Cidades
Filas impõem sacrifício aos alagoanos
| FÁTIMA ALMEIDA Repórter Saúde, Educação, Previdência e Assistência Social são direitos elementares do cidadão brasileiro assegurados pela Constituição Federal. Mas até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sabe que esses direitos acabam quase sempre em quilométricas filas. Tanto é, que na semana passada ele prometeu que vai acabar com as filas até abril do ano que vem. Vamos ter mais gente trabalhando e mais opções de as pessoas se informarem por telefone. Porque não tem nada mais insano neste país do que um cidadão se levantar à meia-noite para ir para uma fila, às vezes, a ficar nela o tempo inteiro, prometeu Lula. Mas, pelo menos em Alagoas, o acesso a esses serviços implica, quase sempre, em transtornos e sacrifícios até sobre-humanos. Em filas extensas, as pessoas são obrigadas a superar os limites físicos, pernoitando ao relento; passando horas sem comer; debaixo de sol ou de chuva; expostas ao calor ou ao frio, e, principalmente, aos riscos da violência noturna, para conseguir atendimento. Até hoje o ambulante João Ferreira do Nascimento não esquece a fila que enfrentou no dia em que foi receber o cartão do Bolsa- Escola dos dois filhos menores, há cerca de dois anos. Eles entregaram por letra. Foram mais de 10 dias para entregar o cartão de todo mundo. Mesmo assim a fila era enorme, diz ele. Na última quarta-feira João não foi trabalhar. Teve de comparecer à escola Baltazar de Mendonça, no Jacintinho, para fazer o recadastramento para o Bolsa- Família. Na véspera, ele fez o que a maioria das pessoas tem feito: passou a noite na fila para pegar uma ficha logo cedo. Na hora da entrega, pela manhã, tumulto, empurra-empurra e correria. A polícia teve de ser chamada para garantir a ordem. João Ferreira conseguiu a ficha, mas só foi atendido no final da manhã. Nesse dia, segundo a diretora da escola, Josefa Souza Araújo, foram entregues 850 fichas. Ela disse que chegou às 6h30 e já tinha mais de 300 pessoas esperando. Aparecida Soares tem dois filhos cadastrados e na quarta-feira também não foi trabalhar. Passou a noite na fila, ao relento. Pela manhã pegou uma ficha, mas não conseguiu ser atendida no primeiro horário. Foi dispensada por volta das 10h para retornar à tarde. Tanto sacrifício vale a pena? Ela diz que sim. Aos 63 anos, Josefa Santos Amorim não agüentou o rojão. O filho, pai dos dois netos que ela cria, ficou na fila durante a noite. Pela manhã, ela assumiu o posto para que ele fosse trabalhar, e foi atendida somente no início da tarde. Graças a Deus consegui. Com esse dinheirinho eu faço tanta coisa, inclusive compro alimento para as crianças, diz ela. ### Pais fazem plantão na matrícula de filho A fila para garantir os trocados do Bolsa-Família não é a única na vida de Josefa Amorim. Ela já viveu situações parecidas para garantir uma consulta com um oftalmologista num posto de saúde e para fazer a matrícula dos netos numa escola da rede pública, em duas ocasiões. Mesmo com a ampliação de vagas, há anos a situação se repete em vários bairros de Maceió: quando se inicia o período de matrícula escolar, as mães fazem plantão, noite e dia, à porta das escolas públicas para garantir uma vaga para os filhos. Parece que já virou hábito. Por mais que a gente diga que não precisa dormir, elas vêm, ficam e amanhecem o dia, diz Josefa Araújo, diretora da escola Baltazar de Mendonça. Se não ficar, como é que vamos garantir a vaga?, indaga a dona-de-casa Ivanilda Bezerra, mãe de três crianças em idade escolar. Também quando precisa de consulta no posto de saúde, ela costuma levantar às 3h da manhã para garantir a marcação. Posto mÉdico O vendedor Ranulfo Oliveira já teve que dormir no posto médico do Jacintinho para garantir uma consulta para a esposa, no ginecologista. Na quarta-feira passada, ele estava no Instituto de Identificação para tirar uma 2ª via da Carteira de Identidade. Pegou o formulário para pagar a taxa e foi recomendado a voltar no dia seguinte, às 4h da madrugada. Tenho medo de assalto, mas vou dormir na fila. Tem sempre uma multidão. Trago