Cidades
Alagoanos das divisas são atraídos por seus vizinhos
MAIKEL MARQUES FERNANDO VINÍCIUS NIVIANE RODRIGUES Repórteres No mapa geográfico de Alagoas estão traçadas as linhas divisórias com três estados vizinhos: Sergipe, Bahia e Pernambuco. Para além dessas linhas imaginárias que dividem os estados existem fatos reais, gente da divisa, que circula entre esses estados, em busca de bons negócios, melhor saúde, lazer, turismo e educação, e também a própria paixão pelo Estado vizinho. São histórias que a Gazeta foi conferir de perto, e constatou coisas singulares, como a vontade dos moradores de um pequeno distrito de Delmiro Gouveia (AL), Barragem Leste, com 10 mil habitantes, que já fazem um movimento de emancipação política do município. Eles alegam que também podem ganhar com os royalties de uma hidrelétrica, a Apolônio Sales, que fica no distrito, e de mais três subestações da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), que hoje reforçam o caixa da Prefeitura de Delmiro Gouveia. O projeto de emancipação já foi enviado à Assembléia Legislativa de Alagoas. Do outro lado do Estado, no Litoral Norte, a cidade-pólo do turismo alagoano, Maragogi, há muito vem perdendo seu mercado comercial e imobiliário para Pernambuco. Todo o fluxo comercial da região está concentrado na cidade de Barreiros (PE). Em Maragogi existe, inclusive, um mercado promissor de transporte alternativo, com viagens diárias para quem mora na cidade e vai às compras em PE. Outra forte presença da cultura pernambucana está na zona da mata de Alagoas. Em União dos Palmares, por exemplo, as ruas do centro da cidade estão coalhadas de barracas e lojas com produtos vindos do pólo têxtil do Estado vizinho, principalmente da terra da Sulanca, Caruaru, a apenas 130 quilômetros de União. Outra região com influência de Pernambuco é a parte da divisa cortada pela BR-101, a Rio-Bahia, separando Novo Lino de Palmares, que se transformou em uma atração para municípios alagoanos. Compro em Palmares porque sai mais barato do que ir a Maceió. Vou toda semana, diz o alagoano Leonardo Nacimento, há 30 anos no comércio. ### Distrito de Delmiro vira terra de baiano Delmiro Gouveia - Os 10 mil habitantes do distrito de Barragem Leste, em Delmiro Gouveia, vivem em função da cidade baiana de Paulo Afonso. Vizinhos da Usina Hidrelétrica Apolônio Sales, recebem energia elétrica da Companhia Energética da Bahia e costumam viajar ao Estado vizinho para cuidar da saúde, estudar, fazer compras e se divertir. Faço tudo isso na Bahia. Eu me considero baiana. Não posso negar, confessa Ailta Suelen da Silva (20), estudante secundarista que raramente se desloca ao perímetro urbano de seu próprio município. Há mais de cinco meses não visito a zona urbana de Delmiro, explicou a estudante. MM ### Barragem Leste quer virar o 103º município de Alagoas De fato, a comunidade vive em função da cidade de Paulo Afonso, que fica bem mais próxima de Barragem Leste. Para chegar a Delmiro o cidadão deve percorrer 33 quilômetros, o que nem sempre é possível, em virtude das dificuldades de transporte coletivo, reconhece Carlos Roberto (PMDB), o Cacau, vereador no exercício do quinto mandato e atual presidente do Legislativo municipal. Pelo paredão Apenas oito quilômetros separam Barragem Leste de Paulo Afonso (Bahia), caso a viagem seja feita pela pista construída sobre o paredão da Usina Apolônio Sales. O tráfego é intenso. Centenas de veículos, com autorização da Chesf, cruzam o paredão da usina diariamente, informa o vigilante Rabelo. Quem não tiver autorização para cruzar o paredão da usina percorre até 40 quilômetros pelas rodovias BR-110 (que liga Alagoas a Pernambuco) e BR-423, principal via de acesso a Paulo Afonso. Acho muito mais fácil cuidar de meus interesses particulares em Paulo Afonso. Moro em Alagoas, mas é como se estivesse na Bahia, diz o eletricista Anísio Rodrigues da Silva, da Vila Moxotó. Se fosse cidade, o Distrito de Barragem Leste teria amplo poder de fogo financeiro, porque abriga em seu território uma usina hidrelétrica e três subestações para transmissão de energia elétrica para todo o Nordeste. A cidade independente teria o que pequenas cidades de Alagoas não têm: receita própria superior a R$ 700 mil por mês. Cidade independente Imagine a revolução estrutural e social que poderíamos promover