loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sábado, 01/08/2026 | Ano | Nº 6280
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Cidades

Cidades

Missionários transformam comunidades

Ouvir
Compartilhar

NIVIANE RODRIGUES Repórter Aos 18 anos, a italiana Miriam Zendrom deixou a casa dos pais para atender ao que considera um chamado de Deus. Juntou-se às irmãs da Congregação Filhas do Sagrado Coração de Jesus e passou a integrar um grupo de ajuda humanitária fundado em Bérgamo, na Itália, no ano de 1831. O convívio com a vida religiosa e a vontade de ajudar o próximo despertaram na professora de História das Artes Plásticas um sonho ainda maior: participar do trabalho missionário. Em 1992 ela saiu da cidade de Trento, na Itália, onde morava, e veio conhecer as missões no nordeste brasileiro. O contato direto com o povo e a pobreza do homem do campo a fizeram voltar ao Brasil. Em 1995 ela chegou a Alagoas, de onde não saiu mais. A história de Miriam Zendrom, 57, assemelha-se à de inúmeras pessoas que diariamente aumentam a legião de missionários que dedicam parte de suas vidas ao próximo. Em Alagoas, as missões estão por toda parte, ligadas às diversas instituições religiosas ou organizações não-governamentais. Além de ações sociais, educativas e culturais, fazem um trabalho de evangelização e catequese. Nessa busca, que envolve muitas vezes a transformação de comportamento, de conceitos e modo de vida, os missionários acabam sendo alvo de resistência e até de violência. Foi assim com a freira americana Dorothy Stang, assassinada em Altamira, no Pará, a mando de um grupo de madeireiros. Foi assim com o pastor americano John David Leonard, 45, atingido por três tiros, que o deixaram tetraplégico, depois de liderar um culto religioso na Igreja Batista da Vitória, no município de Coqueiro Seco, onde realizava trabalhos sociais, tirando jovens do vício das drogas. Nesta reportagem, a Gazeta mostra o trabalho missionário em Alagoas. Quem são, o que fazem, como vivem e sobrevivem algumas dessas pessoas que abandonaram o país de origem para morar em um Estado até então desconhecido. ### Italiana implanta cooperativa e muda vida de agricultores Maragogi - Sábado é dia de feira no galpão às margens da AL-101 Norte, no município de Maragogi, no litoral de Alagoas. O dia nem bem amanhece e é hora de preparar a colheita que será vendida à clientela. Uma variedade de produtos do campo é oferecida a preços acessíveis. No galpão também é possível comprar polpa de frutas, sequilhos, um quitute tradicional na região, além de grãos e geléias e até artesanato em coco e palha de bananeira. É no local que os agricultores se reúnem para participar de cursos e discutir o andamento da Cooperativa dos Pequenos Agricultores Organizados (Coopeagro), que tem raízes históricas em 1971, com a chegada ao município de um grupo de missionárias italianas. Liderada pela irmã Miriam Zendrom, a cooperativa reúne hoje 81 associados e atende direta e indiretamente 1.200 famílias de agricultores rurais com assistência técnica e ajuda para comercialização. O galpão, um enorme prédio com primeiro andar que se avista de longe, foi construído com recursos de voluntários da Itália e do governo de Trento, naquele país. São eles também que ajudam a manter as ações da cooperativa, que emprega 16 pessoas. Os camponeses associados viram, então, sua vida mudar. Da pobreza a que eram submetidos no campo, eles conquistaram o direito de plantar e colher. Hoje tiram da cooperativa o sustento. Tudo começou em 1995, quando a missionária Miriam Zendrom decidiu voltar para Alagoas e se integrar ao grupo de irmãs italianas que havia sido chamado pela Igreja Católica em Alagoas para trabalhar em Maragogi. Passei dois anos tentando conhecer a cultura do povo e o trabalho social que as irmãs desenvolviam. Em 1997, 1.200 famílias deixaram os arredores de usinas, onde passavam fome, e montaram acampamento em Maragogi. Nas usinas eu não podia fazer nada por