimundo Lessa. Devo e outro comparsa se embrenharam na caatinga e conseguiram fugir. Ao revistar a carroceria do veículo, a surpresa: debaixo da lona preta havia uma novilha de oito arrobas. O animal estava completamente amarrado e seria transportado para a propriedade de sua família. O veículo tem placa quente e pertence ao pai de Devonete, diz o delegado. Dias depois, a polícia capturaria na fazenda de Devonete outras duas vacas furtadas por sua quadrilha. Um pequeno produtor rural de Pão de Açúcar e que tinha arrendado o terreno no povoado Piau, em Piranhas, provou ser o proprietário dos animais. Ele mostrou à Polícia o ferro utilizado para marcar o couro das vacas. Ameaças Mesmo com estrutura precária, a polícia de Jaramataia só conseguiu surpreender a quadrilha depois de receber denúncia de produtores da região. A reportagem da Gazeta apurou que alguns deles sofreram ameaças de morte depois da prisão de dois integrantes do bando. Os pequenos produtores decidem ficar em silêncio porque não vêem retorno da polícia quanto ao furto de animais, critica o produtor Álvaro Vasconcelos. ### Principal suspeito continua foragido O delegado do caso do roubo de gado no Sertão, Kelmanny Oliveira, concluiu inquérito e o remeteu à Justiça no final de 2004 pedindo a prisão preventiva do principal acusado, Devonete Souza Lima, o Devo, que continua foragido. Devo deixou a região de Piranhas e teria migrado para Santana do Ipanema. Os advogados pediram à Justiça a liberação da Fiat Fiorino utilizada nos furtos e hoje recolhida ao pátio da PM em Xingó. OUTROS SUSPEITOS Outros dois suspeitos, Enivaldo Amaro do Nascimento e Josenildo Anaeve dos Santos foram presos em flagrante quando se preparavam para transportar, num caminhão Mercedes-Benz, sete vacas leiteiras. Os animais tinham sido furtados um mês antes, de duas propriedades no Sítio Ribeira, em Jaramataia. Os líderes da quadrilha participavam da ação criminosa, mas conseguiram fugir ao cerco policial utilizando uma motocicleta. Réus primários e com residência fixa em Arapiraca, Enivaldo e Josenildo ganhariam a liberdade no último dia 30 de março. Seus advogados conseguiram na Justiça de Major Isidoro a expedição de alvará de soltura. Utilizaram o argumento de que a dupla tinha sido contratada em Arapiraca para fazer somente o transporte dos animais. No dia do flagrante, não sabiam sequer para onde seriam levados os animais, comenta Tarcizo Vitorino, delegado de Jaramataia. Vitorino apurou que os animais seriam transportados para o município de Craíbas, onde vivem os dois líderes da quadrilha que atua entre na zona rural de Jaramataia, Girau do Ponciano e Major Isidoro. Prisões no agreste Os agentes da Delegacia de Polícia de Igaci prenderam, em janeiro, dois integrantes de quadrilha de roubo de gado em atuação na zona rural dos municípios de Palmeira dos Índios e Igaci, na região Agreste. Erasmo Menezes dos Santos e Gilmar dos Santos Silva foram presos no povoado Coité das Pinhas (Igaci) e já confessaram o roubo de pelo menos 19 reses. De lá até hoje, dezenas de produtores já prestaram queixa do roubo de animais, depois da prisão da dupla. Segundo informações da Polícia Civil de Igaci, Erasmo Menezes e Gilmar dos Santos agiam em plena madrugada. Utilizavam alicate e facão para cortar o arame farpado das cercas de pequenas propriedades. Com ajuda de cavalos, eles tangiam os animais de pequeno e médio portes por estradas vicinais.