Cidades
A inf�ncia violada
MARCELO BARROS * Em todos os continentes, crianças continuam sofrendo todo tipo de desrespeito, violência e crueldade. Defender a dignidade das crianças é compromisso ético de todos os homens e mulheres sensíveis à justiça, em especial, dos que crêem em um Deus que se revela no rosto inocente dos menores. A ONU aprovou a Convenção Internacional dos Direitos da Criança em 1989. O acordo foi assinado por todos os países, com exceção de dois: a Somália e os Estados Unidos. Os países signatários comprometeram-se a combater o trabalho infantil, a utilização de crianças em guerras e a violência sexual contra menores. No mundo, um bilhão e meio de pobres tem menos de 18 anos. A cada ano, morrem 15 milhões de crianças menores de cinco anos. Dez milhões vivem como ?meninos de rua?. 150 milhões sofrem de má nutrição e não têm acesso à escola. Não há dados sobre quantas crianças são vítimas de violência sexual. Nos últimos anos, a sociedade tem despertado para a tragédia da pedofilia. As denúncias se multiplicam, revelando uma situação que não é nova, mas da qual, antes, não se falava publicamente. A polícia tem desbaratado redes de pedófilos que, pela Internet, oferecem, como objeto sexual, crianças com idade a partir de três anos. Em vários países, professores, responsáveis por orfanatos e, infelizmente, até ministros religiosos têm sido denunciados e condenados por abusos sexuais contra menores. Na França, um bispo responde inquérito criminal por não ter denunciado um padre pedófilo. Na Inglaterra, França e Estados Unidos, criam-se comissões de alto nível para ajudar a hierarquia católica a acompanhar os casos e impedir que surjam novas vítimas. Os psicólogos dizem que a violência sexual é mais traumática para a criança quando o agressor é o padrasto e, pior ainda, o próprio pai. Na França e na Bélgica, 85% das agressões acontecem na própria intimidade da família. Destas, o pai é responsável por 44% dos casos e o padrasto, por 16% . Outro lado da tragédia é o turismo sexual, que envolve menores indiscriminadamente e os explora preferencialmente. Conforme pesquisa da Unesco, no mundo atual, há mais de três milhões de crianças sendo prostituídas. A Associação Internacional contra a Prostituição Infantil (ACPE) denuncia que a maior parte dessas crianças vive em países pobres. O primeiro lugar em prostituição infantil cabe à Tailândia e o segundo às Filipinas. Entretanto, o número cresce assustadoramente em Cuba, na República Dominicana, no Vietnan e no Brasil. (Actualité des Réligions, n. 30/septembre 2001) Aqui no Brasil, os governos federal e estaduais têm se mostrado discretamente coniventes com o turismo sexual, praticado à luz do sol, em Fortaleza, Recife e em outras cidades. Diante deste fato, normalmente há, no mínimo, três atitudes públicas: a mais comum é a farisaica postura de autoridades e cidadãos que se pronunciam contra, mas são complacentes ou fingem que não vêem. Outra posição é a dos que são contra e nada podem fazer a não ser denunciar, o que já é importante. Apareceu uma terceira posição: a do deputado Fernando Gabeira que deseja, ao invés de proibir, organizar melhor o turismo sexual (Folha de São Paulo, 3/9/2001). Ele adverte ser favorável à lei que proíbe a exploração de menores, mas aceita como necessária para o desenvolvimento do Nordeste a exploração da mulher pobre e sem defesa. Além disso, não esclarece como se evitaria que meninas de menor idade fossem, também, exploradas. Dá a impressão de alguém que acha ser ?mais realista? aceitar a escravidão do que combatê-la. Por isso, o deputado propõe apenas controlar e disciplinar melhor o tráfico e o trabalho de escravos. Personalidades políticas estão reagindo com vigor e clareza contra a posição indefensável do deputado. É claro que não basta ser contra a prostituição das mulheres pobres, vítimas da injustiça do mundo. É fundamental atacar as raízes da injustiça, transformando a sociedade e dando condições de vida digna a todos os brasileiros. A tradição espiritual judaico-cristã propõe que se coloque a criança no centro da vida social. Basta abrir a Bíblia para se descobrir como, para as comunidades judaicas e cristãs, a criança é revelação do rosto de Deus-Amor. A figura central do judaísmo é Moisés, criança salva das águas e adotada pelo faraó do Egito. Outra figura central é Davi, adolescente, último filho de um pastor de ovelhas, escolhido para ser rei. Da sua descendência, nasceu Jesus que, em sua pessoa, revela a opção de Deus de se mostrar pequeno e junto com os pequeninos. Ele fez, de cada criança, sinal do Reino de Deus e disse ao seu grupo de discípulos e discípulas: ?Quem acolhe a uma criança em meu nome, é a mim que acolhe?. (Lc 9,37). (*) É monge beneditino, e autor de 24 livros, dos quais o mais recente é o romance ?A Festa do Pastor?