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Sirene aberta, saia da frente: alguém espera por socorro

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PLÍNIO LINS Repórter Trânsito engarrafado na Avenida Fernandes Lima, na hora mais complicada, pouco depois do meio-dia. A sirene aberta pede passagem. Motoristas abrem caminho como podem, outros fingem que não é com eles. A ambulância vai se esgueirando, desvia para a direita e a esquerda, mas empaca atrás de alguns veículos que não se movem. A sirene muda de tom, solta um alarme ainda mais nervoso. No alto falante, uma voz feminina: Abram caminho, emergência!. Finalmente um táxi sobe na calçada, a ambulância se esgueira por uma brecha que é a conta de sua largura, fura o sinal vermelho e segue em frente. É o Samu em ação. Em algum lugar da cidade, uma vítima - de tiro, infarto, facada, queda, derrame, seja lá o que for - espera ser salva, ou a ambulância a leva para um hospital. O socorro foi acionado pelo telefone gratuito 192. Durante dois dias da semana que passou - terça-feira 7 e quarta-feira 8 - a Gazeta acompanhou, dentro das ambulâncias e na sede do Serviço de Atendimento Móvel de Emergência (Samu Maceió), no Farol, a atividade incessante de médicos, paramédicos e profissionais de apoio ao serviço. Terça e quarta-feira são considerados dias tranqüilos no Samu - mas pelo corre-corre e pelo ritmo de chamadas, pode-se avaliar como são os plantões nas noites e madrugadas de um fim de semana, quando a coisa esquenta pra valer, diz um médico-socorrista. MULTIPLICAÇÃO A primeira surpresa para quem pergunta sobre o Samu é o número de ambulâncias. A impressão é de que são dezenas. Mas, hoje, circulam em Maceió apenas sete. Parece que é muito mais, porque elas não param mesmo, a gente vai pra todo canto e a sirene chama a atenção, diz o motorista Luciano, que na terça-feira tirava o plantão de coordenador de frota. É mais ou menos isso: elas acabam se multiplicando. O Samu Maceió tem 19 ambulâncias - além das sete que estão nas ruas, mais sete estão em manutenção e outras cinco, novas, estão paradas, à espera do treinamento dos profissionais. No início de julho, sete delas entram em operação: quatro na capital e as outras três ficarão em cidades da Grande Maceió: uma na Barra de São Miguel, outra na Barra de Santo Antônio e a terceira na Chã do Pilar. ### Coma alcoólico, hemorragia, facada... Terça-feira, 7h22 da manhã: no pátio de ambulâncias do Samu, na Rua Goiás, Farol, o toque curto da sirene interna: uma equipe se mobiliza. A chamada vem da Ponta da Terra. A ambulância é do tipo Unidade de Serviço Básico (USB), que só leva paramédicos: três técnicas em enfermagem e um motorista (a denominação é condutor-socorrista, ele recebeu treinamento no Corpo de Bombeiros). A partir do momento da chamada até a chegada ao local, passaram-se 13 minutos. Um homem negro, magro e sem camisa, jaz no chão, rodeado de gente. Cachaça, diagnostica uma das socorristas. E é mesmo. Depois de algumas perguntas rápidas a parentes e vizinhos, o homem é colocado na maca, com soro na veia. A ambulância parte para o Pronto-Socorro. No meio do caminho, o paciente entra em convulsão. A ambulância abre a sirene, acelera e chega em poucos minutos. O paciente dá entrada, mas surge um problema que está ficando crônico para o Samu: o HPS demora a liberar a maca da ambulância. Como o hospital tem poucas macas, a da ambulância é usada e fica retida durante quase 20 minutos. Resultado: o Samu gasta mais tempo no HPS para liberar uma maca do que para atender a chamada, sair da central, atender o paciente e levá-lo para o hospital. Enfim, ele recebeu socorro rápido na rua, mas demorou para ser atendido no HPS. Em casos mais graves, isso pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Uma enfermeira da ambulância resumiu bem: Depois do Samu, o povo está deixando de morrer na rua para morrer no hospital. Ela sabe o que diz. NADA A FAZER De volta para a central, as chamadas não param; é um entra-e-sai incessante de ambulâncias. Entramos em outra USB: uma jovem, funcionária do Banco do Nordeste, no Farol, está com hemorragia. Ela entra no soro, dentro da ambulância e é removida para o minipronto-socorro do Jacintinho, tudo em 20 minutos. A