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Geógrafa diz que Francês chegou ao fim

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| FÁTIMA ALMEIDA Repórter O pescador Cícero Romão dos Santos, 75 anos, nasceu na antiga comunidade de pescadores que se formou à beira-mar, no antigo povoado do Francês. Durante anos viveu e sustentou a família da pesca farta tirada do mar. Resistiu à especulação imobiliária que transformou o antigo povoado em movimentado balneário, um dos destinos mais procurados do País. Mas enquanto o Francês se tornava um point nacional, ele ficava espremido entre as construções, vivendo a amargura e a miséria de quem perdeu espaço para o progresso e ficou à margem dos benefícios. Cícero é a personagem perfeita para ilustrar uma pesquisa de mestrado realizada pela geógrafa Elizabeth Carvalho Martins, que mostra os impactos sociais e ambientais que o turismo provocou no Francês. A comunidade foi desestruturada e descaracterizada. A paisagem foi devastada, e os pescadores, que deveriam ser beneficiados com as mudanças, foram expulsos por uma nova realidade que não considerou a importância da antiga comunidade e nem da conservação da área, destaca Elizabeth. Segundo ela, isso acabou por tirar o encanto do lugar, transformando-o apenas emum espaço. Na sua opinião, a Praia do Francês está em seu último estágio de saturamento, em que o turista chega, olha, constata a paisagem e vai embora, sem ter qualquer contato com a vida e os costumes do lugar. Mudanças em série Cícero Romão viu a paisagem mudar com a chegada da Rodovia (AL-101Sul), na década de 70, e os carros substituírem os burros de carga que levavam o pescado até os pontos de embarcação, na Massagueira ou em Marechal Deodoro, de onde vinham em canoas para o mercado público de Maceió. Chegou a sonhar com uma vida melhor para a família, quando viu a explosão do turismo. Viu muitos colegas de profissão cederem aos encantos do capitalismo e venderem seu pedaço de chão para os que chegavam encantados com a beleza do lugar. Foi cercado pela ocupação desordenada, mas resistiu, permaneceu onde estava e continuou pescando. O progresso mudou a vida da pequena comunidade de pescadores, e, em alguns momentos, até trouxe melhorias, aumentando o fluxo de compradores para o pescado, novas atividades, empregos, urbanização, e muita gente nova. Mas a ocupação foi tão ostensiva que a antiga cabana de palha construída na areia, onde Cícero sempre viveu com a família, virou uma minifavela emendada de compensado, imprensada entre as novas construções, sem ventilação. O pescador que morava na areia perdeu todas as paisagens, até mesmo a vista para o mar. Há cinco anos Cícero Romão deixou de pescar por causa da saúde. Vive hoje em situação de absoluta miséria. Os filhos de Romão ainda tiram do mar o sustento da família, mas com dificuldade. Para os netos, o velho pescador aconselha: estudem para ter outra profissão, porque vida de pescador não dá mais. ### Expulsos da vila, pescadores levam com eles a história As entrevistas feitas com nativos remanescentes da Praia do Francês levaram a pesquisadora Elizabeth Martins a constatar o quanto eles foram deixados à margem das mudanças ocorridas. As formas desordenadas de ocupação e crescimento refletem os interesses de poucos, deixando à margem do processo de planejamento e dos benefícios auferidos aqueles que deveriam participar e usufruir, diz ela. Exclusão Segundo a pesquisadora, essa exclusão expulsou os pescadores da comunidade e descaracterizou o local. Eles deveriam permanecer como elemento de referência cultural. Mas foram obrigados a sair. Não foram preparados para essa nova realidade e não têm como competir com as barracas estruturadas de quem chegou com o capital. Ao deixar o lugar, eles levam, também, a história, lamenta a pesquisadora. FAL ### Barracas destruíram as dunas do Francês A Praia do Francês foi escolhida por Elizabeth Martins para a sua pesquisa por ser um dos mais importantes pontos turísticos de Alagoas e apresentar variados e marcantes ecossistemas, como recifes, dunas, vegetação de restinga e manguezais. E os impactos ambientais que a ocupação desordenada e a exploração turística causaram ao meio ambiente, segundo ela, são tão devastadores quanto o impacto social. Houve degradação em todos os aspectos: ambiental, social, econômico e cultural, destaca. Ela constatou, por exemplo, que onde hoje a construção imobiliária está em plena expansão, havia mangues há algumas décadas, aterrados pelos primeiros loteamentos. No local onde foram construídas as barracas da praia, para atender à demanda turística, antes havia dunas. Além de tudo, era área verde do loteamento, em terreno da Marinha, diz ela. Segundo Elizabeth, as barracas foram projetadas, inicialmente, para os pescadores, e teriam um estilo rústico e bem limitado, respeitando a paisagem natural, mas eles não foram capacitados para lidar com dinheiro e perderam espaço para o capital que veio de fora. O impacto ambiental pode ser observado, também, segundo sua pesquisa, na textura da areia que antes cantava sob os pés. Ela diz que hoje, quando bate o vento Nordeste, ao invés de areia, o que sobe é saco plástico, copo descartável e palito. Segundo Elizabeth, a região dos corais também foi extremamente prejudicada pelo pisoteamento, o