elas, mas nos acampamentos comecei a levar o Evangelho a essas famílias. Fomos criando laços de amizade e entendendo melhor o papel da reforma agrária, recorda Miriam Zendrom. Sem assistência técnica nem tradição agrícola, os acampados enfrentavam dificuldades para se manter. Em 2000, viajei à Itália e encontrei entidades e voluntários, missionárias amigas, que se dispuseram a ajudar a causa dos camponeses de Alagoas. Com as doações fortalecemos a cooperativa e construímos o galpão-sede, revela a irmã, que diz sobreviver do próprio trabalho e da ajuda das irmãs da congregação com quem vive em Maragogi. Os cooperados investem também no potencial turístico da região e descobriram no passeio à Trilha do Visgueiro, uma área de cachoeiras e floresta, uma forma de ampliar o lucro. Para lá eles levam turistas hospedados nos hotéis da região. O passeio é feito a bordo de um trenzinho adquirido pela cooperativa. Os hotéis também compram parte da produção da cooperativa, que dispõe de um trator, três motos, um caminhão com carroceria refrigerada e está alugando salas para a realização de encontros e palestras. Tenho medo Sexta filha de uma família de agricultores, Miriam Zendron faz questão de ressaltar que não está ligada a nenhum movimento de sem-terra, nem ao poder público. Da prefeitura, garante ter recebido apenas o terreno onde o galpão foi construído. Esses movimentos sem-terra são uma pedra no sapato dos camponeses; criaram uma verdadeira indústria; um monopólio, afirma. A religiosa mantém a mesma disposição do início do trabalho, mas não esconde o medo. Se você atrapalha o plano deles, com metas de libertação, tem que ter cuidado. Ultimamente tenho sentido muito medo porque sinto que tenho atrapalhado; seguido na contramão, o que irrita essas pessoas que se sentem incomodadas por não conseguirem manter o projeto de escravização do homem, afirma Miriam Zendrom, que não anda mais sozinha em seu trabalho pelo campo. NR ### Missão garante escola a jovens carentes Marechal Deodoro - No povoado de Barra Nova, município de Marechal Deodoro, no litoral sul de Alagoas, funciona o Centro de Formação Santa Rosa de Lima, uma Organização Não-Governamental criada por um grupo de missionárias ligadas ao Instituto Pobres Filhas da Visitação, fundado na Itália em 1926 e trazido para o Brasil há 20 anos. O instituto abriga jovens de 7 a 18 anos retirados das ruas das cidades, de famílias extremamente carentes ou em situação de risco. Para lá também são levados jovens encaminhados por conselhos tutelares ou pelo Juizado da Infância e da Juventude. A casa tem estrutura para abrigar 75 jovens, mas atualmente tem menos da metade, porque passa por uma reforma. Profissionalização Todos eles têm a oportunidade, além de estudar, de participar de aulas de capoeira, da banda afro, violão, teclado, de aprender uma profissão nas oficinas de serigrafia, panificação, marcenaria, artesanato, sorveteira e computação. Os produtos são comercializados e o dinheiro revertido para ajudar na manutenção do projeto, que também recebe recursos da própria congregação. Os garotos, fruto de desestrutura familiar e pobreza, dispõem de acompanhamento psicológico, terapia grupal e assistência social. Muitos deles sequer recebem a visita da família, mas podem deixar a instituição todo mês para visitar os parentes. O carinho das missionárias tem ajudado muitos a abandonar as drogas e conquistar um espaço no mercado de trabalho. Foi com essa preocupação que a irmã Joana Ambrósio, 37, deixou o trabalho como professora e a família em Nápoles, na Itália, e há 11 anos veio para Maceió, onde coordena o projeto. As visitas à família só ocorrem a cada três anos, quando as missionárias podem permanecer até três meses no país de origem. Freira desde os 18 anos, ela diz que sempre sentiu desejo de trabalhar em missões. Quando recebi o convite para vir ao Brasil, não hesitei. Para mim, a situação dos meninos de rua sempre foi uma preocupação. Se não podemos resolver o