Cidades
Rel�gios p�blicos de Macei� pararam no tempo
FÁTIMA ALMEIDA São muitos os relógios de Maceió. Por muito tempo, eles serviram de referência para guiar trabalhadores no horário de pegar no batente ou na hora de largar a labuta diária; boêmios que faziam ponto no café central não tinham justificativa para perder a hora de voltar para casa: o relógio central, sempre fiel, dava o sinal. E mesmo de longe, dava para ver as horas marcadas pelo grande relógio que por muito tempo coroou o alto do edifício do Produban. No prédio do mercado, outra relíquia faz parte da arquitetura, a exemplo do relógio incrustado na parede da Estação Ferroviária, que orientava os passageiros, para a hora do trem. Na Catedral, eram dois, embora, um deles, andasse sempre atrasado. (Outro dia li em algum lugar que os relógios das igrejas são sempre dois, uma para cada torre. Em uma delas, marcando a hora certa, em outro a hora errada, para atrapalhar o diabo. A tese não encontra amparo na crença da cúpula católica que a contesta veementemente, mas pode ter andado na cabeça dos arquitetos que fizeram a história.) A maioria dos relógios públicos de Maceió tem origem Inglesa, mas se depender do horário por eles marcado, a pontualidade dos alagoanos está longe de seguir a rigidez britânica. Por falta de manutenção, esquecimento, falta de recursos ou falta de peças, os nossos relógios pararam no tempo. O pior é que de todos eles pouco se tem notícia. Do relógio do Mercado, há a informação de vendedores da área, que o motor foi retirado para conserto desde 1996 e nunca mais voltou. A Secretaria Municipal de Abastecimento desconhece essa informação. Segundo o chefe de gabinete Armando Lobo, consta que a máquina continua no lugar, embora, o relógio continue parado. ?Não há manutenção. Só temos a informação da gestão passada, de que é muito caro. Na realidade, diante de tantos problemas como sujeira, ambulantes, segurança na região do mercado, nunca nos ocorreu de colocar o relógio entre as prioridades, mas está em andamento o projeto de revitalização do Centro, e acreditamos que possa ser incluído?, confessa Armando. Na Catedral, nem se fala no assunto. O pároco, padre Celso Alípio, diz que já encontrou os dois relógios que figuram no alto das torres, parados, como estão até hoje. Ele não tem idéia do quanto custa, mas acredita que o conserto e a manutenção para deixá-los funcionando, deve ser muito caro, porque precisaria de peças antigas que não se fabricam por aqui. A boa notícia vem da Estação Ferroviária. O presidente da CBTU, Adeilson Bezerra, mandou concertar o motor do imenso relógio inglês e acredita que chegue dentro de um mês. Ele ainda não sabe, em quanto vai ficar o conserto, mas foi alertado de que custa caro, por causa da antiguidade da máquina, e de sua origem inglesa. Mesmo assim, segundo ele, os usuários já podem ir estudando outra desculpa para quando perder o trem. Marco dos 500 anos é exceção A exceção de funcionamento dos relógios públicos de Maceió está na Praça Multieventos. De design moderno, erguido sob a batuta do mago Hans Doner, da Rede Globo, em parceria com a TV Gazeta e a Prefeitura de Maceió, para comemorar os 500 anos do Brasil, o enorme relógio também chegou perto de ter o mesmo destino dos outros. Depois de cumprir sua missão da contagem regressiva para a comemoração, chegou a passar mais de um ano parado, mas a persistência do empresário Márcio Raposo em cobrar a manutenção acabou lhe rendendo a adoção do filho órfão. Ele sabia até a hora que o relógio parou: 3h15. Quando assumiu, os vândalos já tinham levado as correias, os sistemas de bateria e outras peças importantes. O novo tutor teve que refazer muita coisa, até o poço que rega o jardim. Uma nova bomba foi colocada, mas ela também foi roubada, assim, como outras três que vieram depois. Foi preciso transferir o poço para dentro do relógio e protegê-lo com barras de ferro. Tentaram roubar novamente, mas o empresário reforçou a grade e colocou um sistema de alarme. ?Para mim, o relógio é o marco de uma passagem importante da história. Daqui a 500 anos, nossos descendentes estarão lendo como foram comemorados os primeiros 500 anos do descobrimento do Brasil. Como deixar que esses monumentos se acabem em tão pouco tempo?? indaga ele, lembrando que os relógios da TV Globo foram erguidos em todas as capitais brasileiras e cidades de importância histórica como Porto Seguro. Apenas o de Maceió e o de Vitória do Espírito Santo estão funcionando. A história de amor já dura três anos, e se depender de Márcio Raposo, ainda vai longe, apesar dos altos custos. Segundo ele, no início eram gastos cerca de R$ 10 mil mensais com a manutenção do relógio. Mas, ele baixou custos com a assistência técnica, que antes era do Rio de Janeiro (hoje é do Recife) e com energia, através de uma parceria com a Eletrobrás, que divide o espaço anunciando a sua marca.