que causa impacto negativo na vida marinha. Antes, os pescadores viam os peixes chegando. Tinha curimã na costa. Hoje não existe mais isto, diz ela. Até mesmo a vegetação de restinga, que segura a areia, está sendo ameaçada. Imagine o impacto disso tudo. O mangue, que é o berçário da vida marinha, deixou de existir. As dunas, que protegiam os mangues, praticamente acabaram; muitas saídas de esgoto vão poluindo a água e até alterando a sua salinidade, reflete. Convivência Durante sua pesquisa, Elizabeth Martins construiu amizades. Chegou a dormir em casa de pescadores para conhecer suas histórias. Quando não havia energia elétrica e o transporte era feito em burro de carga, as mulheres dos pescadores cumpriam seu papel, salgando os peixes na praia, diz ela. E eles chegavam em fartura. Segundo o pescador Rangel Satiro, 66 anos, um dos remanescentes da comunidade pesqueira do Francês, o mar dava, por dia, cerca de 300 quilos de peixe. Hoje, com o movimento, a costa não dá mais peixe. A pesca não chega a 10 quilos, diz ele. Rangel continua pescando e até reconhece que o progresso trouxe algumas vantagens, como a energia elétrica, a água encanada, e maior facilidade para vender o pescado, mas levou muito pescador embora do lugar. Eles se iludiram com o dinheiro e venderam seu lugar para os forasteiros, lamenta. Na avaliação de Elizabeth, a visão que o turista tem da Praia do Francês não é igual a do pescador. E não é mesmo. Para o turista, que passa, confirma as belezas vendidas nos catálogos das agências de viagem, o Francês se materializa como uma das mais belas e movimentadas praias do Brasil para o turismo de massa; mas alguns pescadores, que nasceram no lugar e o concebem como a sua praia, mas acabaram sendo expulsos do pedaço, o Francês morreu! A pesquisadora, por sua vez, deixa a pergunta para reflexão: que tipo de turismo é esse, que destrói as características locais, exatamente aquelas que chamaram a atenção para o local? E completa: é preciso seriedade dos órgãos públicos em promover benefícios para a comunidade local! FAL ### Turistas perdem o melhor do lugar O que acontece na Praia do Francês, na opinião de Elizabeth Martins, é um tipo de turismo totalmente desvinculado do aspecto cultural. É aquele vendido em pacote, em que você passa, olha e vai embora. Não há associação, sequer, com o centro histórico de Marechal Deodoro, e menos ainda com a forma de vida da comunidade, lamenta. O que é uma pena. O turista que saboreia o peixe à beira-mar se encantaria com as histórias de pescador de seu Rangel Satiro, que aos 66 anos ainda entra no mar e tece sua própria rede. Ele costumava brincar na areia, quando criança, subir nas dunas, e sentia-se o dono da praia. Só tinha uns dez pescadores por aqui. Na rede de arrasto, ele trazia cavala, serra, tainha e curimã, e ainda lembra do tempo em que o peixe era moeda de troca, para adquirir mercadorias vindas da cidade de Marechal Deodoro. Lembra do primeiro restaurante que abriu no local, num bequinho que dava para a praia, quase no meio do mato. Era do João Machado. Ele já morreu, informa. Igual ao amigo Cícero Romão, Rangel resistiu à tentação do capitalismo e permaneceu na praia. Tratou de ensinar o ofício da pesca aos filhos e netos. Ainda dá para tirar o sustento do mar. Mas não sei por quanto tempo, porque a poluição está acabando com tudo, diz ele. Rangel vive modestamente, cercado de netos, no mesmo lugar onde se criou e criou os filhos, e apesar das dificuldades nem pensa em deixar sua praia. O filho de Cícero Romão, conhecido como Alemão, 50 anos, até já pensou em procurar uma vida melhor. Mas vou para onde? Fazer o quê? Só aprendi a pescar, diz ele. A mudança, ele deixa para os filhos. Estão estudando. O mais velho, de 15 anos, é músico, diz com orgulho. Nova paisagem Assim como os colegas de ofício, Alemão guarda, entre as lembranças do antigo povoado do Francês, a fartura que vinha do mar e as brincadeiras nas dunas de areia, que haviam no local onde hoje estão as barracas, que estenderam seu domínio pela areia, até a água. Hoje, as mesas, cadeiras e sobrinhas compõem um novo cenário, junto com asas-deltas, jetskys, bananas-boats e lanchas, compondo uma paisagem que pouco deixa descoberto da beleza exótica da Praia do Francês. Beleza que encantou o gaúcho André Luiz Piuco Tony, há 18 anos. O modo de vida das pessoas, a simplicidade e as belezas naturais me chamaram a atenção, diz ele, que acabou casando com uma nativa, filha de pescador e ficando até hoje. Na sua avaliação, a população nativa e sua descendência, hoje, não representa 10% dos moradores do Francês. Assim mesmo vive espremido no que restou do povoado antigo, separado por muros e barreiras sociais, dos novos donos e suas mansões. A beleza da praia continua, da areia para lá. Do lado de cá, ficou a paisagem da miséria, do esquecimento do poder público e dos problemas sociais, lamenta André, que trabalha como garçom numa barraca da praia. Ele acha que os nativos estão pagando caro pelo erro que cometeram de ter vendido seu espaço para os outros. A pesquisadora Elizabeth Martins espera que essa realidade seja percebida e impulsione políticas públicas de conservação da área e que sirvam de exemplo para outras áreas em expansão turística. |FAL

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