na comunidade se tivéssemos como gerir uma verba desse tamanho, argumenta Cacau, principal defensor do projeto de transformação de Barragem Leste na 103ª cidade alagoana. Ele defende a emancipação do distrito onde a população vive em função da Bahia. O deputado estadual João Beltrão (PMDB) é o autor de requerimento propondo à mesa diretora da Assembléia Legislativa (ALE) a criação da cidade de Barragem Leste. Cacau argumenta que somente por meio da independência a comunidade teria acesso aos recursos do ICMS gerado pela Usina Apolônio Sales e enviado ao cofre da prefeitura administrada pelo prefeito Marcelo Lima (PDT). Temos usina hidrelétrica e subestações de energia que geram milhares de reais, mas a população recebe poucos benefícios do governo municipal., critica Cacau Machado. ### Hospital da Bahia sustenta demanda de pacientes de AL Paulo Afonso (BA) - O motorista alagoano Gonçalo Alves trabalha há 20 anos como condutor de uma das ambulâncias da Prefeitura de Pariconha, na divisa com Pernambuco. Pelo menos três vezes por semana, ele corre à cidade de Paulo Afonso (BA) para que seus conterrâneos cuidem da saúde. Precisei de ultra-sonografia e não consegui no Hospital de Delmiro. Consegui aqui. E aqui estou, explica a agricultora Izabel de Souza, do povoado Campinhos, em Pariconha. A reportagem da Gazeta viajou ao sertão da Bahia e encontrou dezenas de sertanejos alagoanos à espera de atendimento médico no Hospital Regional de Paulo Afonso. Vim marcar a cirurgia de meu filho aqui, já que não consegui atendimento em Alagoas, diz a também alagoana Maria Aparecida de Jesus. Eles buscam socorro médico em casos de emergência nos dois hospitais públicos de Paulo Afonso. Rico e pobre A correria pela assistência médica na Bahia não é privilégio de gente simples. O vereador Fernando Aldo Brandão (PMN), político influente em Delmiro Gouveia, é pai de um garoto de quatro anos fabricado em Alagoas e que veio ao mundo em terras baianas. A esposa do político, a biomédica Clayriane Brandão [atual secretária de Saúde de Delmiro] fez inclusive o exame pré-natal num hospital público de Paulo Afonso. Seja pobre ou rico, o cidadão do alto sertão alagoano se queixa das inúmeras deficiências do Hospital Regional de Delmiro Gouveia Antenor Serpa, vinculado à Secretaria Estadual de Saúde, que não consegue prestar assistência médica a vítimas de traumas, que só conseguem atendimento em Aracaju (SE) ou Arapiraca, no agreste de Alagoas. O hospital não tem estrutura para vítimas de acidentes muito graves, reconhece um dos funcionários. EM BUSCA DA SAÚDE Funcionários que trabalham na Supervisão Administrativa do Hospital de Paulo Afonso revelaram à GAZETA que 40% dos pacientes atendidos mensalmente são provenientes de nove cidades do sertão de Alagoas. Eles geralmente vêm de Delmiro, Água Branca e Pariconha, explica uma das supervisoras. Embora tenha pedido anonimato de sua identidade, a funcionária explica que o caminhão de alagoanos compromete o atendimento a baianos. Na ausência da diretora médica Diva Cordeiro Pimentel - médica pernambucana que mora em Paulo Afonso-BA - a GAZETA DE ALAGOAS questionou o diretor- financeiro Ideraldo Luiz Gomes sobre as deficiências do Hospital Regional de Delmiro, projetado para o atendimento de emergência de nove cidades do Alto Sertão, mas que sofre com ausência de equipamentos simples. Na avaliação do diretor Ideraldo Luiz, o atendimento melhorou, mas ainda existem deficiências. São mais de 3.500 pacientes por mês. A assistência seria melhor se tivéssemos estrutura. Não temos desfibrilador [aparelho que reativa os batimentos cardíacos] nem equipamento para exame de ultra-sonografia. São equipamentos essenciais, reconhece o diretor financeiro. O hospital de Delmiro Gouveia também não tem sequer banco de sangue. Se houver necessidade de transfusão de sangue, o paciente precisa se submeter à cirurgia em Paulo Afonso, na Bahia, reconhece Ideraldo Luiz. Há 5 anos aguardamos o envio de equipamentos para montagem da unidade transfusional que seria de grande importância da região, completa. É natural que o cidadão procure assistência onde saiba que vai encontrar médico para lhe atender, comenta o vereador Cacau Machado. Segundo apurou a GAZETA, o hospital também não tem médico obstetra de plantão permanente. O anestesista vem de Arapiraca e