Cidades
Gazeta � quem mais discute trabalho infantil
TAMARA ALBUQUERQUE A Gazeta de Alagoas é o jornal brasileiro, ao lado de A Tarde (BA), que tem o maior percentual de matérias sobre o trabalho infantil, estando à frente de tradicionais jornais de circulação nacional, como a Folha de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e Correio Braziliense, entre outros. Os números constam de pesquisa divulgada na última sexta-feira, em Salvador, durante a realização de uma oficina organizada pela ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), com apoio da CIPÓ (Comunicação Interativa) e de organismos como Unicef e Fundação Abrinq. O evento foi realizado com o objetivo de buscar o apoio da imprensa e de formadores de opinião, para discutir a abordagem da mídia sobre o tema e debater recomendações para a qualificação da cobertura jornalística sobre o trabalho infantil. A oficina é uma das estratégias do Plano de Ação em Comunicação para o Enfrentamento do Trabalho Infantil, da OIT e parceiros. A pesquisa divulgada no evento foi realizada em 62 jornais e revistas de todo o País, com objetivo de traçar um retrato de como o tema Trabalho Infantil é abordado pela imprensa. O trabalho foi centrado em matérias publicadas no decorrer de 2002 e que passaram pela análise de consultores de várias instituições para classificar qual o tratamento que jornalistas conferem às diferentes temáticas que circundam a idéia do trabalho infantil (tipos específicos de trabalho infantil, legislação, combate, fiscalização); como as pautas específicas foram tratadas e as diferentes facetas do comportamento editorial dispensado a esta seleção de temas. O resultado da análise concluiu que a imprensa nacional, uma das mais importantes aliadas na luta pela erradicação do trabalho infantil no País, ainda trata o assunto com pouca profundidade, ou ainda, não incluiu o tema entre os de prioridade. A pesquisa da ANDI analisou 652 matérias publicadas no ano passado por jornais e revistas em todo o País. Destas, 502 trataram das mais variadas formas de trabalho infantil, incluindo eventualmente o trabalho infantil doméstico, que, por sua vez, foi tema exclusivo de 150 reportagens. De todos os veículos pesquisados, o maior percentual de matéria sobre o trabalho infantil foi encontrado na Gazeta de Alagoas, que junto com o jornal A Tarde (BA), foram responsáveis por 4,4% do total de publicações que abordaram o tema. No período pesquisado, grandes jornais de circulação nacional publicaram matérias sobre o trabalho infantil em freqüência bem menor, a exemplo de O Globo (0,9%), Folha de São Paulo (1,7%), Jornal do Brasil (1,5%), Jornal do Comércio (1,5%), o Estado de São Paulo (1,4%) e Correio Braziliense (0,8%). A Gazeta de Alagoas ta-mbém está em 10o lugar entre os veículos pesquisados com maior número de abordagem sobre o trabalho infantil doméstico, um ?novo? tipo de atividade que ganhou destaque na mídia somente no ano passado, a partir da divulgação de números revelados por pesquisas feitas por organizações não-governamentais (com apoio da OIT, do Unicef e da Save the Children UK, entre outras instituições) e pelas ações de várias entidades para prevenção e erradicação deste tipo de exploração. Essas pesquisas revelaram que quase meio milhão de crianças e adolescentes atuam como trabalhadores domésticos no País. Das 652 matérias analisadas na pesquisa da ANDI, apenas 23% ou 150 textos, trataram exclusivamente do trabalho infantil doméstico. Dos 25 Estados que tiveram jornais pesquisados, quatro concentraram o maior número de matérias sobre o assunto: Minas Gerais (16,7), Bahia (12,7%), Pernambuco (10%) e Pará (9,3%). Uma visão geral da cobertura da imprensa escrita sobre o trabalho infantil em geral e doméstico, segundo relatório da ANDI, demonstra que a grande maioria das matérias é factual, prendendo-se quase que inteiramente à ação e aos protagonistas que as geraram, o que representa uma grande perda de oportunidade para se aprofundar em contextos como aspecto sociocultural, as causas, as conseqüências e as possíveis soluções para o problema. Em relação a esses contextos, a pesquisa revela que entre as causas apontadas pela imprensa como mais freqüente para o trabalho infantil estão a pobreza, a fome e a miséria (54%) seguidas da família (10,2%) e do desemprego (7,8%). O que mais chama a atenção, no entanto, é o grande percentual de matérias que não buscam as causam para a ocorrência do trabalho infantil: 72% delas.