Cidades
Produtores de leite travam guerra em AL
CARLA SERQUEIRA Repórter Batalha - Os galhos secos estalam no calor do meio-dia. Em longos períodos de estiagem, até a palma murcha no Sertão. Não tem quem consiga sobreviver apenas da agricultura. No chão batido e empoeirado, é a pecuária que alimenta milhares de famílias há décadas. É o leite da vaca que ainda sustenta a economia local. E, por causa dele, poderosos da chamada bacia leiteira alagoana travaram uma guerra judicial este mês. A disputa foi declarada no último dia 14 de março. Na sede da maior cooperativa do Nordeste, a Cooperativa Agropecuária de Major Izidoro (antiga Camil, hoje, Camila), no município chamado de Batalha - por mera coincidência - a 176 quilômetros de Maceió, as duas chapas candidatas à diretoria da empresa só concordaram em uma coisa: a Justiça decidirá quem é seu legítimo presidente. O fato é curioso. Instalada no sertão de Alagoas desde 1964, a Camila possui 1.284 associados, entre pequenos, médios e grandes agropecuaristas de 26 municípios. Sua capacidade é de processar 200 mil litros de leite, mas só opera com 90 mil atualmente. Poderia fabricar queijo, iogurte, leite pasteurizado, qualhadas, entre outros alimentos, mas só produz manteiga e leite em pó. De seu contingente de sócios, apenas 20 fornecem matéria-prima a sua indústria, diretamente. Presidente da entidade desde 1978, Luiz Dantas, três vezes deputado federal, nem cogita perder a liderança da cooperativa no próximo triênio. Do outro lado, Avânio Feitosa, três vezes prefeito de Belo Monte, diz querer pôr fim à dinastia do leite em Alagoas e faz graves denúncias contra seu adversário. Na véspera de carnaval, sexta-feira, 24 de fevereiro, foi publicado o edital, convocando todos os associados da cooperativa para votar. O pleito ficou agendado para 9 horas, na sede da Camila. De acordo com o edital da eleição, às 9 horas, na primeira chamada, deveriam estar presentes 2/3 dos associados. Às 10 horas, o pleito deveria somar 50% mais um sócio. Mas se às 11 horas não houvesse o quórum esperado, a eleição poderia transcorrer com apenas dez associados, exatamente o número de componentes de uma chapa. Tanto a chapa encabeçada por Luiz Dantas quanto a comandada por Avânio Feitosa diz ter estado no dia, hora e local registrados no edital para participarda eleição. O que impressiona é que ambas não se encontraram. Avânio diz que o pleito que elegeu Dantas foi forjado. Luiz Dantas, por sua vez, diz que a eleição que tornou Avânio presidente da Camila não tem valia. Os dois se peitaram, no final da tarde, horas depois das eleições, ambos já se considerando presidentes. O momento foi tenso. Nele ficou acertado levar o caso à Justiça. A decisão está nas mãos do juiz Ricardo Jorge Cavalcante Lima, substituto na comarca de Major Izidoro. Recebi o pedido de liminar da chapa do Avânio. Estou aguardando a defesa da outra parte. Na próxima semana, analisarei as provas. Depois decido quem será o presidente. ### Candidatos se defendem com denúncias Belo Monte - As acusações entre os dois canditados a presidente da Cooperativa Agropecuária de Major Izidoro (Camila) são fartas. A Gazeta conversou com ambos para tentar entender o que aconteceu na manhã do dia 14 de março, em Batalha. Na sua fazenda, Avânio Feitosa recebeu a reportagem. Suas terras ficam na cidade ribeirinha de Belo Monte, distante cerca de 10 quilômetros do centro de Batalha. Lá, ele mostrou documentos e fez graves denúncias contra o seu adversário, Luiz Dantas. A prática de eleições fictícias é antiga na Camila, começou dizendo. Este ano, eles acharam que ninguém iria saber das eleições. Não foi à toa que publicaram o edital numa sexta-feira de carnaval. Mas nosso grupo contratou, por R$ 75 mensais, uma empresa para acompanhar as publicações referentes à Camila no Diário Oficial do Estado. Informados da convocação para as eleições, começamos a nos preparar. Avânio Feitosa é um dos 20 associados que fornecem leite para a Camila diretamente. Questionado sobre o interesse de presidir, este ano, a empresa, ele falou sobre a crise atual do setor e negou que sairá candidato nas eleições de outubro. Com a compressão do dólar, perdemos mercado este ano. Vieram a febre aftosa e as barreiras sanitárias de Pernambuco, Estado que mais consome a nossa produção. Sem falar na desorganização dos produtores de leite de Alagoas. Somos mais desorganizados do que os sem-terra, avaliou. Avânio se disse interessado em buscar alternativas para o setor e acusa Luiz Dantas, último presidente da Camila, de intensificar a crise na bacia leiteira alagoana. Tenho