Cidades
Comerciantes e moradores vivenciam cenário de abandono no Pinheiro
Quem ainda mantém negócios no bairro amarga prejuízos pela queda do movimento
Na “região vermelha” do bairro do Pinheiro — apontada, pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), como uma das principais áreas de risco devido a exploração da sal-gema — o cenário é angustiante. Enquanto os pássaros cantam; as ruas estão vazias, o matagal toma conta das frentes das casas, nos mercados e padarias que resistem às prateleiras estão vazias e nos antigos lares aflitas mensagens estão estampadas nas paredes: “aqui éramos felizes”, “precisamos de Justiça”; “o bairro do Pinheiro pede socorro”.
A Gazeta de Alagoas esteve no bairro conversando com populares e comerciantes e se deparou com histórias enraizadas naquela região, às quais estão, involuntariamente, mudando seus roteiros.
Uma delas é a da Maria Lúcia Feitosa, pequena empreendedora, que tem quatro familiares dependentes da sua renda. Ela tem uma loja de roupas no Pinheiro há 27 anos a qual, segundo ela, encontra-se “falida”. A última venda aconteceu no dia 11 do mês passado.
“Cada dia mais as pessoas estão indo embora. Eu não tenho mais cliente na minha lojinha de roupa, que sempre foi o meio pelo qual minha família foi sustentada, agora tivemos que colocar frutas e verduras na frente de casa na tentativa de vender alguma coisa, pois comida ainda vende, até porque ninguém vai morrer de fome, claro”, exclamou Lúcia.
Já o dono de uma tradicional panificação do bairro, fundada há 30 anos, às prateleiras estão vazias e a tristeza no olhar do dono é nítida.
“Perdi mais de 50% das vendas, a clientela foi embora quase toda. Brevemente, infelizmente, vou ter que demitir funcionários, mas até aqui estou me arrastando. Não fechei ainda porque o prédio é próprio, se fosse alugado seria impossível continuar”, Jário Ribeiro, proprietário da padaria.
CORRESPONDÊNCIAS
Sozinho em uma das ruas do Pinheiro, estava o carteiro Edgar Oliveira, que trabalha na região a cerca de 25 anos. “Estou deixando de entregar, em média, 60 das cartas. A maioria das pessoas saíram dos prédios e pouquíssimas casas tem gente. A situação está muito triste”, lamenta o carteiro que conhece muitos dos antigos moradores pelos nomes. E às placas e cartazes nas frentes dos imóveis confirmam o que o carteiro disse. “Aluga-se” e “vende-se” embaralham a vista de quem passa por lá.
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Em nota, a Braskem afirma que vem fazendo estudos para entendimento do fenômeno geológico, que serão concluídos até o primeiro trimestre do ano que vem, com o objetivo de entender suas causas e encontrar as soluções adequadas. A empresa assinou um primeiro termo de cooperação com as autoridades para adoção de medidas de apoio à comunidade, como instalação de equipamentos de medição meteorológica, DGPS para identificar movimentações no solo, inspeção de imóveis e a realização de obras de drenagem e pavimentação de ruas. A Braskem também doou equipamentos para o Centro de Monitoramento da Defesa Civil. Um segundo termo de cooperação está em andamento e deve ser assinado em breve.
PROTESTO
Moradores dos bairros do Pinheiro, Mutange, Bom Parto e Bebedouro fizeram um protesto que fechou a Avenida Major Cícero de Góes Monteiro, no Mutante, durante boa parte da manhã de ontem. Eles se concentraram em frente ao Centro de Treinamento do CSA e depois seguiram para a porta da unidade desativada da Braskem, onde cobraram pagamento de indenização em referência aos prejuízos causados pela mineração. O grupo se reuniu para, mais uma vez, pedir a indenização e, com ela, amenizar um pouco a angústia e os prejuízos que enfrentam desde que o problema veio à tona, há quase três anos. Parte dos manifestantes vestiu camisas com mensagens cobrando providências da Braskem, petroquímica apontada como a causadora das falhas geológicas nestas localidades pela extração de sal-gema. Outros preferiram segurar bandeiras vermelhas ou brancas. Presidente da Associação dos Moradores do Mutange, Aristóteles Augusto, reclamou da falta de informações quanto à permanência das famílias no bairro. Ele também afirmou que, até agora, não se tem esclarecimentos precisos que possam justificar a remoção de boa parte dos habitantes que vivem na área considerada de maior risco. “Estamos todos muito nervosos, preocupados e apreensivos com toda esta situação” afirmou.