Cidades
Serid� tem a sopa no mel contra a mis�ria
Na entrada da cidade, uma fila danada, solzão, morrendo, o fotógrafo doido por uma boa imagem, corre, rapaz. Todo mundo de bacia ou panela na mão. Mulheres muitas, poucos homens. Sopa da prefeitura para aplacar a fome ou a necessidade de correr desesperadamente atrás do alimento todo dia, o que acaba por não deixar tempo para cuidar da vida dos meninos, da beleza, unhas, pés-de-galinha de tanta preocupação de poleiros sem fim, a saúde. O sol morre ligeiro, aí já é tarde, a prosa da calçada ainda rivaliza com o ibope das novelas, o alto-falante da igreja reza o terço, os evangélicos, filhos de Deus, também, cuidam de suas almas. Como Acari e todas as belezas do sertão do Seridó, Jardim é limpa, limpinha, nenhum cisco nas ruas. Ainda no começo dos anos 40, o escritor paulista Mário de Andrade passou por lá, viagem para escrever ?O Turista Aprendiz?, e disse assim: ?Uma cidadinha de Tarsila (do Amaral, pintora), toda colorida limpa e reta. Catita por demais, lembrando Araraquara por isso. Cidade pra inglês ver. Mas, não tem dúvida que é um dos momentos de cor mais lindos que já tive neste aprendizado pra turista?. Cerca de 2.000 pessoas se abastecem da sustança da sopa de verdura e carne - com variações - no município. Três vezes por semana. Um alívio para o bolso e principalmente para o juízo. A preocupação com o ?de comer? endoida sertões adentro. Por isso, que Jardim do Seridó está na rota do Programa Fome Zero, cartão alimentação e ações ligadas ao trabalho que vão enriquecer o sopão local. ?Sabe quantas pessoas estão esperando lá em casa por essa sustança? Oito. Bota ai, escreva ai mesmo, oito?, diz a mãe de família Gisalda Alves, oito bocas para alimentar. Pega a sopa, amarra em uma vasilha no bagageiro de uma bicicleta e vai. ?Só não pega quem esconde a sua pobreza, quer inventar que é rico e num precisa. Depois a tripa ronca de noite?, fala sobre a cerimônia de alguns moradores do município. Abelhas Muito antes do sopão, o agricultor Ezequiel Roberto de Macedo, 29, havia posto o Seridó no mapa das boas invenções do País. É um criador de espécies nativas de abelhas que geram renda e ajudam a recuperar a caatinga estragada - aquele mundo caminha para a desertificação, como boa parte do Nordeste. Criador de abelhas que não ferroam, todas de origem brasileira, o rapaz é zeloso como havia dito Mário de Andrade sobre o mundo Seridó. Vem gente de tudo quanto é canto desse mundo estudar a sua criação, em um sítio que mantém a flora da caatinga - com suas imburanas-de-cheiro, juremas e cactos - e serve de laboratório para professores de universidades, como a USP, e visitantes de todos os rincões. Ezequiel enfrenta secas brabas, desde a adolescência, mas não abre mão de uma apicultura diferenciada. Em vez de explorar simplesmente a produção do mel, uma das boas alternativas da nação semi-árida para conviver com a estiagem, prefere cultivar colmeias. O seu sítio é um zumbido só em caixinhas tantas. Vende abelhas para tudo quanto é canto desse mundo. Costuma cuidar das abelhas com instrumentos ?colheres, garfos, etc - de ouro. É o suficiente para que a lenda local diga que se trata de um abençoado que encontrou uma botija (tesouros misteriosos enterrados pelos mais antigos) e se deu bem. ?O povo conversa demais?, diz. ?Eu faço muito é trabalhar e confiar nas minhas abelhas?.