informações de que a ata que elegeu Luiz Dantas estava pronta dois dias antes da eleição, tanto é que, no dia do pleito, os funcionários da Camila nem sabiam que um novo presidente seria escolhido, diz. Foi em Maceió, na sala da presidência da Camila, no Trapiche da Barra, que Luiz Dantas apresentou sua defesa. Não forjei nada. Fizemos a eleição de acordo com o edital. O que ocorreu é que eles fizeram uma eleição numa sala e nós, em outra, no mesmo prédio, afirmou ele que pensa em se lançar candidato a deputado estadual. Achamos por bem deixar que a Justiça diga quem tem razão, explica, ao dizer que o pleito que o reelegeu é o mais legítimo. Os associados aptos a votar devem ser ativos na economia da empresa. Muitos que votaram em Avânio são, inclusive, fornecedores de empresas concorrentes da nossa. Luiz Dantas disse, ainda, que, seguindo as normas do estatuto, a eleição não poderia ocorrer na ausência do presidente. Eles fizeram uma eleição sem eu estar presente e o estatuto condena isso, afirmou. Avânio Feitosa, por sua vez, explicou que o mesmo estatuto diz que, se o presidente da Camila faltar ao pleito, um secretário poderá ser escolhido na hora e presidir a eleição. No dia 14, fizemos três chamadas e nenhum dos componentes da chapa adversária se fez presente. Ainda segundo Avânio, às 17 horas, sua chapa, já se considerando eleita, se encontrava reunida numa das salas da cooperativa. Nesta hora chegou Luiz Dantas, o filho dele [Paulo Dantas, prefeito de Batalha] e mais uns 100 funcionários da prefeitura para nos tirar à força do prédio. Acho que se não estivéssemos com as nossas esposas a coisa ia ser feia. Luiz Dantas negou a invasão truculenta. Fomos lá apenas para convencer o Avânio de resolvermos a questão na Justiça, só isso. |CS ### Briga não atinge pequenos produtores Belo Monte - Enquanto a Justiça não se pronuncia sobre quem vai presidir, nos próximos três anos, a Cooperativa Agropecuária de Major Izidoro (Camila), a entidade continua sob o comando do último presidente, Luiz Dantas. Para seu adversário, Avânio Feitosa, sua permanência na empresa é ilegal. Ele pode até manipular documentos a seu favor, diz. Até que Avânio prove que eu não sou o legítimo presidente da Camila, continuarei o meu trabalho, rebateu Luiz Dantas. Por sua vez, Avânio diz que vai provar a legitimidade do processo que o elegeu presidente da Camila. Nem que para isso seja necessário o trabalho do Instituto de Criminalística, frisou. De acordo com o juiz do caso, Ricardo Jorge Cavalcante Lima, não se pode deixar a empresa fechada. O prejuízo seria bem maior, observa, ao revelar que não tem como impedir que Luiz Dantas continue presidente da Camila. Até que fique comprovado quem de direito será empossado, ele ainda é o presidente da Camila, explica, sem prever quando terá a decisão. Tenho que avaliar as provas que vieram com as contestações das partes. Isso pode levar alguns dias, não tenho como prever, diz o juiz Ricardo Jorge. Rotina inabalada Distante da disputa entre Avânio Feitosa e Luiz Dantas, os pequenos produtores de leite do Sertão alagoano não sofreram nenhum tipo de influência em suas rotinas. Todos os dias Joaquim Amorim da Silva, 70 anos, tira de suas vacas, na cidade de Belo Monte, cerca de 150 litros de leite. Ele, apesar de ser associado, diz que não foi convidado para participar da eleição da Camila. A gente não participa de nada, não. Esse é o problema. Não temos como discutir o preço do leite. A gente tem que vender pelo preço que eles querem comprar, reclama. Luciano Cavalcante é outro produtor de leite em Belo Monte e também em Craíbas. O preço do leite só vem baixando na região. Há dois anos eu vendia por R$ 0,55, o litro. Hoje não consigo mais de R$ 0,45, diz ele, afirmando que a produção de leite em Alagoas caiu muito nos últimos anos. Há seis anos, saíam daqui seis caminhões carregados de leite, isso de três, quatro propriedades. Hoje, se juntar as mesmas, não enche uma caminhonete, compara, ao revelar que já participou de greve para negociar preço com a direção da Camila, mas de nada adiantou. Diariamente, José Machado, 56 anos, ordenha cerca de 10 vacas. Ele tira uma média de 100 litros de leite todos os dias na cidade de Major Izidoro. Muita gente desistiu de criar vaca. Os fazendeiros querem agora gado para vender a carne. Quem pode, ainda negocia leite na Camila, quem não pode, tem que vender os bichos para comer. A bacia leiteira de Alagoas já foi a maior do Nordeste e esteve entre as primeiras do Brasil. Hoje, sua produção perde para boa parte dos estados nordestinos, como Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte. CS ### Atravessador fica com 60% da produção Major Izidoro - Criada para promover o desenvolvimento sustentável dos pequenos produtores de leite, a Cooperativa Agropecuária de Major Izidoro (Camila) não beneficia seu público-alvo e divide com terceiros parte dos lucros da empresa. De acordo com o Sindicato dos Produtores de Leite de Alagoas, os chamados atravessadores negociam 60% da produção, diminuindo a margem de lucro dos pequenos criadores de gado. Este é um dos maiores problemas do setor. 