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Canaviais deixam rios estressados

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Perdeu-se muito tempo. Os recursos hídricos em Alagoas nunca foram geridos de forma planejada. Hoje, não existe água suficiente para irrigar as plantações. Rios viram esgoto e, quase sempre, o mergulho termina em doença. Onde pratos e roupas são lavados, animais e vísceras também são limpos. Por aqui, o Dia Mundial da Água, 22 de março, quarta-feira, traz preocupações e nenhum motivo de alegria. Para se ter idéia do descaso, a Secretaria Executiva de Recursos Hídricos só foi criada há 3 anos. As pesquisas científicas são escassas, os investimentos em proteção praticamente nulos e o volume das águas sofre variações cada vez maiores. Estima-se que no planeta, 97% da água é salgada e só 3% é doce. Disponível para o homem existe menos de 1%. Confira nesta reportagem o que dizem a universidade, os empresários, o governo e a meteorologia sobre o problema. ### CARLA SERQUEIRA Repórter Professor do programa de mestrado em Recursos Hídricos da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Valmir Pedrosa faz um alerta: os rios alagoanos estão estressados. Todos são explorados há décadas, sem nenhum planejamento. Não há prioridade para o abastecimento humano, como diz a lei. A maior parte das águas é despejada em canaviais, disse ele, ao revelar que 60% da água doce do mundo é utilizada em irrigação. Quatro usinas estão instaladas no entorno do Rio Mundaú. Ele nasce em Garanhuns, Pernambuco, e se estende por 141 quilômetros até desaguar na lagoa de mesmo nome, em Maceió. Sua vazão recebe a contribuição de 13 rios e sua bacia abrange trinta municípios, sendo 15 em terras alagoanas. O Rio Mundaú é o mais saturado. Além de servir para irrigação, fornece água para as fábricas de açúcar e álcool, gera energia, ?doa? areia, é usado para o lazer e a pesca e ainda abastece praticamente todas as cidades por onde passa, afirmou Valmir Pedrosa, interrogando: Dá para entender por que o Mundaú é um rio estressado? A água usada nas plantações, não retorna para os rios. Alguns países já são obrigados a transformar a água do mar em água potável. É o caso do Irã e do Iraque. A Califórnia, nos Estados Unidos, também utiliza o método, contou ele, ao afirmar que este é o futuro do planeta. O grande problema é o custo. Enquanto a Companhia de Saneamento e Abastecimento d?Água de Alagoas (Casal) cobra em torno de um real por cada mil litros de água consumidos, nestes países, o mesmo volume não sai por menos de três ou quatro dólares, cerca de seis ou oito reais. Valmir Pedrosa explicou que o estresse dos rios aumentou nos últimos 30 anos. A população de Maceió, em 1970, girava em torno de 180 mil pessoas. Em 2000, o número subiu para 850 mil. Em três décadas, 700 mil pessoas a mais surgiram para fazer uso das mesmas fontes d?água, diz. Além disso, segundo explicações do professor Valmir, quando o governo federal lançou, em 1975, o Proálcool, durante a crise mundial do petróleo, as usinas passaram a irrigar cada vez mais a plantação. Enquanto a cana irrigada rende entre 100 e 105 toneladas por hectare, a produção que não recebeu água rende entre 68 e 75 toneladas. Só que hoje, no Rio Mundaú, por exemplo, não tem água para irrigar a plantação das quatro usinas que dele se servem. Começa o problema econômico. Alagoas é um dos maiores exportadores de açúcar e álcool do País e a concorrência com São Paulo fica cada vez mais acirrada. Lá, por hectare, já se produz em torno de 115 toneladas, revelou. A criação de camarão também preocupa os estudiosos. Já existem duas fazendas de camarão no Litoral Norte. O consumo de água é elevado. Produtos químicos são usados para combater a poluição da água, que depois é liberada no rio. A solução, na opinião do professor, está no fortalecimento da gestão integrada das águas. As usinas começaram a reutilizar a água. Em paralelo, é fundamental investir no reflorestamento na região das nascentes e das matas ciliares e, principalmente, resolver de vez o problema da falta de esgotamento sanitário A Companhia Energética de Alagoas (Ceal) realiza estudo para avaliar o potencial de geração de energia no Rio Mundaú. Estamos medindo as quedas d?