Cidades
Semi-�rido esconde tesouros arqueol�gicos
FÁTIMA ALMEIDA O semi-árido alagoano é um rico sítio arqueológico. Vestígios de seres que habitaram os sertões há mais de 12 mil anos são encontrados em praticamente todos os municípios da região, em alguns em grande quantidade. A informação é do paleontólogo Jorge Luiz Lopes da Silva, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Ele afirma que pesquisas realizadas mostram um Sertão com outra paisagem: muitos rios, muita água, clima bastante úmido, uma vasta vegetação e animais de grande porte que deixaram suas marcas no solo alagoano. Os principais pontos de referência para as pesquisas são os ?caldeirões?, depressões nas rochas que, segundo ele, são as mais antigas do planeta. Essas depressões formavam enormes depósitos de água que chegavam a até cinco metros de profundidade, hoje soterradas pelo atual formato do relevo sertanejo. Ali são encontrados verdadeiros tesouros arqueológicos; ossos de animais enormes, como a preguiça gigante (Eremotherium), que de tão grande não subia em árvores. Elas chegavam a medir seis metros e pesar cinco toneladas, segundo o pesquisador. Jorge Luiz prefere não localizar seus achados. ?Pode despertar a atenção de pessoas que não têm embasamento técnico para explorar; colecionadores e amadores que vivem da venda desse material. Seria um enorme crime contra a pesquisa científica. Tudo isso precisa de proteção, que nós ainda não temos condições de oferecer?, observa. Segundo o paleontólogo, o relevo do sertão alagoano era totalmente diferente de hoje. Com os caldeirões que se formavam nas rochas, os animais se aproximavam para beber água ou se banhar. Alguns caíam e morriam afogados; outros eram mortos por predadores e a ossada era abandonada no local; outros morriam nas proximidades, de doenças ou de qualquer outra causa, e eram arrastados para as depressões por enxurrada. Por isso, os vestígios desses animais, que conforme ele existiram em grande quantidade no sertão alagoano, são encontrados em quantidade considerável nessas cacimbas, hoje situadas embaixo da terra. ?Às vezes, até um agricultor, em busca de reserva de água, encontra com facilidade. A maioria dos sertanejos conhece o solo, sabe onde pode ter um caldeirão na rocha e escava. O que a maioria não sabe é do valor arqueológico desses vestígios encontrados, sedimentados na rocha, em processo de fossilização?, afirma. Água abundante Os principais achados do Semi-árido estão no Museu de História Natural, mantido pela Ufal. Ossos enormes, dentes gigantescos. No começo, alguns pesquisadores pensavam que eram de dinossauros, mas estudos mais apurados afastaram essa hipótese e o interesse da maioria. ?O fato de não ser ossada de dinossauro decepciona as pessoas. Mas o valor dessas peças é tão importante quanto, porque confirmam a presença de animais gigantes que habitaram a terra na pré-história?, explica o paleontólogo. Ele diz que essas descobertas são valiosas para várias áreas de estudo. Por meio delas é possível descobrir, por exemplo, de que morreu o animal, qual era a principal causa mortis na época, que mecanismos levaram os fósseis para os jazidos e até fazer a reconstituição dos cenários de vida no passado, por meio da Tafonomia. ?Alagoas é pouco explorada nessa área. Mas temos pesquisas que mostram a existência de animais de 4, 5, 6 toneladas?, diz o paleontólogo. Entre essas evidências, há ossos de Toxodon (um animal parecido com o rinoceronte e com o hipopótamo, que passava a maior parte do tempo na água). ?A presença desse animal e de tartarugas e jacarés é uma prova de que havia muita água no hoje tórrido sertão alagoano?, diz. As pesquisas também reuniram ossos e dentes do Mastodonte, um pré-histórico que lembra o elefante, e do Gliptodonte (tatu gigante que chegava a medir dois metros). As escavações vão continuar. O pesquisador quer, agora, buscar os vestígios de animais menores, como répteis e anfíbios, e de micromamíferos, por meio do peneiramento dos resíduos das pesquisas dos grande animais. Atrativo turístico Segundo Jorge Luiz, a região é tão rica em referências da pré-história que ele tem um projeto de criar, numa área a ser definida, um parque paleontológico que serviria, ao mesmo tempo, para o desenvolvimento do turismo e de pesquisas científicas. A idéia é abrir um enorme caldeirão e deixar os ossos no local. Ao redor, seriam colocadas réplicas desses animais e da vegetação, e construído um pequeno museu, possivelmente em Maravilha. O problema são os recursos para isso. ?Nossas pesquisas começaram com financiamento do CNPQ e Universidade Federal de Pernambuco. Hoje, a Ufal é quem está bancando, mas os recursos são escassos?, reclama o pesquisador. O projeto do parque paleontólogo, segundo ele, necessitaria de mais de R$ 500 mil para ser implantado, mas a idéia é torná-lo auto-sustentável. Enquanto o dinheiro não aparece, o pesquisador continuará procurando novas descobertas, escavando o Sertão em busca de novos caldeirões.