60% ou mais da produção de leite acaba indo para as mãos dos atravessadores, diz o presidente do sindicato, André Ramalho. Isso ocorre porque, segundo ele, grande parte dos pequenos produtores não possuem os tanques de resfriamento. No entanto, a Camila, que aglomera 1.284 associados, tem instalados no Sertão cinco tanques. Segundo o então presidente da cooperativa, Luiz Dantas, dos cinco, quatro estão paralisados, nas cidades de Palmeira dos Índios, Santana do Ipanema, Pão de Açúcar e Batalha. Os custos são altos para manter os tanques funcionando, justificou. A Gazeta localizou o quinto tanque em Major Izidoro. A estrutura, que deveria ser utilizada pelos associados gratuitamente, foi terceirizada. Aqui o negócio é particular, o prédio é que é da Camila, disse um dos funcionários de Daniel Cavalcante, um dos atravessadores que vende leite para a cooperativa. Sergundo o seu funcionário, Daniel não estava na empresa, teria viajado. André Ramalho critica também a política de preços praticada pela Camila. Por ser uma cooperativa, deveria buscar pagar mais aos associados, mas o que a gente percebe é que se uma indústria privada, como a Parmalat ou a Valedourado, baixa o preço de compra, a Camila faz o mesmo, diz ele. CS ### Entidades cobram profunda mudança em cooperativa As entidades que representam a bacia leiteira de Alagoas clamaram, publicamente, na última semana, por profundas mudanças na Camila. Endereçada à sociedade, a Associação dos Produtores de Leite de Major Izidoro, o Sindicato e a Cooperativa dos Produtores de Leite de Alagoas, assim como a Cooperativa dos Produtores de Leite do Sertão de Alagoas e Cooperativa de Colonização Agropecuária e Industrial Pindorama, assinaram juntas uma nota publicada no último domingo pela imprensa. Nela, nomes não são citados, mas é lembrado o sentido do cooperativismo: No cumprimento de seu papel, a Camila foi muito estratégica até que o seu destino passou a ser monopolizado por interesses estritamente individuais em detrimento do coletivo, perdendo o seu sentido cooperativista por quase duas décadas, um absurdo inaceitável pela comunidade que vive no território produtivo da bacia leiteira. Para o presidente do Sindicato dos Produtores de Leite de Alagoas, André Ramalho, falta parceria entre os industriais e os produtores, principalmente com os pequenos. É preciso unir indústria e produtores. Todos têm dificuldades e a solução poderia ser encontrada em conjunto, defende, ao revelar a existência de um aparente cartel no comércio de leite puro em Alagoas. O que acontece ?parece? um cartel. A política de preços não é debatida com os produtores, é ditado quanto se deve pagar, afirma, ao revelar que o preço básico do litro de leite pago aos produtores é R$ 0,35, e o preço máximo, R$ 0,48. No entanto, a Camila, de acordo com o próprio Luiz Dantas, até então presidente da cooperativa, diz que paga R$ 0,49 aos seus fornecedores. Ao ser questionado sobre o nome de sua preferência para presidir a Camila, André Ramalho se mostrou cauteloso: Não posso tomar partido nesta disputa. Prefiro esperar a decisão da Justiça, limitou-se. A mesma postura demonstrou a Organização das Cooperativas do Brasil em Alagoas. Não podemos nos meter em disputas internas. Nosso papel é orientar cooperados sobre seus direitos e deveres quando formos requisitados, explicou Marcos Braga, presidente da entidade. De acordo com o Sindicato dos Produtores de Leite de Alagoas, que representa em torno de 200 pecuaristas, o Estado produz 600 mil litros de leite por dia. Metade desta produção vai para as grandes indústrias, como Camila, Valedourado, Parmalat, Leite Batalha, diz André Ramalho. A outra metade vai para o que chamamos de fabriquetas de queijo, explicou ele, ao reconhecer a importância da Camila para a bacia leiteira de Alagoas. Apesar de vermos com apreensão a situação atual da Camila, que produz muito menos do que é capaz, sabemos que ela possui um diferencial: é a única indústria alagoana que produz leite em pó no Estado e atende a outros mercados, como as fábricas de sorvete, observa. |CS