Cidades
Trote, o inimigo número 1 do Samu
PLÍNIO LINS Repórter Quando alguém liga para o 192 põe em movimento um processo que inclui checagem, registro, perguntas, avaliação, decisão e, por fim, coloca a ambulância na rua. Tudo tem que ser rápido e preciso. Samu Maceió, bom dia, diz a atendente, ou técnica auxiliar de regulação médica (TARM), uma telefonista terceirizada e treinada para isso. São sete ou oito TARMs por plantão de seis horas (no total há mais de 40 no Samu). Ela ouve a ocorrência, tenta acalmar a pessoa do outro lado da linha para obter as informações e levar os dados ao computador. Faz perguntas, digita as respostas e passa tudo, o mais rápido possível, para o médico-regulador. Este é quem comanda o processo. Cabe a ele decidir, primeiro, se é necessário deslocar uma ambulância ou se ele próprio pode orientar o solicitante para o socorro, em casos menos graves - que ocorrem muito. (O médico-regulador é, ele próprio, um médico-socorrista, também vai para a rua em seus plantões). Constatada a necessidade de ambulância, o médico-regulador decide se é caso de mandar uma Unidade de Serviço Básica (USB), só com paramédicos, ou uma Unidade de Serviço Avançado (USA), com médico e mais estrutura. Isso decidido, ele passa ao operador de rádio, que pode acionar uma ambulância que esteja na rua, perto da ocorrência e disponível, ou mobilizar uma equipe do plantão. Tudo isso, no entanto, vai por água abaixo se ocorreu a praga que é o inimigo nº 1: o trote. Tem trote de todo jeito, diz Elisângela, uma TARM. É incrível como existem até mães que ligam para cá e botam um filho para dar o trote. As TARMs, com o tempo e o treinamento, desenvolveram truques e macetes que ajudam a saber se a ligação é trote. Todos os telefonemas são gravados - e se o autor do trote for pego, vai ter problemas com a polícia. Há, ainda, uma sala de supervisão (chamada de Sala Big Brother) que registra e grava tudo o que for dito e feito. DIFERENÇAS Um médico-socorrista do Samu não parece médico - parece mais um piloto de avião de caça, apenas sem o capacete. Ao invés do jaleco ou da bata imaculadamente brancos, um macacão azul-marinho grosso, meio desbotado e cheio de bolsos. No lugar de sapatos brancos, botinas pretas de cano médio. E, principalmente, não há o conforto de um consultório ou a estrutura de um hospital: é tudo na rua, tenso, cercado de gente nervosa. ### É como hospital de campanha O Samu Maceió ocupa um prédio amplo, onde ficava a antiga sede da 1ª Região de Saúde, no Farol, ao lado do Hospital Portugal Ramalho. No comando dos 499 funcionários (médicos, paramédicos e pessoal administrativo) está um jovem médico de 33 anos, Ernann Tenório de Albuquerque Filho, formado em 1996 pela Ufal. Nascido em Brasília, veio para Alagoas ainda estudante secundarista. Depois de formado, fez residência e mestrado em Ribeirão Preto (SP) e voltou para Maceió. Está no Samu desde a criação, em julho de 2003. Era socorrista e, em dezembro daquele ano, assumiu a coordenação-geral. Quando Kátia Born substituiu Álvaro Machado na Secretaria de Saúde, um abaixo-assinado do pessoal pediu sua manutenção no cargo. Ele foi mantido. Ernann, um aficcionado por computador, jeito de garotão com uma vistosa tatuagem na parte interna do braço direito, até hoje ainda sai para fazer socorro na rua. Ele concorda com os colegas: é estimulante trabalhar nesse tipo de socorro. É como um hospital de campanha em guerra, diz. Aliás, ele lembra que esse tipo de estrutura foi mesmo inspirada nos hospitais de guerra franceses. PEGA E LEVA A nossa missão é chegar à vítima o mais imediato possível, tentar estabilizá-la e levar para o hospital. Se houver condições de fazer esse atendimento ali mesmo, na rua, vamos fazer. Se o trauma for mais grave, a ordem é: pega e leva, rápido. (PL)