Cidades
Melhor idade curte lazer e amigos em baile de clubes
| REGINA CARVALHO Repórter Eles descobriram a vida depois dos 60 anos. Gostam de dançar, fazer novos amigos e namorar. Alguns preferem que se intitule de melhor idade, uma fase em que, como as demais, surge, inevitavelmente, um turbilhão de sentimentos novos. É um período da vida que, na verdade, exige cuidados especiais, como sugerem especialistas. Segundo o geriatra Dênis Antonio Santos de Melo, no ano de 2025 o Brasil ocupará a sexta posição em população de idosos no mundo. Em Alagoas os idosos representam cerca de 7% do número total da população. Esse é o segmento da população que mais cresce, por isso precisamos estar preparados para acolhê-los, enfatizou o médico. Hoje é a primeira vez que venho aqui e participo desse tipo de encontro de idosos. Estou gostando, relatou Manoel da Silva, de 77 anos. Viúvo duas vezes e natural do município de Atalaia, o aposentado confessa outro objetivo de sua vinda a Maceió para participar de encontros com grupos de idosos: Acho que também posso encontrar um casamento por aqui, confidencia, esperançoso. Enquanto fabricava de forma desajeitada um tapete com retalhos de pano, parte de uma dinâmica feita por funcionários do Sesc-Poço com idosos, Manoel acenava com a cabeça que nenhuma das freqüentadoras tinha lhe agradado. Não encontrei ninguém hoje. Quem sabe da próxima vez, lamentou. Saudade Aos 73 anos, a aposentada Maria Luiza da Silva ainda chora ao lembrar da filha, que tinha apenas 18 anos quando morreu vítima de uma bala perdida no bairro do Poço. O fato ocorreu há quase três décadas, mas todos os dias ela lembra da adolescente. Era uma filha sensacional, carinhosa e que me amava muito, acrescentou a aposentada. Para amenizar o sofrimento, Maria Luiza freqüenta, uma vez por semana, o Sesc do bairro do Poço, onde participa de várias atividades destinadas a idosos. Aqui eu esqueço meus problemas. Gosto de dançar quadrilha e pastoril. Mas do baile eu não participo porque não sei dançar esse tipo de música. Gosto mesmo é de ficar observando, disse Maria Luiza. Mãe de três filhos e avó de três netos, Maria perdeu o primeiro e único marido há 35 anos. Quem tem filha não deve se casar de novo, pois o homem pode estar de olho na filha e não na mãe. Também não quero mais namorar, disse ela, entre risos. Maria confessa um sonho: Quero ser bisavó. Tenho a maior inveja de quem tem bisnetos. Conheço gente mais nova que eu que já é bisavó, e eu não, relatou Maria, que não participou do baile porque estava com dor no joelho. Melhor idade O geriatra Dênis Antonio pondera sobre o termo melhor idade, bastante utilizado para definir os idosos. Melhor idade quem faz é o indivíduo. Utilizar esse termo parece mais uma forma de mascarar a realidade. Essa fase (acima de 60 anos) é como as outras. Merece atenção especial, mas a sociedade deve encarar também como uma fase, detalhou o médico. Dênis Antonio ressaltou ainda a importância de atividades físicas e recreativas nessa fase. É importante também que eles possam se distrair, enfim, conhecer pessoas, explicou. O técnico especializado em recreação Antonio Rocha relata a experiência de trabalhar com idosos. É muito gratificante trabalhar com eles, são o melhor público para se trabalhar. Eles não têm vergonha de pagar mico. Não têm pudores. São sinceros e disciplinados, disse. Trabalhando há oito anos no Sesc do Poço com idosos, Antonio Rocha destaca que muitos deles conseguem namorar durante os encontros. Eles pegam o microfone cantam e falam, sem timidez. Não têm problema com isso, destacou. No repertório preferido pelos idosos, nos bailes e atividades, estão os cantores Wilson Batista, Herivelton Martins, Carmen Costa e Lupiscínio Rodrigues. ### Encontros ajudam a superar dor e perda Meu nome artístico é Elza Mazzei. Assim se apresentou a viúva duas vezes, de 70 anos - ou melhor, 7.0 turbinado, como ela mesma declarou. Elza freqüenta grupos de idosos há 11 anos e relata a experiência. É maravilhoso estar aqui. Não pensei que seria tão bom. A gente esquece até a idade que tem, diz, vivamente animada. Com duas filhas e cinco netos, ela confessa que hoje tem um companheiro. Casar é muito bom. Esse meu companheiro é quatro anos mais novo que eu. Acho que dessa vez eu vou embora [morro] primeiro, diz. Nascida no município de União dos Palmares, Elza Mazzei foi morar com o pai em São Paulo, onde viveu 57 anos. Perdi um filho aos 54 anos e superei a perda com muito esforço. Esses encontros me ajudaram muito, disse a aposentada, que informou gostar mais de Maceió do que da capital paulista. Fui