Cidades
Moradores do Mutange vivem clima de angústia e insegurança
Iminente evacuação do bairro deixa donos de imóveis preocupados com futuras condições de moradia
Um dia após a Braskem reconhecer sua responsabilidade nos danos estruturais em cerca de 400 casas e estabelecimentos comerciais localizados na região de poços de sal-gema — recentemente desativados pela empresa — no bairro do Mutange, a sensação entre os moradores é de angústia e de incredibilidade com relação ao comprometimento da empresa com o “mais breve possível” pagamento do aluguel social.
O histórico bairro de Maceió deve ser evacuado de imediato e jamais poderá ser habitado, é o que apontam os estudos do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), comprovados pela análise mais recente encomendada pela Braskem, que apresentou às informações à comissão de defensores e procuradores da Justiça alagoana na última terça-feira.
No lugar das mais de 400 moradias ocupadas por aproximadamente 1.500 pessoas, a expectativa é de que haja reflorestamento ou a instalação de algum equipamento público, a exemplo de uma praça. Atualmente, é possível presenciar as placas de “aluga-se” e “vende-se” nos imóveis que, certamente, não voltarão a ser ocupados. Além disso, chamam atenção as marcações feitas em vermelho nas frentes das casas que indicam às construções atingidas.
No entanto, muitas famílias insistem em permanecer na região afetada pela exploração de recurso natural no Mutange, muitas delas por amor ao bairro e outras por não ter condições financeiras de sair dali.
Amedrontados, sem querer ser identificados por receio de haver retaliação, os moradores pouco falam sobre a situação do bairro, mas, nas breves palavras, é possível perceber o carinho e o sentimento de pertencimento que muitos carregam. “Moro aqui desde que nasci. Tenho 68 anos de morada nesta mesma casa e eu queria terminar a minha vida aqui”, citou um morador com a voz embargada.
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Já Maria José, que fez questão de ser identificada, criticou a exploração na região e culpou a situação pelo adoecimento psíquico de diversos moradores do Mutange, bem como dos demais bairros atingidos. “Adoecemos com isto, Tem tanta gente tomando remédio controlado por causa desta situação”. “Eu só saio daqui com a indenização, o bairro pode afundar, mas sem a indenização eu não saio pois eu não tenho condições de viver em casa alugada. Eu e minha família somos autônomos, não temos condições de sair daqui, até porque a nossa fonte de renda é localizada no bairro. Perdemos clientes, o movimento está fraco”, lamentou a moradora que recordou com carinho os bons tempos em que vivenciou no Mutange. Lá Maria José teve uma filha e criou os demais, conquistou a casa própria e às dos filhos, que hoje são vizinhos da mãe e passam pelo mesmo drama: ter que abandonar a moradia.
CT DO CSA
Entre as regiões atingidas pela exploração está o Centro de Treinamento (CT) do CSA, time de futebol que tem a sua história completamente ligada ao bairro e a possibilidade de evacuação entristece torcedores do time. O CT está prestes a completar 100 anos. Inicialmente o local foi projetado para ser um estádio de futebol, tendo sido nomeado de Estádio do Mutange. De acordo com informações do site do CSA, o local foi inaugurado em 22 de novembro de 1922. De lá para cá já foi considerado o estádio mais moderno do estado; foi o primeiro a sediar jogo internacional em Alagoas em 1951; e, após a construção do Rei Pelé, passou a ser o centro de treinamento do clube. À Gazeta de Alagoas, o CSA disse que não foi notificado oficialmente com relação a evacuação. “É uma questão muito técnica. Se a Defesa Civil determinar que o CSA tem que sair o Mutange é indiscutível, tem que sair. Mas é um tristeza que isso esteja acontecendo, pois historicamente o bairro representa muito para o time, mas esta questão está enraizada, está tatuada e o CSA será sempre o azulão do Mutange, seja lá onde estiver situado”, disse o torcedor ilustre Eliezer Setton.