Cidades
Usuários são abandonados em posto de atendimento
| REGINA CARVALHO Repórter A direção geral do Posto de Atendimento Médico (PAM) Salgadinho denunciou o descaso de algumas prefeituras alagoanas no que se refere ao transporte de pacientes para Maceió. Usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) são obrigados a ficar horas esperando veículos fretados pelos municípios, que algumas vezes não aparecem. Às vezes eles demoram ou mesmo não retornam para buscar os usuários, diz Vanilo Soares, diretor-geral da unidade. Os funcionários do PAM Salgadinho dizem que várias vezes tiveram que autorizar a permanência de usuários no prédio durante a noite, porque o transporte que deveria buscá-los não apareceu. Também ligamos para as secretarias para mandar buscar os pacientes que esperam horas para voltar para casa, lamenta Maria Alice Ataíde, diretora de ações de saúde do PAM. Ela lembra que o fato de as secretarias municipais de Saúde trabalharem apenas no período da manhã inviabiliza o contato e acaba contribuindo para que usuários, alguns em situação mais delicada de saúde, fiquem entregues à própria sorte. Atendimento O problema se agravou ainda mais depois que a unidade aumentou sua capacidade de atendimento, segundo informou o diretor-geral. De acordo com ele, das cerca de três mil pessoas que são atendidas por mês no PAM Salgadinho, entre 800 a mil são do interior. Para a assistente social Vera Lúcia França, as prefeituras deveriam ter maior cuidado com seus cidadãos. Muitos vêm para cá em jejum. Alguns chegam a desmaiar de fome. É uma situação delicada que envolve crianças, idosos com graves problemas de saúde. Sem contar que alguns nunca vieram a Maceió e chegam aqui 4 horas da manhã, sem se alimentar, disse a assistente social. Ela confirmou que os funcionários chegaram a fazer cotas para pagar lanches e passagens para moradores do interior. A frustração ainda é maior para os usuários que, depois de horas de espera no PAM Salgadinho, não conseguem atendimento médico. Muitos vêm para cá sem sequer marcar consulta. Isso é ruim. Quando existe uma forma de encaixá-los fazemos isso, mas depende da disponibilidade do médico e da quantidade de atendimento que será feito naquele dia, lembra Vanilo Soares. TRISTE REALIDADE Ontem, Luzinete Cândido chegou às 7 horas no PAM para tentar fazer consulta, mas o médico não pôde atendê-la. A consulta ficou para quinta-feira, lamentou. Natural do município de Joaquim Gomes, ela precisou de transporte da prefeitura para chegar a Maceió e aguardava pacientemente pela ambulância que tinha previsão de chegar oito horas depois. Só tinha R$ 2 e já gastei. Tenho medo de andar em Maceió. Vim aqui pela última vez há 12 anos. ### Funcionários viram anjos da guarda Para a direção geral do PAM Salgadinho, falta organização por parte das prefeituras na prestação de serviço aos usuários. Algumas prefeituras enviariam os pacientes sem esclarecer ser obrigatória a apresentação de documentos para a marcação de consultas e atendimentos. A documentação é fundamental. Sem ela, não atendemos. Acho que falta estrutura no encaminhamento desse pessoal, acrescenta o diretor-geral Vanilo Soares. Os funcionários ressaltam que esse problema tem acontecido com muita freqüência. Vanilo Soares lembra que a situação dos pacientes do interior sensibiliza os funcionários do PAM Salgadinho. Várias vezes já autorizei que alguns dormissem aqui, completa. A iniciativa da direção foi tomada depois de ver, por inúmeras vezes, pacientes aguardando o veículo fretado pela prefeitura quando já havia encerrado o expediente da unidade de saúde, no caso às 19 horas. Já teve gente que ficou aqui esperando até as 22 horas. A gente fica comovido com essa situação, reforçou Maria Alice Ataíde. Para a assistente social Vera Lúcia, deveria existir uma política de assistência aos pacientes que precisam de atendimento em Maceió. É necessário que cada município tenha essa responsabilidade para com o usuário, reforçou a funcionária da unidade. Anjo da guarda O motorista do PAM Salgadinho Carlos Jorge Ferreira da Silva é o funcionário que sai mais tarde do trabalho. Para os outros que atuam na unidade, ele se tornou uma espécie de anjo da guarda de moradores do interior que buscam atendimento em Maceió. Por causa disso já presenciou inúmeras vezes situações de abandono. Em muitas delas teve de desembolsar dinheiro para ajudar pacientes a voltar para casa. Na última quarta-feira ele levou uma senhora, com um neto de apenas três meses, para dormir na casa de sua mãe. O transporte da Prefeitura de Arapiraca ficou de buscar a paciente às 14 horas, mas até as 20h não tinha aparecido. A senhora teria ficado desesperada e Carlos Jorge se sentiu na obrigação de ajudá-la. Nos últimos meses isso tem acontecido constantemente. Muitos ficam desesperados e começam a chorar quando anoitece. Começam a perguntar que horas são e se desesperam quando o transporte demora a chegar, enfatiza o motorista. Carlos Jorge ressalta que parte dos veículos se compromete a voltar à tarde, mas retorna apenas quando já é noite. Além disso, tem motorista que quando chega na porta do PAM e vê que o paciente não está, vai logo embora. Alguns são atenciosos, vão procurar as pessoas pelos corredores, outros sequer procuram e vão embora mesmo. Esse é outro problema, disse Ferreira. Segundo ele, a situação fica mais crítica no início da semana, quando inúmeras ambulâncias e outros veículos fretados por várias prefeituras trazem os usuários para atendimento no PAM. |RC