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Famílias trocam Maceió por sossego em povoados

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| CARLA SERQUEIRA Repórter Acordar com passarinhos cantando; colher frutas no próprio quintal para o desjejum, antes de pegar a estrada até o trabalho na capital alagoana já é rotina para algumas famílias que optaram por morar longe dos engarrafamentos, da poluição e, principalmente, da violência. Para as crianças, residir em apartamentos, distantes de áreas verdes ou de espaços onde possam brincar sem uma lista de proibições, é quase ter uma infância reprimida. Já para os adultos que são obrigados a permanecerem doze horas dentro de um escritório todos os dias, a hora de chegar em casa é sagrada. Mas se o lar está situado entre avenidas movimentadas, diante de semáforos, o sossego não é possível sequer em sonho. Até dormir se torna uma atividade estressante. Fugindo destas situações, o casal Marcelo e Luciana Passos, casados há dez anos, trocou, desde 2000, a Jatiúca pela Massagueira, em Marechal Deodoro. Em 10 minutos estou no Centro sem estresse nenhum, diz ele. Pensando numa infância saudável para os filhos, Marcus Nunes e Roselane Castro optaram em viver no Riacho Doce, Litoral Norte da capital. Aqui eles podem ser crianças de verdade, acreditam. ### A boa vida longe do estresse da capital vam num apartamento entre as movimentadas avenidas Jatiúca e Dona Constança. O estresse não dava folga nem nas horas de descanso. À noite, ao invés do silêncio, barulho do trânsito: buzinadas e choques de veículos eram comuns a qualquer hora. Trancafiados num escritório durante o dia inteiro, o publicitário Marcelo e a agente de turismo Luciana Passos sofriam longe da qualidade de vida. Mesmo durante a madrugada, a tranqüilidade não existia: a zoada ficava por conta das tampas soltas dos bueiros. Qualquer carro que passasse, tornava inviável o essencial repouso noturno do casal. Foram cinco anos vivendo desse jeito, contou Marcelo, até decidirmos fugir para qualquer lugar calmo entre as Barras de São Miguel e Santo Antônio. Era muito sofrimento chegar na própria casa, depois de um dia de trabalho, e não conseguir descansar, completa disse Luciana. Depois de pesquisar imóveis nos litorais Sul e Norte de Maceió, resolveram mudar de cidade. Compraram uma casa na Massagueira, bairro de Marechal Deodoro, e lá a vida do casal mudou de ritmo. Vamos dormir ouvindo sapos e grilos; pela manhã acordamos com o canto dos passarinhos, revela Luciana. No quintal, treze tipos de frutas e algumas espécies de orquídeas brotam do solo. Um dos nossos passatempos é sentar na varanda e ficar observando a disputa dos beija-flores pela água acumulada nas plantas, comenta ela. As despesas, de acordo com Marcelo Passos, não aumentaram. Ficou elas por elas, disse, afirmando que o tempo que gastam para ir até a capital, onde passam todo o dia, não ultrapassa 10 minutos de carro. Na volta, os problemas ficam para trás, basta atravessar as duas pontes da AL-101 Sul. A 6km, na Barra de São Miguel, eles dizem contar com supermercado e panificação. Nossa vida mudou 100%, acrescentou Luciana, o pôr-do-sol na lagoa é uma das coisas mais belas que já vi. de cuiabá para o francês A professora de espanhol Lúcia Kozow e seu esposo, o engenheiro civil Luís Carlos, deixaram Cuiabá, no Mato Grosso, onde moraram por vinte anos. O motivo foi a violência. A cidade cresceu e, na mesma proporção, a insegurança, observou Lúcia. Há seis anos, largaram tudo e viajaram durante um mês para encontrar moradia em alguma praia do Nordeste. Queríamos um lugar pequeno para viver com tranqüilidade e quando pisamos no Francês sentimos que não iríamos mais embora, que tínhamos encontrado o lugar certo. Voltaram para Cuiabá, venderam tudo e vieram morar em Alagoas. Uma filha do casal, de 21 anos, ficou. Ela tinha 16 anos na época. A vida aqui era calma demais para ela, diz a mãe. Lúcia ensina numa faculdade em Maceió e Luís Carlos se tornou o presidente da associação dos moradores do Francês. Adoro saber que ainda é possível sentar na porta de casa e ficar batendo papo com os vizinhos. Em Maceió, isso está desaparecendo muito rápido, opina a gaúcha, filha de polonês, Lúcia Kozow. Morando no primeiro andar da casa, o casal aluga o térreo para uma loja de artesanato. Eles contam ainda com o aluguel de quatro apartamentos construídos nos fundos. Quando os nossos parentes vêm nos visitar ficam impressionados com a liberdade que temos aqui, comenta ela, chamando atenção para a quantidade de pessoas que, como ela, trocaram a agitação urbana pela qualidade de vida. Nos primeiros anos, quando eu voltava para casa à noite, a rodovia era praticamente deserta; hoje, diz ela, já tem trânsito, já tem a hora do rush. CS ### Moro na rua onde crianças são felizes Quando alguém pergunta onde mora a pequena Júlia de Castro, de 4 anos, ela sequer gagueja. Moro em Riacho Doce, na rua onde as crianças são felizes. A indicação pode parecer ingênua, mas, de certa forma, é real. Levando em consideração a realidade cada vez mais violenta da capital alagoana, muitas crianças acabam tendo suas infâncias limitadas em quatro paredes. Algumas vivem em apartamentos