Cidades
Ocupação desordenada mata lagoas
| CARLA SERQUEIRA Repórter Protagonistas, mais uma vez, de uma crônica de morte anunciada, as lagoas Mundaú e Manguaba agonizam. A ocupação desordenada de suas margens lançou em suas águas altos índices de poluição. Diante de um cenário degradado, pescadores mudaram de profissão e moradia. O lançamento de resíduos químicos e orgânicos causou duas grandes mortandades de peixes, em 1998 e em 2000. Hoje, esgotos domésticos continuam sendo lançados nas lagoas, sem nenhuma intervenção. Pouco foi feito, até hoje, para reverter este quadro. José Carlos da Rocha nasceu em Fernão Velho. Tem 42 anos, dos quais 32 viveu pescando no rio Carrapatinho, que corre para a lagoa Mundaú. Ironicamente, José Carlos ainda consegue sobreviver do que tira do rio, hoje estreito e raso. Mas não é o peixe que o alimenta, como outrora, e sim a venda de areia. Agora é com a pá que a gente trabalha, lamenta. Aqui tinha tunaré, acari, tilápia. Em um dia de pesca a gente tirava 20 quilos de peixe, afirmou José Carlos. Hoje a gente pega a tarrafa e não consegue pescar nada. Em cada caçamba que consegue encher de areia, José ganha R$ 40. Para encher uma, ele gasta três dias. José Carlos culpa um matadouro e uma fábrica de embalagens plásticas da região pela poluição do Rio Carrapatinho. Segundo ele, as empresas despejam resíduos químicos na água há anos. Outra agressão é a derrubada de árvores. O rio está se acabando porque não tem mais vegetação nas beiradas. Derrubaram tudo para fazer carvão. Segundo José Carlos, muitos pescadores, para não desistir do ofício, migraram para outras cidades ribeirinhas, como Penedo e Jequiá da Praia. Mas há quem esteja feliz pescando na lagoa. Quando o peixe pula na lagoa, eu vejo e vou pegar, disse José Severino da Silva, 44, que há 13 mora na beira da lagoa, em Fernão Velho. Mesmo residindo numa casa de taipa, sem saneamento, José se mostra satisfeito. Esta semana dei uma pescada, arrumei R$ 400 e comprei aquela bezerra. O pescador que diz que esta lagoa não dá nada é porque é preguiçoso, avaliou. Segundo ele, chega a tirar 100 quilos de peixe numa semana, mas avisa: Depende da maré. Tem semana que não tiro nem 10 quilos. Ele também não reclama da poluição. A sujeira que desce por aqui é uma drogazinha besta da lavagem de cana, afirma, conformado. Apaixonado pela Lagoa Mundaú, Pedro dos Santos, 54 anos, mudou-se do Vergel e montou sua casa na outra margem. Aquilo lá tá uma imundície. Ele fala da favela Sururu de Capote, que destruiu parte da paisagem da lagoa e vem matando peixes e a vegetação com os esgotos que lança nas águas da Mundaú. Tá tomado de maloqueiro aquele lado. Quebram tudo. Um dia quebraram meu barco. Fui reclamar e levei foi um tiro no braço, revelou, mostrando a cicatriz. A Lagoa Mundaú é um verdadeiro esgoto a céu aberto. Esta foi a definição dada pelo gerente do laboratório do Instituto do Meio Ambiente (IMA), Manoel Messias, ao apresentar o índice de coliformes fecais calculado na área da favela: em 100 mililitros de água são encontrados 160 mil coliformes. ### Consórcio nacional tenta salvar lagoas Longe de estarem protegidas da degradação, as lagoas Mundaú e Manguaba viraram uma preocupação nacional. Além dos esgotos, suas águas recebem, levado pelos rios Mundaú e Paraíba do Meio em épocas de chuva, o lixo de 21 cidades do interior que não possuem aterro sanitário. Numa tentativa de recuperar as lagoas Mundaú e Manguaba, em setembro de 2004, o governos federal, através da Agência Nacional de Águas (ANA), assinou um contrato com o Consórcio Engecorps, com as empresas Arcadis, Tetraplan, Walm, Booz-Allen & Hamilton, para elaboração do Plano de Ações e Gestão Integrada do Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba (CELMM), coordenado pela Secretaria Executiva de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Naturais. De acordo com o secretário Ronaldo Lopes, a fase atual do plano é de hierarquização dos projetos. Já realizamos o diagnóstico. Estamos escolhendo os projetos que serão executados primeiro. A prioridade é resolver o problema do esgotamento sanitário, afirmou, dizendo que 60% dos estudos já foram concluídos. De acordo com o cronograma da ANA, o prazo final é o mês de julho. Só para a realização do diagnóstico foi investido R$ 1 milhão. Para a execução dos projetos, o orçamento previsto é de R$ 100 milhões, que devem ser gastos até o final dos trabalhos. A região das lagoas Mundaú e Manguaba abrange um dos sistemas estuarinos mais importantes do país e vem sofrendo um processo acelerado de degradação ambiental, afetando, direta e indiretamente, os cerca de 260 mil habitantes que vivem no seu entorno, dos quais 5 mil são pescadores, segundo a ANA. região estuarina A Lagoa Mundaú tem cerca de 27 km², constitui o baixo curso da bacia hidrográfica do rio Mundaú, que percorre 30 municípios. A lagoa Manguaba, por sua vez, tem aproximadamente 42 km² e constitui a região estuarina dos rios Paraíba do Meio, que corta 20 municípios, e Sumaúma, que percorre seis cidades. Além das lagoas, o plano de ações que está sendo elaborado para o CELMM abrange também 21 cidades, por onde correm os rios Paraíba e Mundaú. A maioria dessas cidades não tem aterro sanitário, e o lixo, em épocas de chuva, acaba sendo levado para as lagoas, explicou Ronaldo Lopes, dizendo que grande parte dos recursos será destinada para o saneamento dessas cidades. Santa Rita Na APA de Santa Rita, no município de Marechal Deodoro, as construções irregulares continuam ameaçando ecossistemas inteiros. Em 1965, a área construída na APA representava 0, 28% da área total, que é de 10.230 hectares. Em 1995, o percentual subiu para 2,53%, de acordo com pesquisa realizada por Luciano Cintrião Barros, da Universidade Federal de Alagoas e mestre em Geociências pela Universidade Federal de Pernambuco, onde está cursando o doutorado. Na mesma pesquisa, Luciano revela que a área de mangue diminuiu, durante os anos estudados, 5%. Hoje, a degradação ambiental na APA é bem maior. Segundo o secretário do Meio Ambiente de Marechal Deodoro, Redson Cavalcante, as casas estão avançando para dentro da lagoa Manguaba e áreas inteiras de mangues estão condenadas por causa do lixo. Esta semana, notificamos cinco casas por não terem fossa e jogarem dejetos orgânicos direto na lagoa, segundo ele, o número de notificações ainda é muito baixo. Vamos notificar mais residências. A maioria é irregular. Estamos identificando os proprietários, afirmou. Outros cinco moradores da APA de Santa Rita foram autuados pelo Ministério Público por terem os esgotos de suas casas mirados para o Canal dos Mamões, que abriga uma extensa faixa de mangue. Estamos negociando a recuperação da vegetação. Se houver desobediência, os proprietários terão que pagar por crime ambiental, garantiu Redson Cavalcante.