dá plantão somente às quartas-feiras. Há carência de profissionais no Sertão, justifica o diretor. Gerador encaixotado Com credibilidade arranhada perante à sofrida população sertaneja, o funcionamento do hospital é prejudicado pelas constantes quedas de potencial energético, embora esteja a menos de 30 quilômetros da Usina Hidrelétrica de Apolônio Sales, entre Alagoas e Bahia. Isso ocorre porque o gerador elétrico adquirido pela Secretaria Estadual de Saúde enferruja há três anos nos fundos do hospital. Quando falta energia, avisamos ao médico que ele tem no máximo duas horas para concluir sua cirurgia, reforça Ideraldo Luiz. MM ### BN investe R$ 2,5 mi na cultura da mandioca O Banco do Nordeste do Brasil, por meio de suas agências em Arapiraca, Palmeira dos Índios e Penedo, financiou cerca de R$ 2,5 milhões para a cultura da mandioca nos 14 municípios contemplados pelo Programa de Arranjos Produtivos Locais (APL), beneficiando 1.109 pequenos produtores, no período de outubro de 2004 a agosto de 2005. Instituído pelo Decreto 2.077 de 30 de agosto de 2004 do governo do Estado, o programa reúne forte aparato institucional, visando desenvolver um plano de ação no âmbito das vocações empresariais, ressalta o agente de desenvolvimento Auvanildo Araújo. O BN, Sebrae, Embrapa, Universidade Federal de Alagoas, Adene e outros fazem parte do programa. Localizado no Agreste, o projeto tem como objetivo implantar o principal pólo nordestino de industrialização da mandioca, por meio dos produtores e beneficiadores. ### Paulo Afonso domina comércio regional Delmiro Gouveia e Paulo Afonso - O comércio de Delmiro Gouveia - que cresceu um pouquinho ano passado - sofre com a forte concorrência do comércio de Paulo Afonso, cidade com 140 mil habitantes. A cidade baiana tem variedade de produtos comercializados a preços muito mais competitivos. A análise é do empresário José Soares Sandes, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Delmiro. Produtos baratos Para o empresário, o comércio baiano leva vantagem primeiro no Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que é de 12% na Bahia. Aqui em Alagoas, o ICMS é de 17%. Eles têm produtos mais baratos e atraem significativa parcela de nossos clientes, admite o representante de 63 comerciantes filiados à CDL de Delmiro. Nosso comércio poderia crescer com mais rapidez se o concorrente não estivesse tão próximo, comenta Sandes. Ponte rodoviária O cidadão que tiver algum poder aquisitivo não tem dificuldade em cruzar a divisa para gastar seus recursos na cidade - pólo do alto sertão baiano. São 17 veículos alternativos por dia e ônibus da empresa Real Alagoas a cada uma hora com destino a Paulo Afonso. Cobramos R$ 4 a ida e R$ 6 para passagem de ida e volta, diz Josias Antônio de Lima, que sobrevive há 20 anos do transporte de passageiros entre Delmiro e Paulo Afonso. A rota já foi mais atrativa. Hoje, o lucro é reduzido, em virtude da forte concorrência, avalia o motorista José Valentim, que cruza divisa duas vezes por dia há 14 anos. MM ### Guerra pelo mercado chega às rádios e muros de Delmiro De olho nos clientes em Alagoas, empresários de Paulo Afonso investem pesado em publicidade e marketing, com fortes investimentos no setor de comunicação de Delmiro Gouveia, principalmente as rádios, como as rádios Delmiro AM e FM. Com isso, os empresários baianos pretendem atingir todos os mercados das regiões dos quatro estados vizinhos: Alagoas, Sergipe, Bahia e Pernambuco. Já que o sinal das rádios de Delmiro Gouveia alcança parte dos quatro estados. Ataque Mas o ataque do comércio baiano ao consumidor alagoano não se resume às rádios, se estende aos muros da cidade. No distrito de Barragem Leste, por exemplo, centenas de paredes estão infestadas com publicidade de uma loja de sapatos da cidade baiana. As opções e a facilidade de pagamento nos atraem, observa Vânia Varjão, que vive em Barragem Leste. Alternativos Os alternativos também transportam estudantes, que gastam com alimentação e diversão na Bahia. A própria Secretaria de Educação de Delmiro Gouveia financia motorista e combustível para dois ônibus que trafegam todas as noites com centenas de estudantes matriculados em faculdades, cursinhos e escolas de ensino médio de Paulo Afonso. |MM ### Alagoanos lotam vans até Pernambuco O limite geográfico entre