água e a vazão do rio, disse o assessor de Meio Ambiente do órgão, Gustavo Carvalho. Qualquer empresa vai poder explorar, desde que esteja autorizada, disse ele, ao negar que as usinas seriam o público-alvo do estudo. ### Falta de água gera conflito em usinas, que buscam solução Sem água, os plantadores de cana-de-açúcar de Alagoas já prevêem reduções de 28% na produção deste ano, equivalente ao que ocorreu ano passado. As saídas para afastar os prejuízos têm sido, além da reutilização da água usada na lavagem da cana, economizar no consumo de energia e investir no estoque de água no inverno para irrigar os canaviais no verão. De acordo com o professor do recém-criado programa de mestrado em Recursos Hídricos da Ufal, Valmir Pedrosa, já existe uma espécie de conflito entre as empresas para o uso da água dos rios durante a irrigação. As usinas não brigam com armas, mas negociam entre si - longe do governo, para otimizar o uso das águas em seus canaviais. Segundo ele, a expansão da cana-de-açúcar estacionou, não por falta de terra ou dinheiro, mas sim, por falta de água. O coordenador-técnico do Sindicato dos Produtores de Açúcar e Álcool de Alagoas, Cariolando Guimarães, diz que a necessidade de água para irrigação é grande, mas ainda não chegou ao ponto de as usinas disputarem entre si a água disponível nos rios. Toda usina está se preocupando com isso. O setor quer se manter vivo. Não dá mais para investir no Nordeste. Irrigação é muito caro. Muitos empresários estão migrando para as regiões Sudeste e Sul. O clima é mais favorável e há maior incentivo do governo, diz, ao revelar que um mês sem chuva significa redução de 10% na produção. Outra idéia é construir barragens para estocar água no inverno, mas a autorização chega a demorar quatro anos para sair, reclama. CS ### Recuperação de bacias custa R$ 633 mi Acaba de ficar pronto um estudo detalhado sobre o complexo lagunar Mundaú-Manguaba. Encomendado pela Agência Nacional das Águas (ANA), o ensaio pontua ações imediatas, de curto e médio prazos para recuperar as bacias dos rios Mundaú e Paraíba do Meio, principais contribuintes das lagoas Mundaú e Manguaba, respectivamente. Os dois rios atravessam 34 municípios. Na bacia do Rio Mundaú, vivem cerca de 400 mil pessoas e na do Rio Paraíba do Meio, 206 mil. De acordo com o estudo, apenas 20% dos domicílios na capital estão conectados à rede geral coletora de esgoto. No interior do Estado, o índice é bem menor: apenas 1,5% das casas. As necessidades são muitas e vão desde o controle das cheias e da ocupação desordenada do solo, até chegar à geração de renda e à exploração do turismo. O valor orçado para realizar todas as ações previstas soma pouco mais de R$ 633 milhões. Para o secretário-executivo do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos e Naturais de Alagoas, Ronaldo Lopes, a conclusão do estudo já foi um grande avanço. Os rios alagoanos estão praticamente no limite, disse, ao afirmar que os mais degradados são o Coruripe, São Miguel e Piauí. Temos 52 bacias hidrográficas, divididas em 16 regiões. Cada região deverá ter um comitê gestor, de acordo com a Lei das Águas, implantada no Brasil em 1997, explicou Lopes. Até hoje, apenas quatro comitês foram instituídos: das bacias do rio Coruripe, São Miguel - este na quinta-feira passada - Piauí e Pratagy. Um comitê demanda 10 meses para ser formado, diz o secretário. É um processo lento porque é participativo. São necessárias reuniões com a comunidade e a realização de audiências públicas, o que torna a população co-responsável pelos recursos hídricos de suas cidades. Sobre o conflito de usinas para utilizar a água dos rios na irrigação da cana, o secretário revela: sim, já há alguns conflitos. Ronaldo Lopes diz que a água é um bem público, com valor econômico. É lógico que há disputa pelas águas, frisa. A função dos comitês é evitar que ocorram os conflitos. Não podemos deixar que uma