morar lá na época porque meu pai foi trabalhar. Agora só vou a São Paulo a passeio, declarou Elza. Inclusão social Para o geriatra Dênis Antonio, é fundamental a inclusão de idosos na sociedade. Dessa forma, segundo o médico, eles terão mais saúde física e mental. O poder público precisa se estruturar para receber o idoso, já que esse é o segmento que mais cresce, informou. De acordo com ele, medidas simples poderiam facilitar a vida dos idosos. As calçadas são um grande problema. Elas são desniveladas e acabam impedindo que idosos possam andar tranqüilamente. Recebo muitas reclamações deles sobre isso, que questionam como poderão passear desse jeito, resaltou o geriatra Dênis Antonio. Vandete Tavares do Nascimento, aposentada, 70 anos e viúva há 20 anos, tem nove filhos, 21 netos e uma bisneta de dois anos. É ótimo participar de grupos. Esses encontros me ajudaram a superar a ausência e a saudade do meu marido, afirmou ela. ### Médico diz que idosos são esquecidos O médico geriatra Dênis Antonio Santos de Melo lamenta o fato de os meios de comunicação fazerem, com muita ênfase, apologia à juventude e esquecerem os idosos. O envelhecimento é uma fase como outra da vida. E deve ser encarada dessa forma, destacou o geriatra. No Sesc, localizado no bairro do Poço, que oferece atividades para idosos, a maioria dos freqüentadores é formada por mulheres. Apenas 5% dos freqüentadores são homens. As mulheres participam com desenvoltura das atividades, práticas e brincadeiras feitas pelos funcionários do Sesc. Os homens preferem jogar dominó ou mesmo conversar. Poucos resolvem se integrar ao grupo, mas nem por isso ficam desatentos às brincadeiras. O Projeto Corpo e Movimento, promovido pelo Sesc-Poço, prevê dinâmicas para pessoas com idade acima de 50 anos. Boa parte dos participantes já perdeu o companheiro, outros estão separados há muitos anos. Nossa dinâmica objetiva trabalhar as articulações, por exemplo, como a construção de tapetes artesanais, feitos com retalhos. Nesse caso, como não vai dar tempo de terminar aqui, elas levam a atividade para ser terminada em casa, disse Ezyl Vânia Ângelo, coordenadora do projeto. Uma vez por mês, o projeto é realizado entre os idosos e, na última quarta-feira de cada mês, um baile lota o ginásio do Sesc-Poço. Eles participam intensamente dos bailes, lotam todo o espaço disponível. Escolhem o repertório e muitas vezes até a banda que vai tocar, destacou a coordenadora. De acordo com ela, o Sesc abre espaço para outros idosos, além dos associados. Recebemos pessoas do próprio Sesc e de várias comunidades do Estado, acrescentou Ezyl Vânia. A coordenadora disse ainda que o grupo organiza viagens. Eles também escolhem o local para onde querem ir, acrescentou Ezyl. O grupo conta com cerca de 600 freqüentadores. Na última quarta-feira, dia de projeto Corpo e Movimento, duzentos idosos participaram da dinâmica, no horário de 15 às 17 horas. Inscritos no programa pagam R$ 2 mensalmente ao Sesc, aberto também para outras comunidades. O geriatra Dênis Antonio acrescentou que os idosos dependentes precisam de cuidados especiais, mas eles necessariamente não devem ser tratados como crianças. Eles têm um passado que não pode ser negligenciado e experiência de vida que deve ser respeitada, explicou o médico. Doença Alzheimer é uma das principais doenças que ocorrem nessa fase, e não tem cura. Entre 60 a 65 anos, ela aparece em menos de 1%, mas a partir dos 85 a prevalência da doença gira em torno de 40%. Atividade física e alimentação saudável são as principais formas de prevenção. É preciso que os parentes dos idosos estejam atentos para os sinais que apontam a presença da doença. A exemplo do esquecimento da idade, do dia da semana e da perda de objetos, concluiu o geriatra Dênis Antonio. O mal de Alzheimer é uma doença progressiva, de causa e tratamentos ainda desconhecidos. Segundo levantamento de especialistas, no Brasil existem pelo menos um milhão de pessoas com a doença. No dicionário Aurélio, consta que idoso significa que tem bastante idade; velho. A medicina considera que essa fase começa depois dos 60 anos. Amizades Entretanto, mais jovens resolveram optar por participar dos mesmos ambientes que idosos. Ou seja, muitos se sentem bastante à vontade para fazer novas amizades e firmar relacionamentos com pessoas dessa faixa etária, como é o caso de Léa, de 50 anos. Me sinto muito à vontade nesses bailes. É uma grande diversão, onde faço muitos amigos. Participo há cinco anos de encontros com mais velhos, explicou Leá, que preferiu não citar seu sobrenome e curtia o baile no Sesc-Poço.