Pernambuco e Alagoas no extremo litoral norte alagoano é determinado pelo curso do Rio Persinunga, na divisa com São José da Coroa Grande e Maragogi. O dia-a-dia dos alagoanos comprova que a dependência e a influência pernambucanas persistem em setores como educação, saúde, cultura e economia. A separação deste lado da Terra dos Marechais da então Capitania de Pernambuco é algo que somente os livros de História registram como fato, ainda que exista de direito. Até o sotaque típico dos recifenses é facilmente percebido na fala de moradores de Maragogi (AL). O contato diário da população local com os vizinhos pode ser medido pela quantidade de vans e kombis que transportam diariamente passageiros para Barreiros (PE), considerada o shopping center da região para os municípios dos dois estados. De acordo com dados fornecidos pela Associação de Transportadores Alternativos de Maragogi (Atam), 30 veículos saem a cada 10 minutos em direção a São José da Coroa Grande e Barreiros. Somente dois veículos fazem o percurso até Maceió, além de cinco táxis e dos carros que fazem a linha até Porto Calvo. Benedito Manoel Filho, seu Biu, 64 anos, há 8 transporta passageiros. Ele diz que percorre os 30 quilômetros entre Maragogi e Barreiros de 4 a 5 vezes por dia. Ontem (quarta-feira) eu tirei R$ 98, mas tem dia que chega até R$ 200, principalmente no sábado, que é dia da feira, declarou. A exemplo dos passageiros, ele tem conta em bancos e até cartão de supermercado instalados em Barreiros, cidade que também recebe fluxo de pessoas de municípios pernambucanos como Sirinhaém, Tamandaré, Água Preta e Rio Formoso. Segundo o gerente de um dos maiores supermercados da cidade, Sérgio Carvalho, as pessoas fazem compras em Barreiros porque encontram variedade de mercadorias e preços mais baratos. Ele estima que cerca da metade dos clientes cadastrados no estabelecimento mora em Alagoas. Proprietário de uma loja de calçados e confecções, Givaldo Lima Silva informa que 30% de sua clientela reside em Maragogi, Japaratinga e Porto Calvo. A fidelidade dos alagoanos motivou o empresário a abrir uma filial no lado de cá no início de 2006. É o povo que melhor paga, sempre em dia, acrescentou Givaldo. Cidade menor, porém mais próxima, São José da Coroa Grande está a apenas 13 quilômetros de Maragogi e é mais procurada para fazer as compras do mês. Sônia e Isabella Laranjeiras são proprietárias de um restaurante em Maragogi e reclamam da falta de variedade no comércio da cidade. Aqui a gente tem o que procura, não precisa ir de um canto pro outro. O nosso tempo é curto, disse Sônia, elogiando ainda os prazos e as formas de pagamento disponíveis. Edivaldo Vasconcelos Marinho, dono de um supermercado em São José, manda entregar em casa as mercadorias compradas em seu estabelecimento e não cobra taxa pelo serviço. A iniciativa fez crescer o número de clientes. Foram os próprios consumidores que deram a sugestão, admitiu. Quem vai fazer compras também procura atendimento na rede de saúde pública e particular. Foi o que fez Joseane Maria da Silva. Apesar de o ginecologista que a acompanha atender no posto de saúde de São Bento, povoado de Maragogi, ela prefere fazer a consulta no consultório particular do médico em Barreiros. A quantidade de pessoas que não têm outra alternativa a não ser o PSF desestimula Joseane. Tem gente que dorme lá para ser atendida e eu teria que chegar de madrugada para conseguir uma ficha, explica. FV ### Até futebol de PE contagia AL Estatísticas do Hospital de Barreiros indicam que nos três primeiros meses deste ano 58 pessoas de Maragogi foram atendidas. Todos os casos eram de emergência ou de urgência. Segundo o diretor-clínico Antônio Xavier, a orientação dada aos pacientes que chegam de Alagoas é buscar o atendimento nos respectivos municípios. Até consultas ambulatoriais fazemos aqui, acrescentou. Ao contrário dos que precisam eventualmente dos serviços de saúde, quem estuda fora tem que encarar a viagem de segunda a sexta-feira. As melhores escolas particulares e cursos profissionalizantes de nível médio e superior mais próximos estão em cidades pernambucanas. A maioria dos alunos não tem carro próprio e não pode fazer como os torcedores de times pernambucanos que moram em Maragogi. Quando Santa Cruz, Sport ou Náutico, os três maiores clubes do Recife, entram