problema, pelo menos podemos amenizá-lo, afirma. George de Lima e Silva, 16, está no projeto há 9 anos. Morava em Maceió, mas a mãe não tinha como criá-lo. Quando fez dez anos, ela morreu. Hoje é considerado um exímio carpinteiro e sonha em conquistar um emprego quando deixar a instituição. Vou à casa de minha irmã, em Marechal, duas vezes por mês. Quando sair daqui sei que tenho um futuro garantido, diz. Mas nem sempre é assim. Alguns não aceitam as regras de convivência na casa e acabam fugindo. As missionárias do Instituto Pobres Filhas da Visitação também mantêm 32 crianças de dois a seis anos em sistema de creche e de seis a 13 anos na escola, além de um centro onde são ministrados cursos de geração de renda para jovens carentes das favelas Santa Rosa e Novo Horizonte, no Jacintinho e Feitosa. Levamos a palavra de Deus para esses jovens e adolescentes e cuidamos das crianças enquanto as mães trabalham. Também desenvolvemos atividades culturais com a comunidade, revela a irmã Joana, cujo trabalho conta com o apoio de 13 funcionários e quatro missionárias, além de voluntários. A participação direta na comunidade dos bairros considerados entre os mais violentos de Maceió, Jacintinho e Feitosa, nem sempre é harmoniosa. Tem dia que a gente não pode descer a grota por causa de tiroteios entre os bandidos. As creches já foram roubadas várias vezes e agora as portas ficam fechadas durante o dia. A gente só deixa lá a quantidade de comida necessária para alimentar as crianças durante um dia confessa Joana Ambrósio. |NR ### Família é a base de missões religiosas Marechal Deodoro - Do outro lado da pista, na Ilha de Santa Rita, também município de Marechal Deodoro, a missionária Claire Novecosky, 66, divide com outra irmã brasileia, formada em Psicologia, um sítio no povoado. A canadense, da cidade de Saskatoon, faz parte do grupo de missionárias Urselinas, fundado há 470 anos na Itália. Em 1988, irmã Claire, freira desde os 19 anos, migrou do Canadá para Alagoas e hoje tem como principal missão trabalhar a união das famílias. Esse é o papel das irmãs Urselinas: criar um espírito comunitário e falar da importância da família; mostrar que é possível cultivar valores verdadeiros preservando a instituição familiar, diz a missionária. O trabalho de orientação, conversa e evangelização é feito casa a casa e não se limita à ilha, indo a povoados e comunidades de Marechal. Muitas vezes, a conversa se dá por telefone, quando já há um entrosamento entre as freiras e a pessoa interessada. Para garantir a missão, a irmã conta com recursos da própria igreja, mas a exemplo dos demais missionários, evita falar em valores. As pessoas têm muita necessidade de falar dos seus problemas, de alguém que as escute, por isso a presença é muito importante, diz Claire Novecosky. Nos fins de semana, jovens participam das reuniões. Com eles, o trabalho de orientação visa combater ou evitar o uso de drogas e também falar sobre o valor do casamento. Criamos uma amizade muito boa e eles confiam em nós e nos respeitam. Não queremos que as pessoas fiquem dependentes de nosso trabalho, por isso ajudamos a criar líderes nas comunidades, diz. NR ### Argentinos usam a Bíblia como terapia para casais A família também é a base do trabalho do casal de argentinos Juan José Deleu e Ruth Ana, que há 11 anos saiu de Córdoba para morar no Brasil. Pais de três crianças, eles dividem o tempo como professores de espanhol e o trabalho missionário com casais e grupos de pessoas das mais diversas religiões. Criado em família de religiosos ligados à Igreja Batista, Juan trocou o trabalho como projetista aeronáutico de uma fábrica militar da Argentina pela missão no Brasil. Vim ao Brasil para realizar um trabalho na Embraer e me apaixonei pelo país. Nessa época era muito materialista e então começamos, eu e minha esposa, a pedir a Deus que nos desse uma direção, afirma Juan. No Brasil, após uma crise conjugal, eles descobriram o que chamam de verdadeiros valores. Deus