Cidades
Batida em ônibus provoca polêmica
Fátima Almeida Repórter As operações de revista de passageiros, feitas pela Polícia Militar com intuito de inibir as ações de assaltantes dentro dos ônibus urbanos, começam a provocar reações negativas em setores da sociedade civil. Esta semana, representantes da Associação Beneficente dos Moradores da Chã de Bebedouro entregaram à Comissão de Direitos Humanos da OAB e ao Centro de Gerenciamento de Direitos Humanos da Polícia Militar um documento criticando a maneira como vem sendo feita a abordagem, e alegando constrangimento do cidadão. A iniciativa ganhou a adesão da Federação das Associações de Moradores e Entidades Comunitárias de Alagoas (Famecal), que pretende provocar a discussão com as instituições de direitos humanos e o Ministério Público, estendê-la a outras associações filiadas e, se for preciso, provocar o engajamento de toda a sociedade, chamando outras entidades. Concordo em que a abordagem policial é necessária, mas não da forma como está sendo feita. É muito rudimentar. Existem equipamentos que permitem uma ação menos constrangedora para o cidadão, destaca Antônio Sabino, presidente da Famecal. A avaliação reforça a tese da Associação da Chã de Bebedouro, que defende a ação policial de repressão aos assaltos a ônibus, ocorridos com freqüência em Maceió, mas de forma mais sutil. O que vemos são imagens de paredões formados por moradores e trabalhadores que, depois de uma jornada de trabalho, são obrigados pela polícia a descer do ônibus com as mãos para o alto e uma metralhadora na cabeça, para serem revistados, inclusive nos órgãos genitais, de forma grosseira, destaca Sérgio de Oliveira Lima, presidente da associação. Na avaliação do líder comunitário André Feijó, a polícia poderia evitar esse tipo de constrangimento, sem comprometer a ação, utilizando instrumentos detectores de metal nas revistas. A avaliação feita pela diretoria da associação é de que as ações, além de constrangedoras, não estão surtindo o efeito desejado no combate ao crime no interior dos coletivos, primeiro porque os assaltantes não permanecem dentro do ônibus. Geralmente eles entram, anunciam o assalto, agem rápido e descem. Depois, como a revista é feita só nos homens, o bandido pode passar a arma para a companheira, ao perceber uma blitz, destaca Feijó. Eles querem que a OAB e a comissão de Direitos Humanos da PM adotem providências para corrigir o que consideram uma ação equivocada e desastrosa. ### Rodoviários reagem contra mobilização Da polícia, a Associação dos Moradores de Chã de Bebedouro cobra que seja colocado o pessoal de inteligência para investigar e descobrir os pontos críticos e fazer uma pressão responsável. Dos empresários cobra responsabilidade na instalação de equipamentos de filmagem dentro dos ônibus; e da prefeitura, a licitação pública para a exploração das linhas de transporte. A categoria dos rodoviários reagiu de maneira crítica à iniciativa da associação. O presidente do Sindicato dos Rodoviários, Divanildo Ramos, chegou a insinuar que uma mobilização dessa, contra a ação policial, só beneficia os bandidos. Reação de classe Não acredito que pessoas que querem a segurança dos passageiros sejam contra essas blitze. Acho que eles nunca foram assaltados ou nunca tiveram alguém da família numa situação dessa. Pensei que a ação da polícia só incomodaria os bandidos. Será que não tem ninguém querendo se aproveitar disso?, indagou Divanildo. Segundo ele, este ano já ocorreram 223 assaltos a ônibus em Maceió, dos quais 46% em Bebedouro, exatamente onde está surgindo a mobilização contra a ação da polícia. MENOS ASSALTOS Divanildo afirma que desde que as blitze começaram, há cerca de um mês, os assaltos teriam diminuído muito. Ele destacou que a categoria vai continuar defendendo a ação policial com blitze dentro dos ônibus, porque foi uma medida amadurecida, fruto de muitas discussões sobre o combate à violência nos coletivos e vem surtindo efeito. Várias pessoas foram presas com armas. Gente que ia assaltar e já estava dentro do ônibus. Para nossa segurança e dos passageiros dos ônibus, vamos defender a continuidade da ação, disse Divanildo, destacando que o cidadão de bem tem que entender, quando é abordado, que essa atitude é para sua própria segurança, porque o bandido pode estar do seu lado. |FA ### Em 15 operações, só um suspeito preso Os constantes assaltos a ônibus na capital alagoana forçaram a Polícia Militar a realizar um trabalho preventivo nas regiões mais perigosas da cidade. Há cerca de 15 dias, revistas aos passageiros em transportes coletivos vêm fazendo parte da rotina de quem utiliza o sistema para se locomover. Alguns criticam a situação desconfortante de ter que se submeter ao descer do veículo e se postar, de mãos na nuca, até que a polícia confira se alguém está armado. Nenhuma arma Na última sexta-feira, em um dos trechos mais visados pelos assaltantes no Dique Estrada, policiais militares do 1º Batalhão realizaram uma blitz. Nenhum