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Fam�lias perdem centenas de crian�as para drogas

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FÁTIMA ALMEIDA O poder público e a família perdem centenas de crianças e adolescentes para as drogas, todos os anos, em Maceió. O alerta é do presidente da Comissão de Direitos da Criança, do Adolescente e do Jovem da OAB/AL, Gilberto Irineu, destacando que faltam projetos de governo capazes de arrebatar essas crianças ou de chegar a elas, antes dos traficantes. Segundo Irineu existem, nas grotas de Maceió, milhares de crianças e adolescentes sem a mínima assistência, o que os torna alvos fáceis para o mundo das drogas. Um levantamento feito pela Comissão da OAB, através de entrevistas casa a casa em alguns pontos críticos de extrema pobreza, é apresentado por Irineu como mostra dessa realidade. Os dados afirmam, por exemplo, que na Grota da Alegria existem 544 crianças totalmente excluídas de qualquer assistência, em famílias com renda que varia entre R$ 10 e R$ 40 por mês, a maioria em situação de subnutrição, sobrevivendo com uma ou duas refeições por dia. Na Vila Brejal a situação se repete com 568 crianças; no Clima Bom, são 534; no Rio Novo, são 307; só para citar alguns exemplos. É exatamente nessas áreas, segundo ele, onde estão os maiores redutos de tráfico de drogas da capital. ?Uma criança numa situação dessa, é facilmente recrutada para as drogas. Se não for envolvida em projetos que lhes dê alguma perspectiva de vida melhor, elas começam cedo, aos 9 e 10 anos, cedem às propostas ?fascinantes? de ganhar dinheiro como olheiros, dando sinais para os traficantes, ou levando o produto em inocentes sacolas escolares?, observa. Outra, mostra dessa realidade, segundo Irineu, é o registro cada vez mais freqüente de assassinato de meninos e meninas, às vezes, dentro de suas próprias casas. ?A quem interessaria matar uma menina de 12 anos, ou de um garoto que aparentemente não tem inimigos, como já aconteceu, a não ser a traficantes, a quem eles se recusam a continuar servindo, ou para os quais eles passam a representar uma ameaça??, indaga o advogado. Segundo ele, muitas dessas crianças não têm acesso à escola, mas começam, logo cedo, a estabelecer contato com o tráfico, através de ?escolinhas?, onde os traficantes, selecionam e dão as primeiras aulas de tráfico de drogas. Mapeamento Gilberto Irineu diz que existe um mapeamento do tráfico de drogas, que vai do Clima Bom, passando por Bebedouro e Bom Parto ( em Maceió), até a Praia do Francês, em Marechal Deodoro. O mapa já foi, inclusive, encaminhado à Polícia Federal, Secretaria de Defesa Social, e Comando da Polícia Militar e aponta, entre dezenas de pontos estratégicos utilizados pelo tráfico, as imediações da Quadra 16, Rua do Vagabundo e Rua São Sebastião, no Clima Bom, a Rua do Ferro, no Conjunto Frei Damião, a Nova Vila, no Bom Parto, ao redor da Lagoa, por traz da Secretaria Municipal de Educação. Em alguns pontos, como no Clima Bom, os sinais dos olheiros e dos traficantes, são inclusive de domínio público, com foguetes que sinalizam a chegada das drogas ou da polícia. As crianças que cumprem o papel de olheiros podem ser vistas, segundo ele, a partir das 17 horas, em diversas esquinas, cumprindo a missão pela qual são pagas. ?Se essas crianças estivessem inseridas em programas, que além de mantê-las em atividades saudáveis e agradáveis lhes abrissem perspectivas de vida, provavelmente não estariam ali. Mas, enquanto o poder público não chegar até elas, de forma eficiente e rápida, continuaremos perdendo nossas crianças para uma vida de risco e criminalidade?, alerta Irineu. Projetos Os projetos de governo para resgate da cidadania de crianças e adolescentes existem, tanto na escala municipal quanto estadual, mas em quantidade, freqüência e eficácia infinitamente menores que o necessário para superar o assédio do submundo das drogas e da criminalidade. Na realidade, só agora, o poder público está chegando perto de conseguir o básico, que seria garantir escola para toda criança de baixa renda. Mas a sala de aula não basta para manter crianças e adolescentes que não têm o que comer, longe do perigo da marginalidade. Alguns projetos mais amplos começam a sair da sala de aula, mas mesmo ganhando maior celeridade, vão levar muito tempo para fincar a bandeira da vitória na luta contra o aliciamento de crianças e adolescentes para a criminalidade. Um desses projetos é apresentado pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, e está sendo executado, como piloto, há dois anos, na Grota do Rafael. ?Temos 130 crianças de 8 a 12 anos participando, e nossa maior vitória é a permanência delas a cada dia?, diz a secretária-adjunta, Fátima Pinto, coordenadora do projeto. Mais que isso, ela afirma já ser possível observar mudanças de comportamento consideráveis. Essas crianças foram recrutadas a partir de atividades esportivas (futebol masculino, futsal e voleibol), e programações de socialização que incluem excursões, dias de lazer, comemorações coletivas. O projeto caminha para uma ampliação, incluindo educação para a saúde, atividades artísticas, reforço escolar e alimentação. Segundo Fátima Pinto, o município já conseguiu alugar um galpão, que vai sediar as atividades, e está lutando para inserir o projeto no programa Esporte Solidário, do governo federal, que bancará estagiários e monitores. A partir daí, segundo ela, o projeto caminhará sozinho, e o município vai para outra área, provavelmente a Grota do Pau D?Arco, e depois outras. Um outro projeto apontado por ela é o ?Recriando a Vida?, que reúne meninos e meninas de rua a partir de 10 anos de idade, à noite, no Ginásio Estadual, para a prática esportiva, banho e alimentação. ?Um requisito para participar é não entrar com drogas. Pelo menos por duas horas, eles deixam a cola lá fora?, explica Fátima Pinto. Ele diz que o projeto, que envolve outras secretarias, ONGs e até empresas privadas vêm sendo executado há cerca de dois meses e já envolve 50 meninos e meninas de rua. Fátima explica que o projeto é muito mais amplo e tem uma meta mais audaciosa do que ocupar esses jovens e adolescentes apenas à noite. Eles são cadastrados, é feita uma pesquisa sobre suas famílias, têm acompanhamento de assistente social e psicólogo, e ficha para assistência no posto de saúde. ?É um trabalho de reinserção social, com a possibilidade de retorno ao convívio familiar?, explica. Ela reconhece os entraves existentes, entre eles a inexistência de um local para tratar drogaditos em Alagoas, e sabe que os programas ainda estão longe de cumprir resultados mais eficientes na luta contra as drogas. ?Temos a concepção de que precisamos ocupar o máximo de tempo dessas crianças e adolescentes, e oferecer perspectivas de vida melhor. É uma batalha dura, mas o importante é que começamos?, conclui Fátima Pinto.

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