em campo eles estão nas arquibancadas, porque dividem despesas e seguem em carros particulares ou alugam veículos para acompanhar o time do coração. Na rodada da série B do dia 23 de agosto, o Sport enfrentou o Bahia em casa e o CRB jogava contra o Ituano em São Paulo. Os dois jogos foram transmitidos em canais de TV por assinatura. Dois estabelecimentos de Maragogi dispõem do serviço. Enquanto somente seis pessoas acompanharam a derrota do time regateano em um deles, no concorrente tinha gente assistindo em pé à virada do rubro-negro pernambucano em cima do time baiano. Dorgival Silva Luna, comerciante e vereador de Maragogi, acha que o povo deveria valorizar mais a sua cidade e comprar no comércio local. Os tributos que incidem sobre as mercadorias em Alagoas seriam responsáveis pela diferença de preço em relação aos concorrentes do outro Estado. A carga de impostos é mais pesada e a fiscalização muito mais rígida do que em Pernambuco, avalia. O controle exercido pelo posto da Secretaria de Fazenda de Alagoas (Sefaz), instalado na rodovia AL-101 Norte próximo à divisa, é ininterrupto. Funciona 24 horas com três fiscais de plantão, analisando a veracidade e a compatibilidade do que está descrito na nota com a carga do veículo. A situação da empresa fornecedora também é verificada. A evasão de divisas acontece por meio de outras rotas, estradas como a que fica a cerca de 100 metros do posto. Cerca de 50% de impostos deixam de ser arrecadados, estima Aldemir Laércio da Silva, fiscal da Sefaz. As estradas por onde acontece a sonegação fiscal são as mesmas que permitem a fuga da fiscalização agropecuária, serviço que existe desde de 2001 ao lado do posto fiscal. Além de verificar as condições de frutas e verduras que entram e saem de Alagoas, o posto agropecuário tem a missão de evitar a passagem de animais contaminados. Só não dá para barrar a entrada dos vizinhos no serviço público de Alagoas. No escritório ao lado, os três fiscais que estavam de plantão são pernambucanos. |FV ### Ruas de União dos Palmares viram sulancão de Caruaru Do alto, a visão é de um imenso tapete formado por lonas coloridas que cobrem centenas de barracas de madeira instaladas na principal avenida (a Monsenhor Clóvis Duarte) e ruas do município. São tantas as barracas, que transitar no local só mesmo com muita paciência e disposição. Os ambulantes fazem parte de um comércio que cresce a cada dia e transforma o centro de União dos Palmares num autêntico sulancão de Caruaru. A influência econômica do município do Agreste pernambucano sobre a cidade alagoana está por toda parte e pode ser facilmente percebida. Quem anda nas ruas de União mais parece estar na tradicional Feira da Sulanca, uma das mais importantes do Nordeste, situada no município de Caruaru, no vizinho Estado de Pernambuco. Na cidade, que tem cerca de 55 mil habitantes e está localizada a 80 quilômetros de Maceió, na Zona da Mata, parte da economia gira em torno dos produtos comprados diretamente na Sulanca. São roupas, calçados, bolsas, CDs, óculos e até ervas consideradas medicinais. Viagem na madrugada Caruaru fica a 130 quilômetros de União dos Palmares. Tem mais de 250 mil habitantes. A principal rodovia de acesso para quem mora em União é a BR-104. A distância, o medo de assaltos e de acidentes não impedem que uma caravana de comerciantes saia todos os domingos à noite com destino a Caruaru, onde chegam ainda na escuridão da madrugada da segunda-feira. As compras têm que ser feitas rapidamente, do contrário perde-se a viagem de volta, no fim da manhã. A chegada a União ocorre por volta das 14 horas. De ônibus, com veículo próprio ou em lotações, dezenas de palmarinos viajam semanalmente ou a cada quinze dias para fazer compras e revender em União. O fluxo também segue em sentido contrário. De Caruaru desembarcam em União dos Palmares toda semana grupos de comerciantes com produtos para revender no município alagoano. Na lotação, os comerciantes pagam R$ 25 por viagem, além de gastar com a escolta (segurança) até Caruaru, para se protegerem de assaltantes. Muitos ambulantes e lojistas têm histórias de assaltos ou acidentes sofridos na estrada a contar, mas acreditam que não há outra opção de sobrevivência. AMBULANTE VIRA LOJistA O comércio com a Sulanca cresceu tanto que muitos ambulantes de União dos