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Viol�ncia familiar leva crian�as � rua

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O Brasil tem hoje 61 milhões de crianças e adolescentes, entre 0 e 18 anos. Deste total, 27,4 milhões, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são pobres, vivendo em famílias com renda per capita mensal igual ou menor a R$ 120,00 - metade do salário mínimo. Ou seja, sobrevivem com R$ 4,00 diários para morar, comer, vestir, deslocar-se, estudar e brincar. A situação de pobreza dessas crianças e adolescentes passa de geração a geração. A grande maioria delas é constituída de filhos de pais e mães que também não tiveram direito a uma vida digna. Mesmo com um dos mais avançados mecanismos de defesa dos direitos da infância e da adolescência, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a maioria vive em situação de exclusão social, privadas de seus direitos básicos, sendo vítimas da exploração pelos pais e do descaso do Poder Público e da sociedade. Em Alagoas, o Estado onde a metade da população vive abaixo da linha de pobreza, essa situação de exclusão de crianças e adolescentes é ainda mais visível. Só não percebe que não quer. De acordo com dados do Censo 2000 do IBGE, dos 2.822 milhões de habitantes de Alagoas, 1.319,146 são crianças e adolescentes entre 0 e 19 anos, compondo 47% da população. É no contato com meninas e meninas privados de uma vida digna que tomamos consciência de que eles não estão nas ruas por acaso. Ana Paula, 14 anos, está morando nas ruas há mais de um ano. Foi durante o período das festas juninas do ano passado que ele decidiu abandonar a casa dos pais em Chã de Jaqueira. Motivo: era vítima das agressões do pai, que tentou matá-la por duas vezes. Desempregado, o pai tornava-se agressivo principalmente quando bebia. Hoje, Ana Paula diz que não sente saudades de casa. Só pode pensar em visitar a mãe no domingo, quando o pai sai de casa para participar de partidas de futebol. A menina tem mais dois irmãos que também moram nas ruas. Só que enquanto ela prefere ficar na Praça dos Martírios, eles estão nas imediações da ?feira do rato?, na Levada. Foi nas idas e vindas, a pedido da mãe, para saber como estavam os irmãos, que ela optou por morar definitivamente nas ruas. Com certa timidez, preferiu não responder à indagação de como consegue sobreviver sem casa e sem família. Admitiu que cheira-cola, simplesmente ?por cheirar?. O maior medo é da violência das ruas, principalmente dos outros companheiros e também da polícia. Ana Paula diz que conhece o Estatuto da Criança, mas quando perguntada sobre o que ele trazia de bom para ela, não soube explicar. José Cícero, 17 anos também não tem uma história muito diferente de Ana Paula. O corpo franzino parece de um menino de 12 anos. Fugiu da casa do pai, em Joaquim Gomes, ainda menino. Junto com o primo, chegou a Maceió pedindo carona. Ficou deslumbrado com a cidade grande. ?A cidade aqui é grande não é como onde eu morava?. Freqüentou a escola por apenas uma semana e há três anos está vivendo na Praça dos Martírios. Voltar para casa dos pais, nem pensar. ?O que eu quero é casar e ter uma casa?, sonha. Pelo menos já tem uma namorada, também moradora das ruas. Não esconde o medo da polícia. Sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente diz que jamais ouviu falar. O coordenador estadual do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), Átila Vieira, admite que é difícil difundir o Estatuto da Criança e do Adolescente com os que vivem nas ruas. Do Estatuto, o mecanismo resultante dele que mais reconhecem é o Conselho Tutelar. ?Aos poucos, eles vão tomando conhecimento de seus direitos estabelecidos pelo estatuto?, assegura Átila.(MFA)

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