Cidades
Ponte do Reginaldo vira teto para barracos
FÁTIMA VASCONCELLOS Com o espaço físico já bastante superlotado, a instalação de novas barracas na favela do Reginaldo está acontecendo no local mais desconfortável possível: em baixo da ponte. Tem barraco cujo teto é o próprio asfalto e as paredes foram feitas com papelão. Os moradores explicam que vieram do interior tentar um meio de sobrevivência na Capital. Ao passarem pela Ponte Governador Afrânio Lages, conhecida por Ponte da Rodoviária, avistaram a escada de acesso à favela. ?Olhei lá de cima e vi que embaixo tinha um monte de casinha e barraco. Então pensei em baixo da ponte só mora quem não tem dinheiro. Deve ser local permitido para invasão. Desci, fiz amizade com o povo lá em baixo, mas não tinha espaço para novas moradas. Nem pensei duas vezes em erguer um na parte alta, bem juntinho da ponte?, resumiu Valdinete Belo de Lima. Natural de Cajueiro, desempregada, ela perambulou pelas ruas com a filha durante um mês, até improvisar uma morada sob a ponte. Hoje praticamente toda faixa de terra que acompanha a ponte, apesar do difícil acesso (uma barreira toda acidentada) está ocupada por barracos de papelão. Cristina Santos é outra moradora. ?Meu marido é servente de pedreiro. No interior é difícil arrumar serviço. A gente passava fome. Então tomamos coragem de vir para Maceió, mesmo sem ter dinheiro para alugar uma casa. A alternativa que restou foi aqui em baixo da ponte. Ficou melhor para ele conseguir serviço nas obras. Enquanto ele trabalha nas construções eu vendo fruta nos semáforos para ajudar no sustento dos filhos?, relata Cristina, grávida de cinco meses. Ela disse que não é fácil morar em baixo da ponte, mas a família se adaptou pela força da necessidade. ?O pior é durante a madrugada. Sempre tem carro passando. O movimento diminui mas não fica parado. Como o teto do barraco já é a própria pista, tudo aqui em casa estremece. No começo ninguém conseguia dormir. Depois a gente se acostumou. É o nosso cantinho. Ninguém vai expulsar a gente porque não estamos na casa dos outros. Sempre tem pessoas que vêm oferecer ajuda, gente que faz caridade. Passa um grupo e traz material de limpeza, comida, roupa usada, lençol e assim vamos sobrevivendo. As crianças estão matriculadas mas quando tá chovendo não dá para ir à aula. Tenho fé em Deus que a chuva não vai levar embora o barraco. Aqui tem morador mais antigo do que eu e nunca aconteceu acidente?. Maria Cícera de Lima também disse que já se acostumou a viver no alto da barreira, praticamente na cabeceira da ponte da rodoviária, com os três filhos. ?A gente vende feijão no semáforo. Compro na Ceasa e revendo. É com esse dinheiro que alimento a família. Já arrumei um lavado de roupa para ajudar na renda. Só não dá para trabalhar como doméstica porque não tenho com quem deixar os meninos. Essa á a situação de todas as mulheres daqui. Fica difícil por causa das crianças?. Os barracos têm uma torneira que serve para abastecer água para tudo, do banho à comida. ?A gente faz emendas na encanação porque sem água não se vive. A energia é feita com gambiarras puxada direto do poste da rua. Deus ajuda. Sempre tem alguém na vizinhança que sabe improvisar as instalações. Só falta mesmo emprego e creche onde a gente deixe os meninos. Morar aqui é como em qualquer outro lugar. Tendo as condições a gente vive. Não precisa luxo. Basta comida, água, um cantinho para dizer que é da gente?.