Cidades
Alagoanos vítimas da violência vivem dilema no referendo
REGINA CARVALHO FÁBIA ASSUMPÇÃO Repórteres Entre os 1,7 milhão de alagoanos - 448 mil estão em Maceió - aptos pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) a votarem pelo sim ou pelo não sobre a continuação da fabricação e venda de armas de fogo no Brasil, estão cidadãos que tiveram suas vidas atingidas pela agressão injusta e criminosa de um tiro fatal, ou balas que deixaram seqüelas físicas e psicológicas. Esses cidadãos e cidadãs, que assistiram a pais, mães, filhos, parentes e amigos serem vítimas do consumo de armas e munições, estão hoje diante de um dilema. Votar pelo desarmamento geral da nação, ou deixar que a população continue se armando contra a escalada da violência? Como aponta a atual realidade em Alagoas e no Brasil. Não é nada fácil! Não Esse desarmamento é um blefe! Aparentemente a decisão é fácil: pelo sim. Mas isso se a gente vivesse num país razoável em termos de segurança pública, mas não é o caso e por isso voto pelo não!, opina o médico alagoano Ronald Mendonça. Ele viveu um dos casos mais emblemáticos de violência com arma de fogo. Mendonça até hoje não se recuperou do trauma de ver seus dois filhos Lavínea Lopes de Mendonça e Ronald Lopes de Mendonça, respectivamente com 28 e 22 anos, serem brutalmente assassinados à bala pelo jardineiro da casa onde moravam, Jaelson Oliveira, em 1999. Sim Já Valéria Hora Barros vai às urnas este domingo dizer sim no referendo sobre o fim do comércio de armas no Brasil. Há quatro meses, nesta mesma data, ela via o filho morrer, vítima de uma arma de fogo. Davi Hora Barros Omena, 18 anos, foi atingido por uma bala no lado esquerdo do rosto, disparada pelo estudante Rodolfo Amaral, também de 18 anos, durante as festas juninas em São Miguel dos Campos. O pai de Rodolfo chegou a declarar na imprensa que o filho teria disparado a arma por brincadeira. ### Pai perde 2 filhos, mas vota pelo não Casos emblemáticos de violência com arma de fogo foram repercutidos amplamente nos meios de comunicação de Alagoas. Especificamente um deles chocou a sociedade, aconteceu em novembro de 1999 e fez duas vítimas fatais: os jovens universitários Lavínea Lopes de Mendonça e Ronald Lopes de Mendonça, respectivamente com 28 e 22 anos. Eles foram brutalmente assassinados pelo funcionário de confiança da casa onde moravam, o jardineiro Jaelson Oliveira de Melo, que trabalhava há um ano e meio com o médico e professor Ronald Mendonça, pai das vítimas. O desaparecimento dos seus filhos ainda atormenta o médico, que decidiu há poucos dias votar não neste domingo, dia do referendo. Aparentemente a decisão é fácil: é pelo sim. Mas isso se a gente vivesse num país razoável em termos de segurança pública. Esse desarmamento é um blefe, lembra Ronald Mendonça. Ele reforça sua decisão pelo não porque os filhos foram vítimas de uma arma clandestina, comprada a um militar. Não ando armado, mas não quero que as pessoas saibam disso. Quero ter o direito de ter uma arma em casa, informa o médico. Ele mostra uma maleta de couro, que alguns pensam ter uma arma dentro. Como de costume, ele sai com o objeto do seu consultório, no bairro do Farol, que serve apenas, segundo ele, como instrumento para inibir a abordagem de marginais. Muita gente pensa que eu tenho uma arma dentro dessa bolsa, inclusive colegas de trabalho. Carrego sempre essa maleta comigo, ressalta Mendonça. Para rebater o principal argumento de quem vai votar sim, o médico diz que um homicídio pode ser cometido com outros instrumentos. Quem tem uma arma em casa deve guardá-la longe dos filhos menores. Além disso o desequilibrado vai matar com qualquer coisa, não precisa ser necessariamente uma arma de fogo, destacou. Ele acredita que a violência pode aumentar caso o ?sim? vença. Sem dúvida o mundo ficaria melhor sem a arma de fogo, mas quando o bandido sabe que uma pessoa tem uma arma de fogo, ele não aparece, reforça o médico. RC ### Uma bala perdida matou a paz de Israel Israel Sampaio, de apenas 21 anos, sempre foi pela paz. Paz que sempre foi o ideal pregado por seus pais Simone e Tanízio Sampaio. Mas Israel acabou sendo vítima de uma bala perdida na noite do dia 9 de janeiro, quando aguardava a entrada para um show numa casa noturna, em Jaraguá. Seu algoz foi Diego Ramirez, de 25 anos, que ao disparar a arma, além de matar Israel, atingiu mais três pessoas. A trágica morte do filho reforçou ainda mais a decisão de Simone e Tanízio votar sim a favor do desarmamento no referendo deste domingo. Simone lembra que o filho foi vítima da violência urbana que é praticada por assaltantes ou bandidos. Mas morreu de uma arma disparada por um jovem de classe média. Tanízio e Simone sabem que dizendo o sim ao desarmamento, a violência não vai acabar. Mas estarão defendendo o direito à vida, que foi tirada do filho por uma arma de fogo. Israel sempre foi uma pessoa de paz. Em casa nunca tivemos arma, mas meu filho foi