Cidades
Ele não deixou dívidas nem dinheiro
PLÍNIO LINS Repórter Benedito Mossoró registrou três filhos como seus: Rosa, hoje com 49 anos, Ruydael - filhos do casamento com Gedalva - e Roberto, que na verdade se chama Alberto, hoje com 58 anos. Ruy é arredio, segundo os irmãos, e não gosta de tocar nos assuntos referentes à vida do pai. Mossoró dizia ter perdido a conta dos filhos que fez em outras mulheres e que sumiram. Rosa incorporou o nome Mossoró ao seu. Tem orgulho do pai. Seguiu rumo profissional parecido com o de Seu Biu - é dona de uma boate GLS em Jaraguá. O mundo gay é tudo para mim, diz ela. Rosa garante ser hetero, mas os gays são a minha segunda família. Foi o pai quem a ajudou a montar seu primeiro negócio no mundo da noite. O DINHEIRO SUMIU Roberto, o filho mais velho, mora com a mulher, Meire, na casa do Canaã, que era vizinha à Areia Branca. Meire, 55 anos, veio de Jequé (BA), nos tempos áureos da boate, trazida por uma mulher para trabalhar num bar. Chegou e viu que o emprego era de prostituta. Ficou uns 15 dias atendendo clientes. Depois, Roberto a tomou para si. Vivem até hoje. Têm um filho. Roberto é, na certidão, Alberto Nascimento Santos, filho de Maria Rosa do Nascimento, uma das namoradas que Mossoró teve ainda no tempo de pintor. Acontece que Mossoró só conheceu o filho quando este já tinha 15 anos, era pescador e morava no Beco da Baiana, perto do campo do CRB, na Pajuçara. Todo mundo me chamava de Roberto, inclusive o velho. Mas quando ele foi me registrar, eu já tinha 21 anos. Botou lá Alberto, não sei por quê. Depois que Mossoró morreu, correram históricas na cidade de que os filhos, principalmente Roberto, acabaram com o dinheiro e o patrimônio do velho. Que dinheiro, homem? Não tinha dinheiro nenhum! Nós procuramos de todo jeito, mas ninguém sabe. Se ele tinha dinheiro, sumiu, garante Alberto/Roberto. No banco não tinha nada. A gente via um monte de talões de cheques com ele, mas depois que ele morreu, fomos nos bancos e as contas estavam zeradas, diz o filho. Ele não deixou dívidas nem dinheiro. Rosa prefere não falar no assunto. Deixei tudo para lá, vivo a minha vida. Roberto e Meire dizem que nem jóias houve na herança. Só a casa e a boate. Ele tinha nove empregados. Pagamos as indenizações com pedaços do imóvel e ficamos morando aqui. ### Noite histórica no Casablanca No verão de 1992, Benedito Mossoró concedeu a última grande entrevista de sua vida. Foi na Conversa de Botequim, que nas noites de quinta-feira entrevistava personagens diante do público do Bar Casablanca, na Ponta Verde. A boate Areia Branca havia completado 25 anos de existência, e Mossoró já estava no ramo havia 37 anos. A ocasião era propícia para a entrevista. Mas foi um custo convencê-lo. O apresentador das entrevistas - que assina esta reportagem - valeu-se da ajuda do advogado Mendes de Barros, antigo freqüentador e amigo de Mossoró, para a empreitada. Foram duas longas cantadas, na varanda da casa do homem. Por fim, Mossoró deu a senha de que topava: - Tem uísque bom lá, ou eu tenho que levar do meu? ENTRE AMIGOS Benedito Mossoró chegou ao Casablanca a bordo de seu Opala Diplomata claro, com uma pequena comitiva de meninas. O bar inteiro, lotado (a rua teve que ser fechada para caberem mais mesas), irrompeu em aplausos para recebê-lo. E foi uma noitada inesquecível. Em quatro horas de entrevista, ele contou sua vida, riu muito, lembrou casos, revelou fatos desconhecidos, foi discreto quando era preciso. Tomou uísque - a casa colocou um bom escocês na mesa - e ficou à vontade. Cercado de amigos, mostrou ser um daqueles que, quando se vão, deixam saudades. |PL ### VERDADE OU FOLCLORE? Histórias de Mossoró caíram na boca do povo Mossoró pára seu Galaxie na porta da barbearia. Entra, senta na cadeira do barbeiro e, orgulhoso, pergunta: - Gostou do meu Galáche? - É Gálaxie, seu Benedito - corrige o barbeiro. - Você fala certo e não tem nenhum. Eu falo errado e tenho dois desse aí. Benedito é convidado para uma festa na Fênix. Chega lá com três meninas. O porteiro cria problema. O senhor pode entrar, mas elas não. Por quê?, pergunta Mossoró. Porque são mulheres suspeitas. Não, são putas mesmo. Suspeitas são essas madames aí dentro. Mossoró vai a uma loja de materiais de construção comprar coisas para uma obra que fazia na boate. - E para a cozinha e o banheiro, seu Benedito, vai levar azulejos? - pergunta o dono. - Ali eu quero bem colorido. Vou levar azulejo, amarelejo, verdejo e branquejo! Liqüidação de cuecas nas Nações Unidas, loja do Comércio. Mossoró compra logo uma dúzia. Leva todas para a costureira - ele mandava bordar seu nome em todas as suas roupas. Para facilitar o trabalho dela, diz: Na primeira, escreva Benedito. Nas outra só ponha idem, idem...