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Cidades

Voluntários criam rede de solidariedade

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| CARLA SERQUEIRA Repórter Diante da miséria, muitos cidadãos cruzam os braços e lançam sobre ela apenas lamentações, ou quando muito, alguma prece. Outros, com ajuda de instituições ou não, vão além. Driblam a falta de recursos, engajam-se em movimentos populares e alimentam a esperança de famílias pobres pela tão falada inclusão social. Em seu barraco de papelão, no bairro de Jacarecica, Marluce dos Santos, a Nena, recebeu a equipe de reportagem pedindo desculpas pela humildade de seus móveis. Mãe de oito crianças, ela mora só com três. Deles, sinto saudades. Meu sonho é sair desta favela. Doente dos pulmões, não é sempre que consegue trabalhar no lixão. Meu nariz sangra. Não durmo, com dores de cabeça. Natural de Arapiraca, Nena mora na Vila Emater há oito anos. Grávida de gêmeos, uma das crianças nasceu morta depois da surra que levou do ex-marido. Metade dos filhos mora com parentes. Ainda convivem com ela o pequeno Vevéu, 3 anos, Bruna, 10, e Damiana, 7. Analfabeta, Nena diz que ninguém dá emprego. Duas pessoas a ajudam com freqüência. Mas só procuro quando estou desesperada. Ela explicou que sofre com a humilhação dos vizinhos. O povo espalha por aí que me prostituo para receber ajuda, e isso me machuca. Quando o assunto é o motivo de ela ter dado as crianças, é com lágrimas e uma história chocante que responde: Minha filha de 10 anos um dia me disse: ?mãe, quando eu crescer vou fumar maconha. Fiquei assustada. Perguntei por que ela dizia aquilo. ?Porque a gente não é feliz?, ela disse. Nunca esqueci. Aqui não é lugar de criança. Os homens fumam, e elas vêem. Outro dia, um cara entrou na minha casa com um revólver. Implorei para que saísse. Ele queria matar outro, que na noite passada feriu o amigo dele com facadas. Nena se consola quando lembra das conversas que faz questão de manter com os filhos distantes. Digo: ?A mãe não abandonou vocês porque quis. É melhor aqui do que comigo?. ### Ir à igreja todos os domingos é pouco Uma das filhas de Nena, a pequena Damiana, de 10 anos, divide o lar com a família de Jarbas Agostinho dos Santos. Ele é católico e funcionário público. Quando a igreja divulgou o documento 69, que convocava os fiéis a combater a fome em suas comunidades, ele iniciou um trabalho, junto com um grupo de 10 cursilhistas, na Vila Emater, distribuindo leite. Percebi que é muito pouco colocar uma roupa bonita, perfumar-se para estar na igreja todos os domingos, lá doar R$ 1 e achar que nossa parte foi feita. Todos os sábados, ele auxilia nas partidas de futebol entre os jovens da Vila Emater, quase todos catadores de lixo, uma das muitas ações praticadas pelo Movimento Cursilhista da Cristandade de Maceió (MCC) que já ajuda os moradores há 12 anos. A Damiana estava sempre próxima a mim. Certo dia pedi para a mãe dela levá-la para passear num fim de semana. Minha família criou um laço afetivo tão grande com ela que hoje estamos muito presentes em sua formação pessoal, contou ele, ao revelar uma preocupação: Não quero que ela perca o vínculo com a família. Se um dia ela se tornar uma médica, uma engenheira, quero que trabalhe pensando em ajudar a comunidade de onde ela veio. Quando Jarbas começou a cuidar de Damiana descobriu que uma pneumonia atingira os pulmões dela. Levei para umas amigas médicas, conseguimos curá-la, afirmou. Nena, a mãe de Damiana, contou que quando o ex-marido quis surrá-la grávida, a menina avançou para defendê-la e foi atingida com uma corrente nas costelas. Por isso é doente dos pulmões, acredita. O objetivo maior do MCC na Vila Emater é a evangelização. Ano passado, seis crianças, filhas do lixão, comungaram pela primeira vez. Nosso principal papel lá é fazer com que eles não percam a fé em Deus. Quando estamos conversando com os moradores é em nome de Deus que falamos, contou ele, anunciando outra preocupação: a retirada do lixão de Jacarecica para um aterro no Tabuleiro do Martins. Não sei o que será das 450 famílias que depedem do lixo. Com a mesma preocupação trabalha o Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu, uma organização não-governamental que está concluindo, com recursos do Unicef, a construção de uma creche na Vila Emater. Sílvia Lima, membro da ONG, explica que incentivar a organização dos catadores de material reciclável é o objetivo principal dos trabalhos na comunidade. São cerca de 950 pessoas que vivem na vila. Praticamente todo mundo cata lixo. A prefeitura assinou um termo de ajuste de conduta com o Ministério Público Federal se comprometendo em criar alternativas de renda para a população do lugar quando o lixão for para o aterro, mas as propostas não satisfizeram a eles. Queremos que os catadores sejam integrados ao processo de seleção de lixo desde o início, que participem do processo educativo e que recebam por isso. Queremos que se tornem atores sociais, disse Sílvia, ao revelar que os principais problemas da comunidade são a falta de atendimento médico, de saneamento e de abastecimento de água e energia. |CS ### Verdura e ovo de codorna geram renda no Tabuleiro No Conjunto Denisson Menezes, Tabuleiro do Martins, o verde natural chama a atenção em uma das ruas. Na porta do terreno, a placa: Horta Hidropônica. Entre a plantação, seis moradores sorriem quando se fala em renda própria e a ausência de um patrão. A nossa alegria é trabalhar para a gente mesmo, diz Antônio Aristides, 35 anos, 7 filhos. Ao lado da esposa, Quitéria dos Santos, 30, ele cultiva alface, couve, coentro, pimenta, tomate, rúcula, berinjela e pimentão. Nem sabia o que era rúcula, agora é nossa verdura preferida, comentou ela. Luciene Maria, 30, diz que as noções de higiene e de irrigação garantem o sucesso da produção. Sebastião, 35, esposo de Tânia, 36, diz que o objetivo da família é ter, em breve, a própria horta. O projeto nasceu na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), há cerca de 3 anos, e há dois meses foi transferido para o Conjunto Denisson Menezes. A produção já chegou a três mil pés por mês. Com o apoio do Funcred, da Prefeitura de Maceió, e do Instituto de Pesquisa do Nordeste (IPDN), a horta abastece supermercados da cidade e ainda os moradores da vizinhança. Todo mundo gosta porque é tudo fresquinho, sem produto químico, afirmou Maria Gorete, 52 anos, a pioneira da turma. Com um pouco de atenção, outra imagem incita a curiosidade nas ruas do conjunto. As placas com o dizer: vende-se ovo de codorna não são raras no lugar. Consegui comprar um fogão de seis bocas, novinho, com o apurado das vendas do ano passado, contou Ângela de Oliveira, 40 anos, que tem no quintal 40 codornas e espera a chegada de mais 60. A Ufal trabalha com o conjunto Denisson Menezes desde 1999, quando os moradores ainda residiam na cidade de lona, ao lado do Hospital Universitário. Queremos transformar o conjunto num Centro de Estágio para todas as áreas profissionais, revelou a assistente social da instituição, Lúcia Moreira. Ela disse que com o apoio do governo federal foi possível comprar as codornas e novos equipamentos para a horta. Em parceria com o Instituto Batista de Ensino Superior (Ibesa), 150 crianças praticam esportes depois da aula. A natação é o preferido. Além de ajudar no desenvolvimento físico, as crianças melhoram na escola, disse a professora de Educação Física, Aparecida Mendes.CS

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