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Trabalhadores voltam à rotina do corte

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REGINA CARVALHO IVAN NUNES Repórteres União dos Palmares - A moagem da cana-de-açúcar começou nas 25 usinas em operação de Alagoas no início deste mês. Período que deve durar de cinco a seis meses. Três usinas estão paradas: Roteiro, Agrisa e Terra Nova, localizadas respectivamente no município de Roteiro, Joaquim Gomes e Pilar. Algumas resolveram não moer por uma questão de estratégia mesmo. Os donos preferem fazer parcerias moendo com outras usinas, declarou o assessor técnico do Sindicato dos Usineiros de Alagoas, Jorge Sandes. A previsão de safra deste ano é de 23,5 milhões de toneladas de cana. Número inferior ao do ano passado, de 26,1 milhões de toneladas. Fizemos a previsão dessa quantidade que é menor que a anterior por causa da seca do ano passado, explicou Sandes. Trabalhadores O assessor sindical da Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetag), Sílvio Marques, conta que por causa do trabalho exaustivo no campo muitos trabalhadores não participam de assembléias para discussão sobre seus próprios interesses. O salário dos trabalhadores começou a ser discutido pela categoria e pode ter o valor fechado no dia 1º de novembro, quando patrões e membros da Fetag participam de encontro para definição da questão salarial. Todos os anos sempre acontece em novembro. Algumas vezes é preciso várias reuniões para chegar a um consenso, para saber quanto vai ficar o salário do trabalhador, relatou Sílvio Marques. Acordo firmado entre patrões e Fetag fechou em R$ 302 o salário dos trabalhadores da área canavieira de Alagoas no ano passado. Para este ano, consta na pauta de reivindicação da categoria, com proposta já entregue desde o dia 27 do mês passado, o valor do salário de R$ 400. Dos mais de 100 mil trabalhadores da área canavieira, quase 54 mil tiveram a carteira assinada no ano passado. O restante trabalhou clandestinamente. Para a safra deste ano, a Fetag promete que haverá uma maior fiscalização para tentar coibir o trabalho clandestino. A média de trabalhadores na cana-de- açúcar não muda muito durante os anos, lembra o secretário de política salarial da Fetag, José Souza. O jovem Alexsandro da Silva, 19 anos, casado e pai dois filhos, corta cana desde pequeno em União dos Palmares, ganha R$ 2,54 por cada tonelada cortada, o que dá, em média, R$ 10 por dia, ou R$ 300 por mês. Isso se eu ficar de sol a sol. Nos últimos anos, os cabos de turma somente pegam para trabalhar aquele que corta por dia 4 ou 5 toneladas, menos nem ver, o trabalhador está fora. Ficou difícil agora ganhar o pão de cada dia, diz Alexsandro, que reclama da pesagem. Na hora do peso, o cabo sempre coloca alguma coisa a mais para as usinas. É fogo! ### Cabo recruta homens em bairro de União Os bairros mais populosos de União dos Palmares - o Roberto Correia de Araújo (Terrenos) e o Sagrada Família (Mutirão) - são os maiores exportadores de mão-de-obra canavieira da zona da mata alagoana. Nesta época do ano diversos cabos - capatazes e gerentes de campo das usinas - percorrem os dois bairros em busca de jovens entre 16 e 30 anos para o corte da cana-de-açúcar. O Terrenos e o Mutirão juntos têm população superior a 36 municípios alagoanos, de acordo com a prefeitura local. Mas com esse crescimento desordenado surgiram também grandes problemas nessas localidades, o que fez esses bairros se transformarem em bairros-dormitórios. São homens que deixam a família para sobreviver no corte. Um outro agravante para quem reside nessas regiões tem sido a falta de investimentos em políticas públicas. A cada dia elas se distanciam de ações concretas nas áreas de saneamento básico e segurança. Apenas 20% da área do Terrenos tem ruas saneadas, num universo de quase 25 mil habitantes. A falta de emprego instigou alguns jovens para a prática de pequenos delitos no próprio bairro. O que motivou o comandante do 2º Batalhão de Policia, coronel Praxedes, a intensificar a presença da Polícia Militar nesses bairros, que da noite para o dia se tornaram perigosos. Foi em meio ao canavial da Fazenda Açucena, próximo ao povoado conhecido como Timbó dos Culas, pertencente à Usina Laginha, debaixo de um calor acima de 35 graus, que a Gazeta ouviu o relato do jovem Alexsandro sobre a sua atividade. Ele recebe um kit de segurança para enfrentar o corte da cana, com caneleiras, óculos, boné, um par de botas, foice com capa para proteger a lâmina; além de uma jaqueta contra a palha da cana-de-açúcar, para evitar ferimentos no braço esquerdo. |IN ### Cabo impõe condições ao trabalhador União dos Palmares - Para entrar no corte da cana-de- açúcar existem algumas regras básicas impostas na hora de assinar o contrato entre o cabo - gerente de campo das usinas - e os trabalhadores rurais nas cidades. São os conhecidos cabos de turma, que no final do dia também fazem a pesagem da cana cortada. Eles sempre apresentam números diferentes do que o trabalhador imaginou ter cortado. Eles sempre puxam para a usina, contesta um trabalhador, que pediu para ter sua identidade preservada. A toceira Uma outra situação incômoda vivida pelos cortadores de cana, é a presença do toqueiro - fiscal na hora do corte da cana - o papel deles é exigir que a cana seja cortada com o mínimo de tamanho entre a terra e a toceira de cana. Passou de 3 centímetros o trabalhador que fizer o serviço dessa forma perde o que já cortou. Isso sem piedade, eles sempre têm razão, completa. Invariavelmente, essa regra é aceita pelos trabalhadores, por temer perder o emprego. Pão com suco Os trabalhadores, neste período de safra, costumam sair cedo de casa. Eles deixam a família entre 3h e 4h da madrugada, para a área de corte. Todos levam uma sacola improvisada com uma marmita, para o almoço. A empresa oferece a eles apenas um lanche. Um pão acompanhado de um copo de suco. O cardápio trazido de casa é sempre o mesmo, parece distante dos nutrientes que dão sustentação à força humana no enfrentamento do corte: ovo frito, cuscuz e peixe salgado, a picirica. A volta para casa ocorre entre 18h e 19h. O grau de escolaridade da maioria dos trabalhadores de cana-de-açúcar nunca passa do ensino fundamental. IN ### Situação piorou no campo, diz economista A situação socioeconômica dos trabalhadores rurais de Alagoas, especificamente daqueles que trabalham na área canavieira, piorou nos últimos anos. A avaliação é do economista e professor da Ufal Fernando Lira. Os homens que trabalham por temporada se submetem a todo tipo de remuneração e esse trabalho acaba levando à exaustão física, ressaltou o economista. Outro problema que agrava a situação do homem do campo é que depois de passar anos no corte de cana, ele dificilmente consegue exercer outra função, porque não tem qualificação profissional. Para Lira, o patrão deve ter compromisso social e melhorar as condições de vida dos trabalhadores. Tem que ser um parceiro da produção, com assistência e remuneração dignas, ressaltou. Mas, segundo o professor, o tratamento da questão ambiental passou por avanços nos últimos anos. De modo geral, os plantadores de cana têm que se preocupar com o meio ambiente e com a responsabilidade social. Quanto ao meio ambiente houve avanços, destacou. O economista ressalta que a cana-de-açúcar é importantíssima para Alagoas desde o século XVI, mas a atividade, por sua vez, trouxe sérios problemas, como a concentração de renda. RC

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