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Coco verde some das ruas e deixa o verão mais quente

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| LELO MACENA Repórter Em plena alta temporada, num dos verões mais quentes dos últimos anos - quando a ingestão de líquido é obrigatória para amenizar o efeito do calor -, Alagoas, terra conhecida pelas praias emolduradas por extensos coqueirais, vive o drama da falta de coco verde. A seca e a pouca atenção dada às plantações do fruto fizeram com que a produção caísse 60% este ano. Pior para os consumidores locais e para os turistas, que agora têm de pagar mais caro pelo líquido mais puro e nutritivo produzido pela natureza dos trópicos. Vendedores de coco verde que trabalham na orla da cidade são unânimes em afirmar que jamais viram uma situação parecida com a atual. Se na temporada passada o fruto custava entre R$ 0,80 e R$ 1, agora ele é vendido por R$ 1,50. Por causa da alta no preço, muita gente deixou de tomar água-de-coco, o que provocou a queda nas vendas, para desespero dos comerciantes. Eu ainda continuo no ramo porque não tenho outra coisa para fazer, lamenta Maria das Graças Santos da Silva, dona de uma banca de coco na Praia de Jatiúca há mais de 20 anos. Ela conta que essa é a pior crise pela qual já passou. Na semana passada eu fiquei sem coco para vender. Meu fornecedor passou mais de 15 dias sem aparecer. Não tem em lugar nenhum e, quando a gente encontra, o preço é muito alto, diz ela, ao afirmar que o milheiro do fruto está saindo por R$ 800. As pessoas chegam para comprar mas, quando vêem o preço, reclamam. Alguns nem compram. Vão embora, afirma Wilson Dias, 42, outro ambulante que vive da venda do coco. No verão passado ele vendia de 80 a 100 frutos por dia - hoje, não negocia mais que 30 por dia. Quando as pessoas reclamam, a gente procura explicar os motivos que fizeram com que o preço aumentasse, diz Genildo Henrique Ferreira, vendedor de água-de-coco na Pajuçara há dez anos. Para Tárcio da Silva, um dos fornecedores de coco verde para a região da orla, a situação é realmente complicada. Natural de Junqueiro, ele é um dos vários caminhoneiros do interior de Alagoas que buscam o produto em outros estados. Quando falou com a reportagem por telefone, ele estava em Petrolina (PE), um dos principais pólos produtores do Nordeste. Tá muito difícil. Em Alagoas, a gente não encontra e eu estou aqui comprando na roça ao preço de R$ 0,80. Nem sei se vai dar para repassar aí em Maceió por R$ 1. Ainda vou pensar. Pode ser que fique mais caro, avisa. Também gasto com combustível e isso influi no preço final, diz. ### Produtores estão à beira da falência A crise no abastecimento do coco verde no Estado preocupa os produtores alagoanos. Eles se dizem esquecidos pelos governos federal e estadual e impossibilitados de cuidar de suas plantações. Somos 5.500 produtores à beira da falência, afirma Eurico Uchôa, presidente da Associação dos Produtores de Coco do Estado de Alagoas (Prococo). Segundo ele, Alagoas não tem tradição no cultivo de coco anão, espécie cuja água é a mais indicada para o consumo e que nessa época do ano é altamente consumida em todo o País. Nossa produção é voltada para a cultura do coco gigante, que é um tipo usado na fabricação do leite de coco e do coco ralado, explica Eurico. Quase todo o cultivo em Alagoas é destinado a essa espécie, observa. De acordo com o presidente da Prococo, Alagoas possui atualmente 15 mil hectares destinados ao plantio do coco gigante, enquanto o cultivo do coco anão ocupa apenas três mil hectares - área insuficiente para abastecer o mercado alagoano. Ele diz que a queda na produção do coco este ano já alcança 60%, o que explica a escassez do produto no mercado e a conseqüente elevação de seu preço. Os motivos para a baixa produção estariam ligados à seca na Região Nordeste, ao alto consumo da água do fruto (provocado pelas elevadas temperaturas, especialmente nesta estação), e também à ação do ácaro, uma praga que estaria destruindo parte da produção do coco verde em Alagoas e nos estados vizinhos. Até que chegue a chuva, a situação tende a se agravar e é o próprio Eurico quem alerta: Vai faltar coco verde durante o carnaval. O presidente da Prococo aproveita para expor a situação dos produtores do fruto em Alagoas, que, segundo ele, nunca esteve tão ruim. Para você ter uma idéia de como as coisas são, enquanto nós temos em todo o Estado apenas esses 15 mil hectares de coco gigante e três mil de coco anão, só o município de Petrolina, em Pernambuco, possui 18 mil hectares, compara. Coqueiral abandonado Quem passa pelo Litoral e se deslumbra com a beleza e a imensidão dos coqueirais alagoanos não imagina a situação na qual se encontra a árvore eleita como símbolo de Maceió, aqui no Estado. Segundo Eurico Uchôa, toda a plantação de coco de Alagoas está abandonada. Os produtores não têm condições de adubar e nem de tratar o plantio. Nós não temos como contratar mão-de-obra para cuidar dos coqueiros, pois não podemos arcar com os encargos sociais, que são muito altos, explica. Além disso, nunca recebemos apoio do governo estadual, que está mais preocupado em acabar com a aftosa e parece não ter interesse na cultura do coco, reclama. Para Eurico Uchôa, a saída para os produtores de Alagoas é o uso do óleo de coco como combustível - ele pode ser adicionado ao óleo diesel, assim como tem ocorrido com a mamona. Essa seria a grande saída para os produtores de Alagoas. Dessa forma, a Petrobras poderia ser a principal compradora do nosso produto, sonha Eurico. Segundo ele, a atual produção de Alagoas é praticamente toda natural e ainda não recebeu os defensivos agrícolas usados no controle da praga, condição fundamental para que o produto possa ser utilizado. Nesse caso, a Petrobras teria de fazer alguns investimentos para a revitalização e adubação das plantações. Hoje, mais de 80% da produção alagoana vai para São Paulo. O restante é comercializado aqui no Estado. Os números mais recentes divulgados pelo Ministério da Agricultura são de 1999. Naquele período, Alagoas era o sexto maior produtor de coco no Brasil. Certamente, de lá para cá, já perdemos essa posição, afirma Uchôa. Há apenas dez dias no cargo, o diretor de extensão rural e desenvolvimento agrário da Secretaria de Agricultura, José Otávio Moreira, diz ainda estar tomando pé da situação, mas reconhece que o órgão, no momento, direciona suas ações para projetos de cultivo de outros produtos, como milho, feijão, algodão e mamona - a chamada agricultura familiar. Quando se trata de coco e cana, isso está relacionado aos grandes produtores, diz ele. José Otávio, no entanto, não descarta o apoio aos produtores de coco. É preciso sentar à mesa e conversar. Precisamos que os produtores nos procurem para podermos solucionar o problema. O secretário de Agricultura, Kléber Torres, é um homem sensível e atento a todos os problemas de sua pasta, afirmou Moreira. LM

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