e as brincadeiras se restringem aos playgrounds dos condomínios. Ananda Zambi, 11 anos, morava num edifício da Ponta Verde. Tinha hora determinada para brincar e não podia fazer barulho; aqui é diferente, subimos em árvores, corremos por toda parte e ninguém reclama, relata. Ela é uma das cerca de vinte crianças que dividem a mesma rua em Riacho Doce, conhecida apenas como vila. Lá a limitação é para os adultos. Na entrada da rua, sem saída, uma placa exibe, em letras garrafais, a frase: Devagar. Aqui as crianças brincam livremente, e determina a velocidade máxima de 20 quilômetros por hora para os veículos. O clima é de comunidade. Basta dar uma volta pelo lugar e descobrir brinquedos espalhados, como se não tivessem dono, fosse de todos. Pode deixar até bicicleta, ninguém rouba. Aqui todo mundo se conhece bem, conta outro morador da vila, David Mateus, de 10 anos. As casas não têm muros e são emolduradas pelo verde das plantas e o colorido das flores. Quando meus filhos acordam eles costumam dizer: ?bom dia, minha mata?; acho maravilhoso essa aproximação com a natureza, relata a arquiteta Nicole Dellabianca se referindo aos gêmeos Kauan e Kauin, de 3 anos. Aqui, longe da rotina estressante da cidade, essas crianças conseguem ter infância de verdade, diz Marcus Nunes, pai de dois filhos com Roselane Castro: a Júlia de Castro, de 4 anos, e o pequeno Lucas, de 3. Quando vamos visitar amigos que moram em apartamentos, o comportamento delas muda, elas ficam acuadas, explica Marcus. Já quando os filhos desses nossos amigos vêm para cá, eles ficam embriagados com tanta liberdade. A boa convivência acaba fazendo bem para a saúde física e, principalmente, mental dos moradores de Riacho Doce. Nossa vida profissional é toda em Maceió. O melhor de trabalhar na capital é quando chegamos em casa. Basta entrar na rua para ser fácil esquecer do mundo e sentir a paz junto da família, revela Marcus. Da Itália para a mundaú Também atrás de sossego, veio da Itália o casal Cinzia Colombini, 51, e Ettore Caldana, 58. Há três meses no Brasil, escolheram a Ilha de Santa Rita, em Marechal Deodoro, para morar. Compraram uma casa e o barulho que escutam durante o dia vem da natureza. Do outro lado da rua está a Lagoa Mundaú. Isso aqui é um sonho, comenta Cinzia, pela manhã, a lagoa está prateada, no final da tarde o tom vermelho cobre a água e eu deliro na varanda, assistindo ao crepúsculo até o fim. Cinzia tem dois filhos brasileiros na Itália. Durante a década de 70 ela morou em Recife e Olinda. Lá não tem mais tranqüilidade. Desta vez quis morar num lugar desconhecido e não podia ter lugar melhor. |CS ### Estrangeiros invadem Litoral Norte Tem muita gente querendo largar o dia-a-dia estressante dos grandes centros urbanos e encontrar um lugarzinho calmo no litoral alagoano para levar a vida. E essas pessoas vêm de longe. Grande parte da Europa. Na Região Norte de Maceió, entre Jacarecica e Ipioca, já moram mais de 100 italianos. De 60 a 70% dos meus clientes são italianos, afirma o corretor de imóveis especializado no Litoral Norte de Alagoas, André Vieira de Paula. Para todos os bolsos A boa vida entre o mar de água morna e as sombras dos coqueirais se tornou disputada. As pessoas estão encontrando mais vantagens em investir em Guaxuma, por exemplo, do que no Aldebaran, diz o corretor, afirmando que tem terreno à venda para todos os bolsos. Esta região é bem democrática. Temos terrenos que variam de preço de R$ 5 mil a R$ 10 milhões. Depende muito da localização, revela. Segundo ele, a procura por casas na região é muito grande. Apesar de eu não trabalhar com aluguéis, cerca de 30 pessoas por mês vêm a minha agência procurando imóveis para alugar, diz André. JUNTO DA natureza A busca pela tranqüilidade e a vida longe das ameaças da violência são as primeiras ambições de quem procura adquirir um imóvel distante da capital. As pessoas também sentem falta de conviver mais em contato com a natureza, afirma André Vieira, confirmando a especulação internacional na região. Estão chegando agora os portugueses, anuncia. Não vou mentir, alguns estrangeiros estão investindo nas praias do Litoral Norte visando à prostituição, reconhece o corretor. Ele atua entre o bairro de Jacarecica e o município de Maragogi. Hoje estão a venda mais de 500 terrenos. As casas de veraneio agora estão se tornando moradia fixa. Tem gente que tem a vida profissional em Maceió, mas moram até em Paripueira. Garça Torta Um dos bairros mais antigos do Litoral Norte é também o mais visado por quem pretende mudar-se para a região. Mas não tem oferta por lá. Quem está instalado, não deixa por nada a Garça Torta. Este êxodo urbano, na opinião do corretor de imóveis André Vieria, é reflexo da má administração municipal de Maceió. A Ponta Verde está um caos. Quem não quer manter o padrão, mas numa região calma, sem barulho, questiona. Segundo ele, a falta de interesse do governo também emperra o desenvolvimento no Litoral Norte. Não temos um sistema de esgotamento sanitário eficiente. A ocupação desordenada me preocupa muito. Tem terrenos públicos abandonados e sendo ocupados, dando início à favelização, conclui. |CS

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