Cidades
Insegurança traz de volta vigilantes que rondam quarteirão
| MARCOS RODRIGUES Repórter A explosão da violência na periferia e nos bairros de classe média de Maceió traz de volta uma profissão, até então esquecida, que são os inspetores de quarteirão, mais conhecidos como vigilantes noturnos de rua. Sem formação profissional para a atividade, eles são fruto do medo. E por quantias que variam de R$ 5 a R$ 50, por cada cliente, ou cada casa do quarteirão onde fazem a ronda, criam uma falsa sensação de segurança em quem não aderiu às empresas que atuam no setor. Os vigias não usam armas de fogo. Mas os mais variados apetrechos, como apito, cassetete, bicicleta, jaqueta improvisada e até bordada, muita boa vontade, muito café com cigarros e força para caminhar ou pedalar. Com o tempo se tornam personagens conhecidos da noite na capital. Se vangloriam de nunca terem tido problemas no pedaço em que vigiam. É assim em Jaraguá, onde o vigilante Zé do Cacete assusta e ao mesmo tempo avisa aos moradores que está acordado. Com ajuda de um cassetete de madeira ele golpeia postes estratégicos da quadra que toma conta, que faz um barulho metálico insistente e agudo para todos escutarem. Só vão saber se estou por aqui com o barulho. Enquanto isso os maloqueiros também desviam o caminho, conta ele sem querer revelar o verdadeiro nome. No meio da noite No trecho em que Zé do Cacete faz a segurança, outros vigilantes também prestam serviço para um militar reformado da PM. Um deles, Cláudio José dos Santos, 42, casado, pai de um filho, está na equipe há um ano e meio. Ele cuida de um dos prédios residenciais numa das esquinas da Rua do Uruguai. Ele conta que começa a trabalhar a partir das 19h e só larga às 6h do dia seguinte. Para isso recebe R$ 200 fixos. Estou satisfeito. Não posso reclamar porque ainda tenho um quartinho de apoio, revela com expressão enrugada. Sua história não difere das demais. Depois de ter carteira assinada, em São Paulo, onde trabalhou por seis anos, voltou para o Estado e foi fazer bico. A história confunde-se com a de José Carlos dos Santos, 39, casado e pai de cinco filhos. Sem escolaridade Já trabalhei em firma e ganhava R$ 300,00. Estou aqui porque não tenho outro meio, desabafou. Mas o perfil mais comum dos seguranças de quarteirão é o do senhor Benedito da Silva, 61. Casado e pai de três filhos, ele atua na área de segurança há 10 anos. Só trabalhei com coisa pesada no porto e em usina. Aí quando vim para cá estou nessa, de olho no que acontece nas ruas para não deixar chegar bandido nenhum. Se chegar perto ou notar que tem algum suspeito rondando, arrocho no meu apito, explica. Assim como os demais, ele também não tem escolaridade. A vigilância de quarteirão virou a única alternativa para quem está desempregado. Com um pouco de conversa, ou um contato com um morador, eles conseguem articular verdadeiras redes de financiadores de seu trabalho. A maneira de fazer contato é informal. Normalmente a partir da visita no horário em que trabalham. A conversa para convencer um morador a aderir ao serviço é um misto de apresentação e extorsão. ### Vigias tratados como anjos da guarda A maneira de fazer contato com o cliente em busca de uma chance para se tornar vigia de quarteirão é informal. Normalmente a negociação é feita a partir da visita no horário em que trabalha. Você está na sua casa e uma pessoa chega pedindo R$ 10 para evitar que seu carro seja arrombado ou arranhado por mês. Quem vai negar? Até para evitar problemas a pessoa aceita, comenta uma moradora do bairro do Mutange, sem querer se identificar. Sua opinião, entretanto, não é seguida pelo frentista Audézio Macena, morador do mesmo bairro. Segundo revela, o retorno para casa, normalmente à noite, é sempre monitorado pelo vigia que sua família mantém. Sei das limitações que eles têm, mas não posso negar que desde que estão por aqui nunca fui importunado, assume Audézio. Iniciativa Mas em outras localidades são os próprios moradores que tentam mobilizar vizinhos para a segurança alternativa. É assim no Conjunto Murilópolis, onde o ex-pedreiro Petrúcio Tenório, 44, casado, pai de dois filhos, trabalha. Com o apoio de um dos moradores, ele virou o anjo da guarda de uma das ruas do conjunto e se tornou uma pessoa de confiança entre os moradores. Foi meu pai quem organizou sua vinda. Graças a ele nunca mais teve roubo de aparelho de toca-fitas ou CDs de carros, nem tentativa de assalto por aqui, conta o estudante universitário Carlos Palmeira, lamentando a falta de adesão de toda a vizinhança. Com as casas da rua e com a ajuda de seu pai, Petrúcio consegue faturar por mês R$ 200. Sou grato pelo que fazem por mim. Tenho a confiança de todos, admitiu timidamente Petrúcio. De sandálias havaianas nos pés e um cassetete na outra ele percorre a rua até o sol raiar. Com a ajuda de Deus tenho me livrado dos perigos da noite, acrescentou Petrúcio. Fuso horário trocado A atividade de vigilante faz os homens trocarem o dia pela noite. Todos contam que para compensar as dez horas de trabalho diário, outras dez são dispensadas na cama. Segundo o vigilante Jarbas Alves, 30, casado, pai de dois filhos, o esforço é válido. É isso que garante o nosso estado de alerta durante a noite. É assim que estou ajudando em casa, argumenta, revelando que recebe R$ 200 por mês. Ele, ao contrário dos demais, tem primeiro grau completo, mas há um ano está fora do mercado. Vestido a caráter, com colete, boina, coturno, percorre as ruas do Farol com a ajuda de um radiocomunicador. Caso perceba algum movimento passo logo a informação para o companheiro. Além disso conto com um telefone que posso acionar a polícia, completa Jarbas. Com dois meses na atividade ele acredita que se desempenhar bem seu trabalho poderá ser reconhecido pelo proprietário de uma das mansões que vigia e voltar a ter carteira assinada. Organização A informalidade da função, entretanto não inviabiliza que em alguns locais os vigilantes demonstrem organização. Em média, quando se tornam conhecidos, chegam a cuidar de até 30 residências. Quando isso ocorre, não hesitam em contratar uma segunda pessoa para dar apoio. Em bairros como Stella Maris, Cruz das Almas, Jatiúca, Jaraguá e Farol é possível encontrar grupos de até quatro vigilantes. As motos também já fazem parte da parafernália utilizada. Hoje, dividem espaço com as bicicletas e radiocomunicadores. Cartazes na parede Segundo os próprios vigilantes, isso é para evitar a aproximação dos ladrões. É melhor podermos contar com isso do que termos que enfrentá-los. A nossa presença é para prevenir, mas se for o caso passamos ao ataque, argumenta Jarbas Alves. Um exemplo é o que ocorre no bairro do Mutange. Lá, além das motos e bicicletas, os vigilantes criaram uma forma de saber onde devem vigiar. As casas que aderiram aos serviços têm afixadas na parede um cartaz com a imagem de um vigilante. A decisão da colocação dos cartazes tem o apoio, inclusive, da Associação dos Moradores do Bairro. |MR