Cidades
Caso Renildo: Grupo Gay lembra morte e cobra julgamento
| MARCOS RODRIGUES Repórter A luta para evitar impunidade no assassinato do vereador Renildo José dos Santos, ocorrido em 10 de março de 1993, no município de Coqueiro Seco, mobilizou, ontem à tarde, militantes do Grupo Gay de Alagoas (GGAL). O grupo foi até a 9ª Vara Criminal da capital, pedir por meio de ofício, informações sobre o processo que apura a morte. Depois desse tempo todo, até agora ninguém foi responsabilizado. É um crime que representa a marca da impunidade contra os homossexuais do Estado, diz o presidente do GGAL, José Carlos Merck. O documento foi protocolado na 9ª Vara onde o processo aguarda a convocação da seção do júri que irá condenar ou absolver os envolvidos como autores materiais e intelectuais. José Carlos lembra que já ocorreram duas tentativas de realização do julgamento, mas nos dois casos, por conta de recursos jurídicos, as audiências foram canceladas. Essa postura é apontada pelo presidente do GGAL como um fator que pode ter contribuído para outras ocorrências envolvendo homossexuais no Estado. É por isso que nós estamos aqui, no dia do aniversário de 13 anos de morte de Renildo, para denunciar essa impunidade que ainda paira sobre o caso. Preconceito A lentidão para que os culpados sejam processados e condenados também é interpretada pelos militantes gays como uma demonstração de duplo preconceito. O primeiro envolve a condição de homossexual assumido de Renildo, bem como sua condição social. Com certeza se ele pertencesse a uma das famílias com sobrenomes tradicionais a situação seria outra, desabafou José Carlos. O presidente do GGAL esteve no Fórum do Barro Duro acompanhado de diretores da entidade, simpatizantes da causa homossexual no Estado. A mobilização do grupo que portava cartazes e um banner com a foto de Renildo dos Santos chamou a atenção. Por onde passou, até chegar ao terceiro andar do prédio, o grupo era observado, hora com sinal de respeito, hora com preconceito. Na 9ª Vara Criminal, por exemplo, onde foi impetrada a solicitação de esclarecimentos acerca do processo que investiga o assassinato do vereador, a chegada do grupo causou espanto em uns e provocou risos em outros funcionários. Como não haviam agendado uma conversa com o juiz titular José Braga Neto, os militantes não conseguiram manter contato com o magistrado. Júri popular A Gazeta conversou com o juiz com exclusividade e obteve dele a confirmação de que o julgamento dos envolvidos ocorrerá nos dias 24 e 25 de abril deste ano. O detalhe sobre esse caso é que as partes entraram com recursos que, naturalmente, foram adiando a entrada do processo em pauta, justificou o juiz. Irão a julgamento José Renato de Oliveira e Silva, como autor intelectual, e os militares Antônio Virgílio dos Santos, Paulo Jorge de Lima, e o ex-militar Luiz Marcelo Falcão, como autores materiais. José Renato é filho de Tadeu Fragoso, proprietário de terras em Coqueiro Seco, e que, segundo a família de Renildo, não gostava das críticas feitas pelo vereador. A vítima nunca se intimidou e, por causa disso, sofria ameaças de morte. ### Vereador incomodava poderosos O vereador Renildo José dos Santos estava em seu primeiro mandato. Considerado um político popular, conseguiu eleger-se driblando o preconceito e a pressão econômica de famílias tradicionais de Coqueiro Seco. Por adotar postura independente, que não permitia a costura de acordos políticos, não demorou a contrariar interesses. Como tinha acesso aos meios de comunicação não deixava de denunciar perseguições e ameaças contra ele e seus aliados no município. CRUELDADE Na noite de 10 de março de 1993 as ameaças se tornaram realidade. Depois de denunciar na Rádio Gazeta, ao radialista Gonça Gonçalves, quem eram os interessados em sua morte ele retornou para a sua cidade. À noite, um grupo de homens armados invadiu a casa do vereador e o seqüestrou diante da mãe dele. Não adiantaram os apelos da família, nem do próprio vereador. O grupo deixou a casa informando que Renildo estava sendo preso. O corpo de Renildo foi encontrado 48h depois sem cabeça, que só foi recuperada em Pernambuco. No corpo, marcas de tortura e espancamento. A cena chocou a sociedade civil, que ocupou as praças de Coqueiro Seco, no dia da missa do 7º dia, para cobrar justiça, e mobilizou entidades de direitos humanos internacionais. Sua irmã, Marleide dos Santos, disse, ontem, que a cidade ainda se lembra chocada do caso. O que queremos é que ocorra o júri popular para isso acabar, disse.