Palmares viraram donos de loja. Alguns continuaram vendendo os produtos da feira, outros optaram por artigos mais sofisticados e hoje são considerados comerciantes bem-sucedidos. Há dois anos, Adriana Bezerra Santana trocou a barraca de madeira instalada em plena rua por uma loja no centro da cidade. O imóvel é próprio e, apesar de ter sido vítima de assalto e ficado refém dos bandidos numa das viagens para a Feira da Sulanca, ela não pensa em desistir do negócio. Viajo duas vezes por mês. Vou no meu carro com o meu pai, que também é negociante, e outra comerciante aqui de União. É uma viagem muito perigosa, mas vale a pena, é o meu trabalho, confessa Adriana, que já foi vítima de dois assaltos. As lojas com produtos da Sulanca estão por toda parte. Empregam dezenas de pessoas e geram renda para o município. Maria Alice Ferreira, que administra uma loja no Centro, diz que o aluguel é pesado. O genro, proprietário do negócio, paga R$ 550 por mês. Mas é melhor do que ser ambulante. Ele e minha filha sofriam muito. Tinham que montar e desmontar a banca todo dia; acordar de madrugada, passar sono e fome, relata. NR ### Na feira, até erva medicinal vem de PE Luiza Maria de Souza, 54, trabalha no comércio ambulante há 32 anos. É uma das mais antigas no ramo na feira de União. Três vezes por mês viaja a Caruaru para reabastecer a barraca. Ela compra também nos municípios pernambucanos de Toritama (considerada a capital nordestina do jeans) e Santa Cruz. No inverno, segundo ela, o movimento é fraco, mas a ambulante aposta no crescimento das vendas com a aproximação das festas de fim de ano. Este ano tá meio apertado; as vendas estão fracas. Com o desemprego tem muita gente virando ambulante. Mas no fim do ano a situação deve melhorar, diz a feirante, que fatura em média entre R$ 2 mil e R$ 3 mil por mês e tem 300 clientes fixos da cidade e de sítios nos arredores. Desempregado, o ex-armador de ferragens José dos Santos Silva, 35, entrou para o mercado ambulante há nove anos. Com o trabalho, que divide com a mulher, sustenta seis filhos. De quinze em quinze dias viajo na lotação. No meu carro, só no fim do ano, quando as vendas melhoram. Antes viajava para comprar em São Paulo, mas estava saindo muito caro e aí resolvi mudar para Caruaru, afirma José dos Santos, dono de duas barracas de calçados. Os preços para revenda, segundo ele, variam de R$ 10, o calçado mais barato, a R$ 30, o mais caro. DE ROUPA À ERVA MEDICINAL De Caruaru é possível comprar em União dos Palmares até as populares ervas medicinais. Isso mesmo! É da cidade pernambucana que chega a União grande parte das plantas, raízes e sementes usadas no tratamento de doenças e das misturas consideradas energéticas e os tônicos capilares. O pessoal traz de lá e eu compro para revender. Não dá pra viajar porque fica muito caro, revela Valdemar Pedro Silva, 48 anos, dos quais 30 dedicados ao comércio de ervas. Não dá pra viver disso, mas é um dinheiro a mais, ressalta o ambulante pai de três filhos e que faz bicos consertando aparelhos de TV e guarda-chuvas. Ao lado da barraca dele, Marlene Tereza da Rocha, 62 anos, que também está no ramo de ervas medicinais há 30, diversifica os produtos para atrair a clientela. Quase tudo vem de Caruaru, inclusive raspadores de coco feitos em madeira, caximbos, candeeiros, colheres de pau, coadores de café, entre outros. Ela também encomenda os produtos aos comerciantes que viajam de União para lá. Sai mais em conta. Se viajar a gente gasta muito, observa. Hotéis em alta A entrada dos caruaruenses na cidade alagoana movimenta outro comércio: o de hotéis. Em um deles, de segunda a quarta-feira uma média de oito a dez pessoas vindas de Caruaru se hospedam toda semana para fechar negócios na cidade. O hotel dispõe de 22 apartamentos e cobra em média R$ 25 a diária, com direito a café da manhã. Vem muita gente de Caruaru aqui pra União, afirma Ivan Fidélis, gerente do hotel. Ele diz que o movimento deve melhorar a partir deste mês até fevereiro, período em que as vendas no comércio da cidade tendem a crescer. |NR ### Alagoano lota faculdade de Belo Jardim A economia de União dos Palmares está baseada na cultura da cana-de-açúcar, pecuária, indústria de latícinios, distribuidora de cervejas e no comércio. Além de uma usina açucareira, considerada um dos grandes empregadores, o