restaurou nosso casamento, daí começamos a trabalhar por aqueles que também estão em crise, confessa Ruth Deleu. Para manter o trabalho, que consta de palestras gratuitas em um hotel da cidade, nas igrejas, escolas e na própria residência do casal, em Jacarecica, eles contam com a ajuda financeira de voluntários. Nosso padrão financeiro caiu, mas hoje sinto uma paz em meu lar muito maior do que a que tinha antes, afirma Juan. Nas palestras, denominadas Segredo de uma família feliz, eles usam os princípios bíblicos como referência para um casamento sólido; mostram o segredo para evitar a desintegração familiar.castelo de areia Quando uma família se desintegra é como se tivesse construído sua base em cima da areia; na primeira chuva se desintegra, acredita Juan, para quem deve sempre prevalecer o respeito e o amor entre homem e mulher. Eles garantem que graças ao apoio vários casais que estavam prestes a se separar desistiram da decisão. Além da conversa, os casais recebem tarefas para realizar durante a semana, que incluem tentar enxergar o lado positivo do outro, tirar um tempo para dialogar e perceber onde está a dificuldade do relacionamento. O trabalho dos argentinos inclui ainda dinâmica com jovens e crianças, com muita música e reflexão sobre os valores humanos e bíblicos. |NR ### Jovem deixa EUA e evangeliza em AL Richardson, 21 anos, conheceu Alagoas por meio da Internet, depois de ser selecionado para participar de uma missão da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. De família mórmon, como são chamados os integrantes da igreja, ele viu o sonho de ingressar em uma missão se tornar realidade há cerca de dois anos. Largou os estudos, o trabalho na fazenda e empresas da família em Kentucky, nos Estados Unidos, e hoje se dedica à missão como voluntário. Guardei dinheiro durante anos para cumprir o chamado de Deus e o desejo de servir ao próximo. Hoje estou muito feliz, diz Richardson que a exemplo dos demais passou a se chamar Elder, um título que identifica os missionários ou anciãos, como também são chamados. A oportunidade de servir a Jesus Cristo é a maior felicidade que podemos sentir em nossas vidas, acrescenta o gaúcho de Porto Alegre Delvaux, 20, que sempre anda na companhia de Richardson, como determina a igreja. O trabalho em dupla, segundo eles, é ensinado pela Bíblia. Jesus disse: ide de dois em dois e pregai o evangelho, afirmam. RECURSOS PRÓPRIOS Para realizar o sonho de integrar as missões, segundo Richardson, é preciso ter os próprios recursos. A igreja possui um fundo para ajudar apenas os que não podem se manter no país para onde foram enviados. O trabalho dos mórmons é feito a partir do contato direto com a comunidade, nas favelas, ruas, casas. Eles pregam a união da família, os ensinamentos da Bíblia e de Jesus Cristo. Mas têm como principal foco pregar a existência de um profeta na Terra, como os cristãos acreditam que foi Moisés, e que segundo eles seria o porta-voz de Deus. Ao lado do profeta trabalham 12 apóstolos, que, de acordo com os mórmons, revelam ao mundo os caminhos de Deus para o ser humano. Essa seria a mesma igreja que Cristo estabeleceu. NR ### Mórmons ficam dois anos longe da família O profeta está vivo, chama-se Gordon B. Hinckley, tem 95 anos e é americano. Ele foi chamado por Deus e escolheu 12 apóstolos que seguem nesta missão, revela Richardon. Facilmente reconhecidos nas ruas, por só andarem em dupla e de camisa branca, os mórmons ficam dois anos na missão e durante esse tempo só se correspondem com a família por carta, que, segundo eles, sai mais barato; telefonema, apenas em datas comemorativas, como o Dia das Mães e o Natal. Nesses dois anos de missão eles também não podem namorar nem casar. As mulheres missionárias são chamadas de sister (irmã em inglês) e a missão delas dura um ano e meio. Escritos sagrados No mundo são entre 50 a 60 mil missionários mórmons e 12 milhões de membros e os integrantes dizem que é a igreja que mais cresce. Além desse