protagonista de tragédia provocada por uma bala perdida, que nada tem a ver com a questão da pobreza, diz Simone. Tanísio, que está concluindo o curso de História, disse que a aprovação do comércio de armas representa um retorno à idade média ou ao tempo do bang bang. Estamos indo na contramão da história. A sociedade tem que evoluir, mas não andar de ré. Ele também faz críticas ao nível da propaganda sobre o referendo na televisão e no rádio. A propaganda está confundindo as pessoas. A tática da campanha do não tem sido deixar as pessoas inseguras. Para Tanísio, o que tem de ser difundido é a idéia do bem. As pessoas têm que saber viver com outras pessoas aceitando suas diferenças e tentando corrigi-las. Simone acrescenta que uma arma não protege ninguém. Um bandido não escolhe entrar na sua casa porque você não tem uma arma. Ele vai porque está interessado em ter algum ganho e está disposto a tudo. Para ela, a propaganda do não está tentando incutir na cabeça das pessoas que se promovendo o desarmamento vai haver uma onda de vandalismo. A propaganda sobre o referendo não está discutindo com profundidade a questão da violência. Ela questiona também os custos da campanha, dinheiro que muitas vezes o governo não dispõe para investir em educação, saúde e melhoria das condições de vida da população. Hoje, assim como outras famílias de pessoas vítimas da violência, Tanísio e Simone vão vestidos com a camisa com a foto do filho. Esperam com isso sensibilizar aqueles que ainda estão em dúvida em como votar nesse referendo. A pessoa que dorme e acorda com uma arma está sempre à espera da violência. A vida é feita de risco, mas a gente não pode deixar a paz de lado por isso. FAS ### Mãe de vítima prega adeus às armas A psicóloga Valéria Hora Barros, apesar de ainda sofrer as seqüelas de uma tragédia familiar, com a morte de seu filho Davi Hora Barros Omena, 18 anos - atingido por uma bala no rosto, disparada pelo estudante Rodolfo Amaral, também de 18 anos, durante as festas juninas - engajou-se na campanha pelo sim. Quem passa pela orla da Ponta Verde pode ver uma faixa pendurada nas janelas do seu apartamento: Desarme-se. A arma é um instrumento de ataque e não de defesa. A forma de se proteger contra a violência é escolher as coisas certas, saber com quem está andando e contar com a orientação da família. Para Valéria, a arma na mão de um jovem só vai trazer mais insegurança e violência. Meu filho foi uma vítima dessa violência, por isso prego o adeus às armas, afirma Valéria. Ela vai às urnas este domingo dizer sim no referendo sobre o fim do comércio de armas no Brasil. Há quatro meses, nesta mesma data, ela via o filho morrer, vítima de uma arma de fogo. Valéria se diz preocupada com o cunho político que tomou conta da propaganda dos grupos que são contra e a favor do desarmamento. Ela que, depois da morte do filho, passou a se reunir com jovens e fazer palestras em escolas, disse que tem percebido o clima de terror que vem tomando conta dos mais jovens. A forma como a campanha vem sendo colocada está confundindo os jovens. O referendo para Valéria Barros é um ato democrático e de exercício de cidadania. Muitos jovens vão votar pela primeira vez, vão começar a participar de decisões que envolvem a ordem social, além de poder refletir sobre essa questão, afirma. FAS ### Levou bala de raspão, mas vai votar pelo não A rotina do universitário Ernani Viana, 25 anos, mudou depois do dia 9 de janeiro deste ano. Ele foi vítima de uma bala perdida, que atingiu de raspão o lado esquerdo da cabeça. O episódio aconteceu defronte da boate Marques d´Latravéia. Nesse dia seu colega Israel Sampaio foi atingido fatalmente pelo mesmo autor dos disparos. Depois de uma situação como essa que vivi, a gente dá mais sentido à vida. Passa a ter um sentimento renovado, conta. Resolvido a votar não no referendo, Ernani tem um argumento forte. A arma não protege, mas age como fator inibidor. O direito à legítima defesa é um direito democrático, alega o universitário. No momento em que foi atingido pelo tiro de raspão, a única coisa que passou pela cabeça do universitário foi que aquilo não estava acontecendo. O fato que aconteceu comigo só serviu para reforçar a convicção de quanto a sociedade precisa se aprimorar, lembra o estudante. Naquela noite, Ernani estava distante de Israel a aproximadamente três metros e conversava com alguns amigos. Não conhecia o acusado, o estudante Diego Ramires. Desde então, tem evitado sair à noite para as conhecidas baladas, onde sempre encontrava Israel. Miséria e violência Ele costuma freqüentar ambientes onde há mais pessoas conhecidas. Vou votar não. O porte de armas já é proibido e o referendo só vem para a posse de arma em casa. O resultado desse referendo deve mudar pouco a situação que vivemos no País. A grande contradição não é relativa à quantidade de armas e arsenais dos bandidos, mas em relação à miséria e à violência, reforça o universitário. RC