USB retorna à base. A sirene no pátio toca novamente, agora um toque longo - sinal de caso grave, que mobiliza uma ambulância tipo USA (Unidade de Serviço Avançado), com um médico no comando. Uma mulher foi esfaqueada na Levada. Oito minutos depois, o médico Paulo Alencar, meio desolado, diz que não há nada a fazer: a mulher está morta, no meio da rua. Agora é com o IML, diz. O assassino está preso numa viatura da PM, ali perto. A pequena multidão quer linchá-lo. Vamos embora, diz o médico. É melhor sair de perto mesmo. |PL ### Motorista tem que ser meio doido Motorista de ambulância, todo mundo sabe, é bicho meio doido. Tem que ser!, diz Reinaldo, o Delegado, que faz questão, como os outros companheiros, de corrigir: condutor-socorrista. - Aqui nesse volante a gente tem que ser atrevido mesmo, mas com perícia. Delegado se orgulha de seu recorde no Samu: numa emergência, levou uma ambulância do Farol à Chã do Pilar em 17 minutos. O médico cronometrou, garante. Casado, 33 anos, pai de um casal de filhos, ele lembra que não se atrapalhou ao ter que dirigir ambulância: já havia sido motorista de presídio, taxista, motoqueiro de pizzaria... Só não fui coveiro, o resto a gente desenrola. Brincalhão, conversador, Delegado se dá bem com todo mundo e gosta do que faz. Você tem que conhecer bem a cidade toda, tem que saber os atalhos para sair do trânsito pesado, ensina. Passar pela Fernandes Lima ao meio-dia e no início da noite, só se não houver outro jeito. Na hora de abrir caminho com a sirene ligada, ele se irrita com motoristas que, ao invés de ajudar, atrapalham. Uns querem correr mais do que nós, e ficam na frente. Mas o pior é o motorista que, quando houve a sirene atrás dele, freia. Não é para frear, é para andar, abrir caminho!. Um condutor-socorrista trabalha em plantão de 12 horas, folga 24h, depois dá outro plantão de 12 horas e, aí sim, tem folga de quatro dias seguidos. O salário é o maior desgosto deles: no máximo, 425 reais. Por isso, nas folgas, muitos deles fazem bicos como segurança, dirigindo táxi ou ônibus, ou tocam pequenos negócios. Everaldo, o Sexta-Feira (além da semelhança física com o ex-vice-prefeito, até a voz é parecida) reclama no mesmo tom do Delegado: É muito pouco, amigo. A gente dá o sangue aqui e merece mais. MUSIQUINHA ROMÂNTICA Para o Samu atender a ocorrências violentas (tiro ou facada) em grotas ou outros pontos perigosos, precisa de reforço policial. A gente só desce para a grota com o Copom [da PM] junto, diz Delegado. O bandido ainda pode estar por ali e alterar. - O problema - ele prossegue - é conseguir falar com o Copom numa madrugada de fim de semana. A gente liga pro 190, está sempre ocupado. Aí eles botam música romântica pra você ouvir enquanto espera. A vítima sangrando lá na grota, a bala comendo em volta, a gente desesperado no celular e tem que ouvir musiquinha romântica! |PL ### Ambulância é do Lula ou do Lessa? Uma mulher de 58 anos, hipertensa e diabética, desmaiou na fila para recadastrar o cartão de idoso da Transpal, na antiga Estação Rodoviária, no Poço. Enquanto a maca é levada lá para dentro, um grupo fica olhando, curioso, a ambulância do Samu aberta. Como em toda parte, as pessoas pobres elogiam e respeitam o serviço. Duas mulheres discutem. - É do Lula, mulher! A ambulância é do Lula! - Nada, é do Ronaldo Lessa! - É do Lula, menina, olha aqui - e aponta a logomarca do governo federal (Brasil, um país de todos) na lataria. - Ela veio de Brasília! - É, mas se o Ronaldo Lessa não fosse lá trazer pra cá, não tinha nada - rebate a outra, mostrando a logomarca AL-Saúde, também na viatura. As duas, à sua maneira, têm razão. O Samu é parceria. O governo federal dá as ambulâncias e repassa, mensalmente, R$ 189 mil para as despesas com o sofisticado equipamento de telefonia e a manutenção física do prédio-sede e das viaturas - consertos e equipamentos. O Estado paga toda a folha salarial, o combustível e o custeio (água, energia, telefones convencionais, material de expediente). UTI MÓVEL As ambulâncias são furgões Mercedes Sprinter (as melhores), Fiat Ducato e Fiat Iveco, movidas a diesel e adaptadas na fábrica para serem UTIs móveis de dois tipos: a USB e a USA.

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