poder público municipal é outra fonte de empregos. Mas, de alguns anos para cá, o comércio ambulante tem movimentado grande parte da economia, como atesta o presidente da Associação Comercial de União dos Palmares e coordenador da feira livre do município, José Ironaldo de Souza. Temos mil ambulantes cadastrados, sendo 450 somente no ramo de confecções. A maioria negocia com produtos de Caruaru, Toritama e Santa Cruz, todos em Pernambuco, revela. O líder dos feirantes diz, ainda, que a prefeitura local pretende montar um pólo industrial, com a colaboração das costureiras de Toritama. O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de União dos Palmares, José Mendes de Amorim, reconhece o prejuízo causado pelos ambulantes para o setor, com a ocupação de calçadas e portas de lojas e bancos, mas diz que esta é uma briga política que a CDL não está disposta a comprar sozinha. A queda nas vendas no comércio local, segundo ele, chega a 30%. Antes, a feira só funcionava nas quartas e sábados. Hoje, tem feira segunda, quarta, sexta e sábado. Eles vêm de Pernambuco com mercadorias mais baratas do que as do comércio local e o prejuízo é grande, mas não podemos fazer nada. Essa é uma questão política que passa, principalmente, pelo problema do desemprego, acredita. Influência na educação A influência de Pernambuco sobre Alagoas na região da Zona da Mata não se limita ao comércio. A educação é outro setor que mantém dependência, principalmente no ensino superior. A dificuldade de acesso à faculdade pública em Maceió e a carência de universidades no interior levam dezenas de alagoanos a recorrer a municípios pernambucanos para garantir o ingresso nos cursos de terceiro grau. Diariamente, lotações e ônibus deixam cidades como Branquinha, Ibateguara, São José da Laje, Santana do Mundaú e União dos Palmares, além de municípios do Sertão, com destino a Belo Jardim (PE). O município, com 67 mil habitantes, é sede da Faculdade de Formação de Professores. Um dos primeiros grupos de estudantes a descobrir Belo Jardim como alternativa para ingressar no ensino superior surgiu em União dos Palmares. Hoje, várias pessoas da cidade já obtiveram o diploma e são professores. O sonho de conquistar a formação superior, no entanto, não é fácil. De União para Belo Jardim são duas horas de viagem, num percurso de aproximadamente 160 quilômetros. As lotações saem às 16h30 e retornam a União por volta das 22 horas. Passa da meia-noite quando os estudantes chegam em casa. A maioria dos alunos é formada por professores que concluíram o magistério e que, por determinação do Ministério da Educação (MEC) são obrigados a fazer a graduação para obter o diploma de terceiro grau até 2007. Trabalham o dia todo dando aula e à noite enfrentam a difícil viagem até Belo Jardim. Foi assim que Claudionor de Oliveira Silva, 42, obteve, em 2001, o diploma de graduação em Geografia e hoje freqüenta o segundo curso de especialização. Pioneiro do grupo a viajar a Belo Jardim, ele diz que enfrentou perigos na estrada, já que viajava no próprio carro, mas garante que valeu a pena. Na Ufal a concorrência é maior e nas faculdades particulares a mensalidade é alta. Além disso, o número de vagas para graduação no interior é muito limitado, diz. Hoje conquistei um salário melhor, passei no concurso do Estado e só estou fazendo especialização graças a esse sacrifício de ir a Belo Jardim diariamente durante quatro anos, ressalta. Pela mensalidade os estudantes pagam R$ 160. Um curso superior era a única forma de me manter no mercado com a exigência do MEC, por isso, apesar de todo o sufoco por que passei, nunca pensei em desistir, diz João Omena Batista, 31, que em 2003 concluiu o curso de Matemática em Belo Jardim. Seguindo o exemplo do irmão, Sandra de Lima, 25, concluiu em 2004 o curso de História em Belo Jardim. Na minha época a situação já estava melhor, mas as dificuldades ainda eram grandes. Hoje contamos vitórias e histórias dos dias nos quais o carro quebrava e éramos obrigados a passar a noite na estrada, afirma. Todos eles já ensinavam há algum tempo; em União dos Palmares são professores da Escola Cenecista Santa Maria Madalena, cujo diretor, o ex-secretário de Educação do município, Francisco Viana Neto, foi um dos principais incentivadores dos professores. |NR ### Palmares é pólo para