trabalho de pregação casa a casa, os mórmons mantém congregações onde realizam cultos aos domingos das 9 horas ao meio-dia. Além da Bíblia, têm seu próprio livro que consideram sagrado. O livro seria uma comunicação de Deus com os antigos habitantes das Américas 600 anos antes de Cristo, escrito por profetas mediante revelações. Suas palavras, dizem os mórmons, foram resumidas em placas de ouro por um profeta-historiador chamado Mórmon. As escrituras teriam sido entregues por Mórmon a seu filho, Morôni, que as teria enterrado para serem preservadas. Os mórmons relatam que em 1823 Morôni apareceu para Joseph Smith, informando dos escritos e pedindo que os traduzisse. |NR ### Padre belga revoluciona agreste de AL Craíbas - O missionário belga José Theisen ainda arranhava a língua portuguesa quando chegou à cidade sergipana de Gararu. No primeiro contato com os fiéis protagonizou grande polêmica quando afirmou que a cidade tinha muita rapariga. A confusão era reflexo do português assimilado em Portugal, onde rapariga significa moça. A população por muito pouco não me crucificou, lembra o religioso, que vive há quase duas décadas na pequena Craíbas, cidade do agreste alagoano. Natural de Namur, próspera cidade da Bélgica [um dos países com melhor qualidade de vida do planeta], padre José Theisen, o missionário de apenas 78 anos, sobrevive de forma franciscana - seus aposentos são muito simples - mas é o principal responsável por um trabalho social de grande impacto na sociedade local. Amparado por voluntários, mantém uma creche para 80 crianças, proporciona abrigo para jovens dependentes químicos e ainda viabiliza a adoção de crianças abandonadas. Resistência e ameaças No início de sua missão em Craíbas o padre diz ter enfrentado muita resistência de setores da classe política. Por diversas vezes, recebeu ameaças de morte. O bispo daquela época [Constantino Luers] não disse que a cidade era complicada. Até tentativa de homicídio houve, recorda José Theisen. As desavenças e desconfianças seriam substituídas, anos depois, por apoio ao trabalho de evangelização e transformação social do religioso belga. INOVAção O religioso, sempre inconformado com o comodismo de quem pode, mas não soluciona as questões sociais inovou ao implantar, no salão paroquial, o ensino de segundo grau em Craíbas. Nem todos podiam viajar a Arapiraca. Pedimos os professores e o governo do Estado, depois de muita resistência, concordou com o estudo de três turmas de jovens carentes dentro da casa do Senhor. Depois da repercussão positiva, aí veio a escola de segundo grau, recorda. MM ### Político ajuda, mas padre não promete nada As ações do religioso não se restringem ao campo educacional. Ele também criou - e mantém - uma creche para 80 crianças carentes cujos pais vivem em dificuldades e geralmente não têm condições de alimentá-las. Uma das ruas da cidade foi fechada para servir de abrigo aos projetos sociais de José Theisen, que mantém outro projeto polêmico dentro da igreja: proporciona abrigo para 15 jovens carentes. Alguns deles tentam fugir da dependência química. Vila de casas Os projetos sociais tocados pelo religioso - que já edificou uma vila de casas para famílias carentes e também mantém uma rádio comunitária - custam aos cofres da igreja pouco mais de R$ 80 mil ao mês. Questionado pela reportagem da Gazeta de Alagoas sobre quem paga a conta, o padre Theisen não esconde que recebe ajuda da classe política para a qual não promete nada e ainda da população, que envia donativos. A gente tem a idéia e busca ajuda da população. Aí, Deus é quem paga a conta, explica-se José Theisen. |MM ### Belgas adotam crianças abandonadas em Alagoas Craíbas - Em seus 18 anos de missão no Agreste, José Theisen viabilizou a adoção por casais belgas de dezenas de crianças que tinham sido abandonadas em hospitais ou orfanatos da região. Crianças que poderiam não ter futuro no interior de Alagoas sobrevivem agora com dignidade em famílias que gozam de elevado padrão de vida. Alguns deles já vieram ao Brasil conhecer suas origens, explica José Theisen, que reúne os jovens adotivos uma vez por ano. O servo e empregado de Deus marcou sua presença na cidade com a construção de uma estátua de Nossa Senhora. A imagem tem a altura de um prédio de dois andares e chama a atenção de quem chega ao centro de Craíbas, na região Agreste. 