armamento foi encontrado com os passageiros. Segundo o comandante da operação, tenente J. Paulo, foram apreendidas três armas em 15 operações feitas nas últimas semanas. Inclusive prendemos um assaltante que tinha acabado de roubar um ônibus, afirmou. Ele estava com um comparsa que também conseguimos prender, disse, sem saber precisar a quantia em dinheiro que conseguiram recuperar. Era dinheiro e vales-transporte, disse. Para o motorista Erasto Nunes de Oliveira, de 53 anos, a operação policial de revista nos ônibus e aos passageiros é bem-vinda. Ele foi vítima de assalto quatro vezes enquanto trabalhava. Com eles nas ruas me sinto bem mais seguro, principalmente, nesse trecho, afirmou. Já o funcionário público Isaías Tavares confessou que se sentiu um pouco constrangido durante a revista, mas diante da necessidade, não hesita em dizer: Deveria haver blitze todos os dias, sugere. A proporção dos assaltos registrados pelo Sindicato dos Rodoviários (mais de 200 este ano) e as apreensões feitas pela polícia ainda são insignificantes. Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários (Sinttro), Divanildo Ramos, não é a primeira vez que a Polícia Militar reage com blitze e fiscalização intensa nos ônibus como forma de inibir os assaltos. Toda vez que um motorista morre ou é ferido, eles começam a mostrar serviço, revelou o sindicalista. A estratégia inibiu roubos nos pontos críticos do Ouro Preto, Dique Estrada e Benedito Bentes, mas novos assaltos ocorreram na madrugada de quarta-feira (20) e na manhã de quinta (21). O último foi registrado no Mercado da Produção, no bairro da Levada. O bandido atirou no motorista, mas não acertou. CS ### Falta policial para revista em mulheres Nas operações de revista em busca de armas e drogas realizadas nas últimas semanas pela Polícia Militar em ônibus urbanos que trafegam em bairros de Maceió tidos como perigosos, as mulheres são poupadas. O motivo é a falta de policiais do sexo feminino para realizar o serviço. Após espalhar cones pela avenida, cerca de doze policiais se colocam em locais estratégicos, todos com arma em punho e coletes à prova de balas. Todo ônibus é parado. Um policial explica a razão da operação, afirma ser legal a revista e obriga apenas os homens a descerem do veículo. Segundo um dos policiais que estiveram na última sexta-feira no Dique Estrada, próximo ao papódromo, em mais uma operação, a revista é assegurada pelo Artigo 244, do Código do Processo Penal. O tenente J. Paulo, que chefiava a operação no Dique Estrada, disse que o efetivo da polícia feminina é muito pequeno e por isso a revista em mulheres era dispensada. Mas quando observamos alguma senhora em atitude suspeita, convidamos uma cidadã, passamos as instruções para ela e ela mesma faz a revista, explicou, garantindo que o procedimento também é legal e está previsto no mesmo código. De acordo com o tenente, em uma das operações realizadas pela polícia em ônibus, uma arma foi encontrada com uma mulher. Ela estava com um revólver e portava drogas nas partes íntimas, revelou. Para o cobrador José Nunes, assaltado três vezes, na função de cobrador, a operação é muito importante. Deveria acontecer todos os dias. A gente trabalha com o coração na mão, então quando vemos policiais nas ruas, nos sentimos mais aliviados, disse. O comerciante Frank Ismar, de 50 anos, revelou que viajava desconfiado com um passageiro que vinha no mesmo ônibus. Os policiais também desconfiaram e, no rapaz, fizeram uma revista mais detalhada. Nada foi encontrado e o passageiro pôde seguir viagem. Fuga em canoas Para os moradores do conjunto Virgem dos Pobres, no Dique Estrada, a operação tem diminuído os assaltos, mas não é suficiente. Quando os bandidos vêem as viaturas da polícia, logo se escondem. Alguns usam até canoa para atravessar a lagoa e fugir. Tem um galpão aqui próximo que serve de esconderijo para eles, contou a aposentada Maria do Carmo, de 58 anos. Moradora do local há 22 anos, ela fala que depois que a favela Sururu de Capote se instalou no bairro, a criminalidade na região não parou de crescer. Ninguém anda mais tranqüilo. Os ônibus, depois das 17h, não seguem até o final do conjunto. Quem mora por aqui está tendo que se virar, diz ela. Há quinze dias, Maria do Carmo foi mais uma vítima dos assaltos a ônibus. Minha pressão subiu de tanto nervosismo que senti, afirma. Ela ia para a praia, em torno de meio-dia de um domingo, quando dois jovens entraram no ônibus. Ninguém se mexe, teriam dito os bandidos. Eles não levaram nada dos passageiros, roubaram só o dinheiro que estava com o cobrador, disse. Assustada, a aposentada coleciona histórias de violência que escuta no bairro. Minha filha um dia desses foi assaltada no ponto de ônibus. Colocaram uma peixeira no pescoço dela e levaram a bolsa. O tenente do 1º Batalhão da PM, J. Paulo, garantiu que as blitze serão constantes e o alvo não é apenas transporte coletivo. Fazemos revistas em carros particulares e também em transeuntes e motociclistas. |CS