municípios da Zona da Mata A placa anuncia a divisa entre Alagoas e Pernambuco, numa das rodovias mais movimentadas dos dois estados, a BR-101, no trecho da região da Zona da Mata. Diariamente, centenas de caminhões transportando os mais variados produtos circulam pela BR. A estrada também é ponto de passagem para alagoanos que dependem de serviços básicos ou da economia de municípios pernambucanos. Joaquim Gomes, Novo Lino, Colônia Leopoldina, Campestre, Jacuípe são cidades da região que, de uma forma ou de outra, estabeleceram um fluxo com o Estado vizinho. Em Novo Lino, muitos são os moradores que viajam diariamente a Palmares (PE) para estudar, trabalhar, fazer compras para abastecer mercearias e revender em Alagoas ou recorrer a um dos hospitais do município. O percurso dura em média meia hora e é feito de ônibus e, principalmente, em táxis-lotação. São 30 quilômetros pela BR-101. Compro em Palmares porque sai mais barato do que ir para Maceió. Vou toda semana e sempre que está faltando alguma mercadoria, diz Leonardo Nascimento Amorim, dono de mercearia em Novo Lino. Há 30 anos no ramo, ele viaja em carro de praça (os táxis-lotação). Sai mais barato. Viajo à tarde, faço as compras e volto em seguida, afirma, reclamando do movimento nesta época do ano. A situação só não é pior por causa da destilaria (Porto Rico) em Colônia Leopoldina e da usina (Taquara), que empregam dezenas de trabalhadores da região. Na área de educação, Novo Lino mantém dependência com o ensino superior de Palmares, já que não há faculdade no município nem nas cidades vizinhas. Mas é na saúde que os alagoanos mais recorrem aos serviços de Palmares. Isso porque em Novo Lino o único posto de saúde e a maternidade existentes funcionam em situação precária. Os moradores reclamam da falta de médicos e de remédios e, freqüentemente, viajam a Palmares, principalmente nos casos mais graves. No posto de saúde encontramos Maria de Lourdes da Silva, 49, que acompanhava a filha, Fabrícia Maria, de 10 anos. A menina sofre com alergia e mal conseguia respirar. A funcionária do posto logo providenciou soro e deixou a garota em observação. A mãe diz que o marido trabalha na usina (Taquara) e muitas vezes precisa levar a garota para Palmares, onde, segundo os moradores de Novo Lino, as condições são melhores. A reclamação dos moradores é rebatida pelo secretário de Eventos de Novo Lino, Everson Frazão. Eles vão para Palmares porque lá tem hospital e aqui não, mas os médicos de Novo Lino cumprem o horário e há suprimento de remédios, na medida do possível, diz. NR ### Sem Palmares, a gente pára de trabalhar, dizem taxistas Com 13 mil habitantes, aproximadamente, Novo Lino sobrevive basicamente da cultura da cana-de-açúcar, pecuária e agricultura. Já Palmares tem cerca de 55 mil habitantes e a economia está voltada para a agropecuária, indústria e serviços. Sem Palmares a gente pára de trabalhar. Nós que trabalhamos com lotação só sobrevivemos graças a Palmares, resume José Nogueira dos Santos, há 22 anos trabalhando no serviço de táxis-lotação de Novo Lino a Palmares. Ele é um dos 25 cadastrados na Associação dos Taxistas de Novo Lino e depende do transporte de passageiros até a cidade vizinha para sobreviver. A passagem custa R$ 4 e, segundo os taxistas, o maior fluxo é para os hospitais da cidade vizinha. Faltam aqui médico e remédio no posto de saúde, reclama. O alvo das reclamações dos taxistas são as multas aplicadas por excesso de passageiros. Todo carro aqui tem pelo menos quatro multas. A polícia (Rodoviária) só quer que a gente leve quatro passageiros, mas aí não dá nem para tirar o dinheiro do combustível. A situação é tão séria que se a gente vender o carro não dá para pagar as multas, afirma José Nogueira. Segundo ele, os carros que trabalham, do modelo Caravan, não custam mais do que R$ 3 mil. Apesar da dependência, os taxistas dizem que o movimento já foi melhor. As pessoas estão sem dinheiro e a situação cada vez pior. Às vezes o carro quebra e a gente não pode ajeitar. Se consertar, não faz a feira, reclama Alexandro Gonçalo dos Santos, que há três anos trabalha na lotação de passageiros até Palmares. Meu pai estava nesse trabalho há 30 anos; desistiu porque nunca arrumou dinheiro para trocar o carro nem comprar uma casa para morar. Hoje, trabalha em Matriz (do Camaragibe). |NR