40 missas por semana A cidade precisava de proteção divina, justifica o padre belga José Theisen, que se diferencia dos demais religiosos do interior por celebrar até 40 missas por semana. São três por dia. Todos os dias. Quando recebeu a reportagem da Gazeta, o padre fez questão de mostrar o cronograma de celebrações na paróquia de Craíbas, cidade com 40 capelas distribuídas em seus diversos povoados. Principal capelão do município por mais de 18 anos, José Theisen desenvolve trabalho social na periferia de Craíbas, onde mandou construir uma casa de taipa onde costuma dormir algumas vezes por mês. Precisei dormir numa casa de taipa para que o poder público instalasse luz elétrica na comunidade, diz o religioso. Palavra aos presos Adaptado à vida no agreste de Alagoas, padre José Theisen comprou terreno e edificou, no alto de uma serra, a capela ao lado da qual pretende ser sepultado. Depois da morte quero ser sepultado aqui em Craíbas, confessa. Ainda distante da morte, ele continua ativo e com tempo para levar a palavra divina aos detentos do presídio e da delegacia regional de Arapiraca. Tanto na delegacia quanto no presídio costuma celebrar pelo menos uma missa a cada quinze dias. Também levo palavra de conforto aos enfermos dos nove hospitais de Arapiraca, diz o religioso belga, que mantém atividades de forma intensa aos 78 anos. Não sou velho. Ainda estou amadurecendo. Tenho muito o que fazer pela comunidade da minha querida Craíbas, reforça. MM ### Padre alemão também faz trabalho social no Agreste Arapiraca - O alemão Benedikt Lennartz, 36, deixou a cidade de Hannover e desembarcou na capital paulista em 1992 para desenvolver trabalho social voltado para jovens viciados em drogas. Anos depois, migraria para o Recife (PE) e depois para Penedo, onde freqüentou o seminário em que foi ordenado padre em junho de 2004. O bispo dom Valério Breda o enviou para Craíbas, na região Agreste, com a missão de auxiliar o padre belga José Theisen no desenvolvimento dos trabalhos sociais e religiosos realizados pela paróquia da cidade. O jovem religioso - que usa tênis, camiseta e calça jeans - explicou que uma de suas missões é formar a consciência crítica dos cidadãos da região. Num português fluente, embora não esconda o sotaque germânico, Benedikt Lennartz também desenvolve trabalho de conscientização política. É nossa função trabalhar para formar a consciência crítica da população. Prego o fim do inconformismo. E penso que os cidadãos conformados com a realidade social são úteis à classe política, analise o religioso. Padre Bené Conhecido na região Agreste pelo apelido de padre Bené - as pessoas têm dificuldade em pronunciar meu nome alemão, justifica - o religioso encontrou a reportagem da Gazeta nas dependências do Lar São Domingos Sávio, em Arapiraca. Ligada à Diocese de Penedo, a entidade abriga dezenas de garotos carentes ou abandonados por suas famílias. Além de angariar recursos na comunidade agrestina, os padres José e Benedikt também viabilizam com instituições européias recursos para ajudar na manutenção de entidades como o Lar São Domingos Sávio, que fica em Arapiraca. De um jeito ou de outro, temos que brigar para mudar a realidade social da população carente. Não podemos nos conformar com as dificuldades, desabafa Bené. O religioso alemão acostumado ao progresso econômico e tecnológico da Europa observa uma vantagem na realidade de quem vive em Alagoas. O estilo de vida é saudável. As pessoas são alegres. São sensíveis e sabem viver. São equilibradas, apesar das dificuldades sociais, analisa Benedikt Lennartz. |MM

Relacionadas