cafezinho, biscoito e uma almofada, e fico aqui esperando. Preciso desse documento, diz ele. Claudinete Luiz Nascimento fez isso na terça-feira. Ela chegou às 5h, mas não conseguiu mais ficha. Voltou à noite para dormir. Deixou os filhos na casa da mãe, juntou-se a duas vizinhas que também precisavam do documento e saiu da Chã da Jaqueira para o centro. Sozinha eu não vinha, não. Tenho medo de assalto e tem muita violência no meu bairro. Dessa vez ela pegou a ficha nº 38, e conseguiu encaminhar o processo para a sua primeira carteira de identidade. Carteira de identidade Segundo a agente policial Amélia Dantas, que trabalha no Instituto de Identificação, as fichas são entregues às 7h da manhã, pelo vigilante, e esgotam logo cedo. A capacidade do órgão é limitada a cerca de 120 atendimentos por dia, por causa do número de funcionários, mas as pessoas excedentes são encaminhadas às Centrais (Já) de Atendimento ao Cidadão, que atendem a uma média de 40 pessoas por dia, cada uma. São quatro centrais em funcionamento em Maceió (Centro, Farol, Benedito Bentes e Mangabeiras). Amélia lembrou ainda que cada município tem o seu Posto de Identificação, mas que as pessoas acabam recorrendo ao Instituto, onde o documento sai em menor tempo. Flagelo do inss Muito mais que a necessidade de organização para atendimento das demandas dos beneficiários da previdência social, as filas do INSS ficaram famosas ao longo dos anos pela longa espera e pelo flagelo que representam para os cidadãos, geralmente pessoas fragilizadas pela idade ou por alguma enfermidade, enfrentando noites ao relento, na luta por uma ficha que lhe garanta o direito ao atendimento. Mas as filas com pernoite são mesmo necessárias? Na avaliação do gerente do posto Ary Pitombo, Heleno Calheiros, as filas são indispensáveis para a organização do trabalho. Sem elas, não há condições de atendimento. Quanto ao pernoite, ele prefere deixar que os fatos falem por si. O Ary Pitombo, que funciona na Praça dos Palmares, é o posto mais movimentado de Maceió, ainda mais agora que está recebendo, também, a demanda do Montemáquinas. Segundo Heleno, são atendidas quase 400 pessoas por dia. Se fosse atender a toda a demanda, talvez dobrasse esse número. Só se fosse aberto 24 horas. Mas não é. ### Guarda-fila vira uma nova profissão Flagelo para muitos, as filas acabam se transformando em fonte de renda para algumas famílias. Café, água, refrigerante, caldo de cana, pipoca, biscoito, bolo, salgadinho, picolé... de tudo se encontra na frente do PAM Salgadinho. José Alves de Lima montou uma barraca de alimentos no local há cerca de 25 anos. Seu último emprego foi na obra de construção do PAM. Vi que ia dar movimento, e fui ficando. Sustentei a minha família com esse ponto, diz ele, que hoje conta com a ajuda dos filhos e do genro na fritura de pastel e na moagem de cana para caldo. José Alves chega às 6h, na hora da fome, e o café quentinho tem saída quase imediata. Só vai para casa às 19h. Já o colega Gilberto Carlos de Brito madruga. Mora em Flexeiras, e vem todos os dias, no carro da prefeitura que transporta pacientes para o PAM Salgadinho. Trabalha há 16 anos na área, das 4 às 16 horas. Toda a mercadoria que traz sempre tem saída. Às vezes até falta, diz ele. Mas a venda de alimentos não é o único ganha-pão gerado pelas filas dos que buscam os serviços públicos elementares. Um novo mercado, talvez menos nobre, começa a surgir e provocar contestações: o das pessoas que guardam lugar na fila para vender. Dito assim, parece um mercado desonesto. Recentemente uma senhora foi presa vendendo ficha na fila do Instituto de Identificação. O estudante M.F.S, que reside no Jacintinho, não acha desonesto o que faz. Tem pessoas que não podem passar a noite. Fico no lugar delas e elas me pagam por isso. Não estou tomando o lugar de ninguém e estou dando duro, passando a noite acordado para ganhar esse dinheiro e ajudar nas despesas de casa, defende-se ele. Para passar a noite numa fila do recadastramento do Bolsa-Família, o adolescente cobra R$ 10, e diz que conhece muita gente que está fazendo isso. |FAL