empresa utilize toda a água e prejudique o todo. Para usar a água dos rios, é preciso ter autorização. Se o rio corta mais de um Estado - caso do Rio Mundaú, a outorga é dada pela ANA. Se nasce em Alagoas, quem autoriza o uso é o governo local. Três instrumentos auxiliam no controle do uso da água doce disponível em Alagoas: plano diretor da bacia - das 16 regiões hidrográficas, 13 já possuem o estudo - a outorga e o traçado de metas. Um quarto, que o secretário considera polêmico, já é utilizado em São Paulo. É a cobrança pelo uso da água. É preciso muita discussão. O dinheiro arrecadado, seria utilizado em projetos de manutenção da bacia. Sobre a construção de barragens para irrigação da cana, o secretário se mostra cauteloso. É uma saída, mas tem de ter cuidado. Barragens, geralmente, trazem impactos para a natureza, uma área teria de ser alagada, e a fauna e a flora poderiam ser prejudicadas, pondera. CS ### No verão, rio vira campo de futebol: Fica seco, seco A ameaça do tão falado aquecimento global, que pode elevar em até 5,5 graus a temperatura ambiente, segundo o professor do departamento de Meteorologia da Ufal, Luís Carlos Molion, não significaria uma diminuição na vazão dos rios, mas grandes variações no volume de água. Como a vegetação que protege o leito dos rios foi quase toda devastada em Alagoas, a infiltração de água ficou comprometida, e, nos meses mais quentes do ano, a quantidade de água acumulada no lençol freático não é suficiente para manter o volume normal do rio. Por isso, ocorrem as secas. Em União dos Palmares, Benedito Brás Santos, 33 anos, diz que há oito anos, durante o verão, o rio vira campo de futebol. Fica seco, seco. Uma beleza para jogar uma ?pelada?, disse. Quando chove muito, o risco é de enchentes severas, como explica o meteorologista. Como não existe mais mata ciliar, grande parte da água escorre pelo canal, não infiltra no solo. E se a maré estiver alta, acontecem as inundações, revelou Molion, ao afirmar que a água retirada dos rios para irrigar plantações evapora ou é consumida pela vegetação. A água que evapora aqui, no entanto, só vai virar chuva na Amazônia, detalha. Molion conclui afirmando que se o aquecimento da Terra acontecer, haverá anos com enchentes e outros com secas prolongadas. Algo semelhante ao que vem ocorrendo há 30 anos, segundo ele. De 1975 até hoje, houve acréscimo na temperatura de 0,32º. Com isso, nos anos de 1983, 1987, 1993, 1997 e 1998 foram registradas, em Alagoas, grandes secas. Já nos anos de 1975, 1984, 1985, 1988, 1989 e 1996, foram as fortes chuvas que assustaram. Para se ter idéia da disparidade, a vazão do Rio Mundaú, em 1983, ano de seca, foi de apenas 24 mil litros por segundo; em 1989, ano de chuva, a vazão chegou a 299 mil litros. O desmatamento, a poluição e a variação de temperatura resultam num fenômeno chamado assoreamento. As encostas, sem vegetação, tendem a cair no leito com a chuva. Com as enchentes, os sedimentos acabam entupindo alguns pontos do rio. Nasce, então, uma atividade bem comum: a dragagem de areia. No município de Satuba, próximo ao final do curso do Rio Mundaú, está concentrada a maior quantidade de dragas. Milton Lima, 74 anos, trabalha há mais de 20 no ramo e afirma: Em Satuba não tem mais areia, só argila. Por dia, cada máquina tira em torno de 10 a 15 caminhões de areia, que é comercializada já na beira do rio. Em pouco tempo, o preço da areia vai aumentar e muito. Os dragueiros têm que ir agora até União dos Palmares. É longe e encarece a mercadoria. No Recife, a areia já é três vezes mais cara do que aqui, revela. Segundo o secretário-executivo de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Ronaldo Lopes, a dragagem não causa tanto impacto ambiental e, em muitos casos, é até benéfica. Ela ajuda a desassorear os rios, afirma. O professor do programa de mestrado em Recursos Hídricos da Ufal, Valmir Pedrosa, concorda com o secretário, mas faz uma ressalva: Se há muitas dragas em um ponto, a água fica turva e a qualidade dela é prejudicada. |CS

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