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Produtores cobram ação contra sem-terra

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| MARCOS RODRIGUES Repórter O clima de tensão envolvendo fazendeiros e movimentos agrários trouxe mais uma vez ao Estado o ouvidor agrário nacional, Gercino Silva. Em vez de ouvir somente reclamações de sem-terra o ouvidor se reuniu ontem com produtores, que fizeram inúmeras denúncias relacionadas ao processo de reforma agrária em Alagoas. O produtor de cana e criador de gado Flávio Magalhães denunciou que pessoas ligadas ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária em Alagoas (Incra) teriam exigido dinheiro para que sem-terra não invadissem propriedades de um colega dele. Segundo Magalhães, o produtor teria sido procurado por uma pessoa se dizendo funcionária do Incra, cobrando R$ 18 mil. Hoje essa pessoa pode até recuar nas informações. Mas foi isso que eu ouvi e, coincidentemente, a propriedade dessa pessoa não foi invadida, afirmou o fazendeiro, sem revelar a identidade da vítima de extorsão. A ouvidora regional Katiúcia Mendes confirmou ter ouvido informações semelhantes, mas acrescentou que nenhuma foi oficializada no órgão. O produtor Rosalvo Silva Magalhães denunciou irregularidades no assentamento São Flutuoso, localizado no município de São Luiz do Quitunde, envolvendo compra de lotes. Lá tem assentado que já comprou quatro a cinco títulos de posse de terra de pessoas que não quiseram produzir e colocaram em nome de parentes. Resistência Durante a reunião com o ouvidor agrário nacional, na sede da Asplana, em Jaraguá, os produtores presentes não esconderam que têm se organizado para evitar ocupações. A estratégia, segundo eles, consiste em acompanhar a movimentação dos sem-terra. Se eles partirem para a propriedade um sai em socorro ao outro, porque se eles entrarem é mais difícil resolver, revelou um produtor da cidade de Murici. Mediação Mesmo reconhecendo haver tensão com risco de confronto na zona da mata e no litoral alagoanos, o presidente da Associação dos Plantadores de Cana, Fernando Rossiter, disse que o objetivo dos produtores é descobrir meios que levem à paz. Nós queremos saber como avançar nessa discussão. Essa é a primeira vez que sentamos com o ouvidor. O que é importante que se diga é que não queremos o confronto. Mas queremos que o governo federal cumpra suas promessas, disse Rossiter. ### Tensão em Atalaia é tema de reunião A reunião com os produtores aconteceu no período da tarde na sede da Associação dos Plantadores de Cana (Asplana). Um dos convidados, o tenente-coronel Adilson Bispo, do Centro de Gerenciamento de Crises da Polícia Militar, foi cobrado pelos produtores. A maior dúvida dos produtores era quanto à orientação dada aos policiais nos momentos de ocupação a fazendas ou ainda saques a mercadorias nas rodovias. Na opinião dos produtores, existe uma complacência dos militares às ações dos sem-terra e um descontrole do Incra em relação aos integrantes dos movimentos. O ponto de vista dos produtores foi reforçado com a exibição de um vídeo com reportagens mostrando famílias de sem-terra saqueando livremente um caminhão sem que a Polícia Militar impedisse a ação. O papel da polícia é tentar evitar o confronto gereneralizado nas situações de tensão. Não tomamos partido durante as negociações. No caso do saque, o efetivo presente não pôde conter a ação, admitiu Adilson Bispo. Como resultado das ações de mediação realizadas pelo centro de gerenciamento, ele revelou que foram cumpridas 700 reintegrações de posse sem a ocorrência de atos violentos. O nosso limite de atuação é a lei. Depois que uma ocupação é registrada, por exemplo, nós não podemos agir até que ocorra uma decisão judicial, esclareceu o militar. Com relação à tensão denunciada em Atalaia, Bispo lembrou aos produtores de cana que tem negociado com sem-terra daquela região a fim de diminuir o clima de tensão. A ação, segundo Bispo, pode reduzir a zero a violência na região. Ontem pela manhã, os dois se reuniram com o juiz de Atalaia, Geraldo Amorim Vasconcelos. O magistrado confirmou que vai determinar diligências para evitar a presença de armas nos acampamentos. Em Atalaia, no ano passado, foi morto o sem-terra Jaelson Melquíades dos Santos. Sua morte é atribuída a pistoleiros da região. Ontem o ouvidor agrário Gercino Silva quis saber detalhes das investigações. Recebeu do delegado da cidade a informação de que duas pessoas já foram indiciadas. |MR ### Vivo sem poder ir no que é meu O pronunciamento do ouvidor agrário nacional Gercino Silva foi de defesa das ações contra a violência que tem sido registrada em Alagoas. Ele respondeu às críticas dos produtores de que o setor só atua em demandas dos trabalhadores. Nós somos mais provocados pelos movimentos sociais. São poucas as denúncias dos produtores. Nossa atuação é no sentido de garantir soluções. Somos contra as ocupações de terras produtivas, garantiu o ouvidor, provocando os produtores a oficializarem suas denúncias. A reunião de ontem do ouvidor com os produtores fecha o ciclo do conflito no Estado. Primeiro ele se reuniu com os movimentos, depois com o Poder Judiciário e agora com os produtores. Ontem, durante a reunião, Gercino Silva tratou de casos considerados insolúveis pelos produtores. Um deles envolve a Fazenda Lucena I, II e III, no município de Porto de Pedras. Segundo o proprietário Flávio Magalhães, militantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) estão na área há dois anos. Eles me expulsaram da fazenda com minha família. Se eu retornar vai ter morte. Hoje sou uma pessoa que não tenho mais saúde e vivo sem poder ir no que é meu, desabafou o produtor. Ele alegou amargar um prejuízo de R$ 200 mil provocado por sem-terra que teriam matado cinco bois reprodutores, que gerariam 150 bezerros, e destruído parte do pasto. Isso provocou o emagrecimento das 182 cabeças de gado, disse. Além disso, tocaram fogo na plantação de cana que daria cerca de 17 toneladas. A casa da fazenda está destruída. Quem paga isso?, indagou o fazendeiro ao ouvidor, que optou por se reunir individualmente com o fazendeiro. Ele disse que está sendo pressionado para vender a terra, porém, o Incra só paga R$ 4.800 por hectare, numa área que vale R$ 7.500.

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