Cidades
Depressão faz mulher rejeitar o filho
| REGINA CARVALHO Repórter Para muitas mulheres a chegada de um filho é motivo de alegria, mas isso não é unanimidade. Há quase três meses a desempregada Maria Isabel Ferreira toma antidepressivos por causa do nascimento de Isaac, que tem apenas 90 dias de vida. Tratada por mais de uma semana em uma clínica especializada nesse tipo de problema, Maria Isabel recebeu acompanhamento médico logo depois do parto. Hoje, ainda supera uma tristeza que ela não consegue identificar a origem, mas reconhece que quando soube que estava grávida começou a ter crises nervosas. Para os médicos ficou diagnosticado que a mãe de Isaac tem psicose puerperal. Uma doença reconhecidamente séria e grave, em que algumas mulheres rejeitam cuidados com os filhos, negligenciam o aleitamento e, o pior, podem se tornar uma situação de risco para o bebê. A psicose puerperal é mais freqüente entre mulheres que tiveram o primeiro filho e mais jovens. Especialistas apontam que ocorrem de um a dois casos a cada mil partos, disse o ginecologista, obstetra e diretor-médico da Maternidade Santa Mônica, José Carlos Silver. Com 30 anos de profissão, ele conta que a sugestão é tirar o bebê da mãe quando ela está com a psicose puerperal. É um risco psiquiátrico que pode vir da depressão, completou o médico. Tentativa de assassinato A tentativa de assassinato a uma menina de dois meses, que foi colocada dentro de um saco plástico e jogada na Lagoa da Pampulha em Belo Horizonte, emocionou todo o País e foi divulgada também no exterior. O fato de ter sido a mãe da criança, a promotora de vendas Simone Cassiano da Silva, 27 anos, a principal acusada de querer se livrar da filha, desencadeou reações de ódio em milhares de pessoas, mas também serviu para especialistas alertarem sobre problemas vinculados ao pós-parto. Não sei dizer se o caso dela está ligado a problemas do pós-parto porque ela premeditou a situação, afirmou José Carlos Silver. Outros especialistas questionam a atitude de Simone. Ninguém sabe como foi essa gravidez. A depressão tem várias facetas, afirmou a psicóloga Ana Gisa de Araújo Costa. Maria Isabel, que é evangélica, conta que sempre gostou de crianças e cuidava de sobrinhos antes de engravidar. Ela reclama da falta de apoio de alguns parentes. ### Família tem papel fundamental Quando casou, Maria Isabel não sabia que estava grávida de um mês. Abandonei meu emprego de balconista para tentar um melhor, diz a mãe de Isaac. Pronunciando ainda frases curtas e com olhar distante em decorrência da depressão, Maria não conseguiu amamentar o filho. Perguntada se já pensou em dar Isaac, ela confirma: Pensei, sim. Mas estou superando o trauma. Eu tinha uma vida normal antes da gravidez, nunca fui nervosa até engravidar, completa a desempregada. Quando Maria Isabel começou a apresentar sintomas de psicose puerperal, o esposo dela, o marceneiro Josué Ferreira explica que ligou para o médico que acompanhou a gestação e pediu ajuda. Ela continua triste ainda. Está ?voando? um pouco. Mas procuro dar apoio, afirma. Para a psicóloga Ana Gisa, uma situação como essa vivenciada por Maria Isabel poderia ser, pelo menos, amenizada caso houvesse um acompanhamento por especialistas. É fundamental o acompanhamento do obstetra ou pediatra nos primeiros três meses, depois do parto. E se houver agravante, deve-se levar o problema para um psicólogo, destaca Ana Gisa. Isso é o que se chama de humanizar, segundo ela. Outro fator agravante que pode desencadear na psicose puerperal é a depressão pós-parto, que ocorre normalmente em 10 mulheres a cada mil partos. A depressão ocorre em decorrência do próprio parto. Normalmente a paciente não apresenta o quadro depressivo antes. Já a psicose é hormonal. Uma doença psiquiátrica, relata o médico José Carlos Silver. Alguns indícios podem ser verificados na mulher que está com psicose e teve bebê recentemente. Ela muda seu comportamento ético, ficando agressiva, confirma. O ginecologista e obstetra relata que alguns autores afirmam que a psicose atinge com mais freqüência mulheres de baixa renda enquanto que a depressão pós-parto entre as que têm melhores condições econômicas. Ana Gisa diz que não dá para saber quando uma pessoa vai desenvolver a depressão, mas que o obstetra deve ficar atento a cada etapa de ansiedade durante a gestação. Outro fator que deve está atrelado à gestação é o apoio familiar. É fundamental prestar atenção no lado emocional da gestante. Para a mulher, esse é um momento único. O parceiro também tem papel importantíssimo, desde o início da gravidez, ressalta. |RC ### Doença independe de classe social Para a psicóloga Ana Gisa, não existe ligação direta entre problemas como psicose puerperal e depressão com a gravidez indesejada. Entretanto, segundo ela, a doença pode ser agravada se a chegada de um bebê não estava nos planos do casal. Diante da realidade, como um filho, a depressão pode se agravar, diz. Sobre a situação de Maria Isabel, Ana Gisa entende que ela deveria estar sendo assistida por um especialista, já que, segundo ela, o acompanhamento deve acontecer por vários meses após o parto. A psicóloga lembra ainda que a depressão pós-parto independente de idade ou classe social. Conheci o caso de uma mulher de boa classe social que não quis ver o filho no primeiro dia de vida dele, relata. De acordo com ela, a depressão pode se manifestar de várias formas. Algumas mulheres têm mania de limpeza, outras abandonam o marido ou o filho e outras ainda têm cuidados exacerbados com o bebê. Esses primeiros seis meses depois do parto devem receber um cuidado especial, acrescenta. Segundo a psicóloga da Maternidade-Escola Santa Mônica, Denise Viana, embora não existam pesquisas sobre a presença de depressão pós-parto ou psicose puerperal no hospital, ela conta que o mais comum de ser identificado é o blues puerperal, que numa escala de gravidade estaria na terceira colocação. A depressão pós-parto se instaura algumas semanas após, quando a paciente já está em casa. Mas percebemos o blues puerperal, que é quando a mãe fica triste. Essa é a mais freqüente que percebemos. A psicose é mais grave, afirma a psicóloga. Risco de infanticídio De acordo com ela, se a depressão ou mesmo a psicose não for tratada, é muito perigoso, principalmente para o bebê, já que a mãe negligencia os cuidados. Quando a mãe tem uma história de vida complicada ou não tem apoio, pode desenvolver a depressão pós-parto. Se não for tratada, há risco de infanticídio na psicose puerperal. É muito perigoso, lembrou Denise Viana. Sobre a promotora de vendas de Belo Horizonte que jogou a filha na lagoa, ela disse que esse é um caso que precisa de mais avaliação. As informações são muito contraditórias para poder afirmar se ela estava com depressão pós-parto, concluiu a psicóloga. |RC