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Convidados pelo Banco do Nordeste, os repórteres Xico Sá e U. Dettmar (fotógrafo) iniciaram, há duas semanas, pelos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, em Minas Gerais, uma longa viagem que se propõe a revelar a nova ?geografia da fome? no Brasil e as iniciativas - públicas e privadas- que o País começou a desenvolver para o combate à miséria. Em uma série de reportagens especiais, eles vão mostrar novos personagens e dramas de uma antiga história - mais velha que cantiga de grilo, como se diz nos sertões - que ainda atinge, hoje, pelo menos 9,9 milhões de pessoas, segundo estimativa do Ministério Especial da Segurança Alimentar (Mesa). Nesta narrativa, os relatos e imagens, como os de Benvinda Severina - assim mesmo, ela não tem sobrenome, como no seu batismo-destino - terão prioridade em relação às estatísticas. ?Passar fome todo dia não passo não, senhor. Mas nunca acordei uma só vez na vida sem me preocupar com o que ia botar no fogo pros meninos?, diz, na cidade mineira de Carbonita. Os meninos eram 14. Morreram 3. Os 11, todos menores, ainda vivem debaixo da sua ?asa?, como fala. Deliberadamente inspirada nas denúncias do médico e escritor pernambucano Josué de Castro (1908-1973), autor do clássico ?Geografia da Fome?, livro que há 56 anos chocava o mundo ao revelar a tragédia brasileira, a série de reportagens vai investigar a nação do semi-árido brasileiro, centro das atenções do programa ?Fome Zero? implantado pelo governo federal. Os municípios serão visitados e revisitados, gente como Benvinda Severina será ouvida e reouvida nessa hora em que o País se volta para acabar com uma das vergonhas que o persegue. ?Ó Josué, eu nunca vi tamanha desgraça/quanto mais miséria tem/mais urubu ameaça?, assim, falava Chico Science em sua música de estética a Glauber Rocha. É sob o signo de todos esses profetas da fome que tem início essa viagem jornalística. Que o País esteja bem melhor ao final da linha. Miséria ainda assombra o sertão-veredas de Minas Maria de Fátima Cardoso Jesus, idade desconhecida, saiu de casa cedo, cinco e meia da manhã, para ganhar, dependendo da produção na roça de café, o máximo de R$ 6. O marido, Sebastião Chagas de Jesus, que calcula ter 60 anos, tomou o rumo da mesma vereda, no sítio São João da Mata, município de Malacacheta, a 432 km de Belo Horizonte, no vale do Mucuri, já na divisa com outro vale mais famoso, o Jequitinhonha. Embora, a velha tradição machista lhe garanta alguns dois, três reais a mais, nesse dia ele ficou na mesma faixa da mulher. ?Ganhei apenas para o sal?, como diz. Os meninos, João, Adélia, Leonardo e Dário, ficaram dormindo sozinhos ali na beira da estrada que dá na sede do município. Acordaram sem nada no fogo. São dez filhos ao todo. Os seis mais crescidos já se viram sozinho, entre roças e a servidão doméstica em casas de pessoas mais aquinhoadas de sítios e cidades vizinhas. ?Uma das meninas vive em casa com televisão, geladeira, povo que luxa?, diz a mãe. A família Chagas de Jesus em breve terá registros de nascimentos. Quase todos com idades arbitradas pela promotoria pública do município, que alertou para a clandestinidade. João, o mais novo, deve ter uns dois anos. O mais velho, Leonardo, não deve passar dos seis. Como acordou sem comida - o fogão era apenas um borralho de cinzas - o caçula resolveu ciscar, como um bicho do mato, nos arredores da casa. Tentava tirar alguma sustança de um bagaço velho de cana-de-açúcar. Pela aparência, o bagaço já havia sido todo sugado por porcos. Ele ciscava nu, sujo de muito, entre os garranchos do balseiro. - Um bichinho, meu Deus - espantou-se Flávia Hilário Cassiano, 28, assistente social de Malacacheta, que já conhecia a família. A expressão da moça, paulista de São José dos Campos, situada em vale mais próspero, repetia, involuntariamente, velho poema de Manuel Bandeira, quando o mesmo se espantou com o primeiro homem que viu a lamber sobras de alimentos de lata de lixo urbano, coisa de mais de 50 anos. Avexada, Flávia apanhou uns gravetos com a ajuda dos meninos, cortou uma abóbora e botou no fogo. Misturou na mesma água um punhado de arroz. Fez um ?rebengo?, como muitos sertanejos daquelas bandas chamam a comida feita das sobras das sobras. Os meninos voaram em cima da panela e se lambuzaram. Já passava de 11h. Não comiam há 23h. ?Ah, minha filha, Deus que te guarde e ilumine para todo o sempre, amém?. Era a mãe das crianças, Maria de Fátima, em agradecimento à ação da assistente social. ?Filho de pobre é assim mesmo, come aqui, come acolá?, diz, no meio da roça de café. A família Chagas de Jesus, abaixo de tudo que se possa classificar como linha da miséria, nunca conseguiu fazer parte de nenhum programa social de governo. Por falta de documentos, por achar que não tem mesmo direito a nada. ?Isso não é para o nosso bico não, meu senhor?, acentua a mãe.

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