Cidades
MPF investiga ataque ao acampamento da CPT
ARNALDO FERREIRA / Editor de Política GILBERTO FARIAS / Editor de Fotografia Porto de Pedras ? A Procuradoria da República em Alagoas acompanha as investigações da polícia sobre o atentado que ocorreu, domingo, no acampamento de 21 famílias de trabalhadores sem-terra ligados à Comissão Pastoral da Terra (CPT), na Fazenda Lucena, neste município do litoral norte alagoano, distante 94 quilômetros de Maceió. Seis pistoleiros metralharam e queimaram os barracos, documentos e a comida dos acampados. Ontem, pela primeira vez, um grupo de autoridades estaduais e federais esteve no local do atentando. O analista pericial e assessor da Chefia da Procuradoria da República em Alagoas, Ivan Soares Farias, acompanhado dos representantes do Incra, das Comissões de Direitos Humanos da OAB e da Assembléia Legislativa e da coordenação estadual da CPT vistoriaram a área. Soares ficou impressionado com a destruição do acampamento. ?O Ministério Público Federal acompanha a movimentação dos sem-terra e dos fazendeiros em Alagoas. Com maior preocupação, na Fazenda Lucena, porque houve um atentado e uma pessoa saiu ferida?, disse Ivan Farias, acrescentando que o MPF também quer evitar as relações conflituosas. ?Não se pode permitir que para manter a propriedade privada se atente contra a vida?, disse o analista pericial, que fará um relatório para o procurador-chefe da República no Estado, Delson Lyra. A Procuradoria da República vai solicitar ao governo estadual a emissão de novos documentos às famílias atacadas. As comissões de Direitos Humanos cobraram mais agilidade e menos burocracia do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), advogado Mirabel Alves Rocha, adiantou que a Ordem encaminhará expediente aos órgãos de segurança e ao governo cobrando esclarecimento do atentado e unidades móveis para expedir nova documentação para os trabalhadores. O representante do Legislativo, deputado Paulo Fernando dos Santos, Paulão, considerou a ação do último domingo como uma demonstração de força. ?Os latifundiários têm representantes na Assembléia. Por isso, é importante mais agilidade do Incra?, frisou o parlamentar ao destacar que a Justiça tem um papel importante neste momento de tensão. Violência O coordenador da CPT, Carlos Lima, responsabilizou o Incra de Alagoas pelo crescimento dos conflitos entre fazendeiros e sem-terra. ?Em uma semana, registramos três atentados em três acampamentos da CPT. O mais grave foi o da Fazenda Lucena, porque foi uma ação planejada. Isto acontece por causa da lentidão do Incra em resolver a desapropriação e emitir a posse das áreas de reforma agrária?, desabafou. Lima defende que haja apuração e punição dos envolvidos. ?A impunidade é perigosa, porque gera mais violência?. O coordenador da CPT fez doações de roupas que chegaram de missões estrangeiras em socorro às vítimas do atentado. O superintendente do Incra, Mário Agra, também distribuiu cestas básicas às famílias. Explicou que a morosidade na emissão de posse acontece por causa de pendências judiciais. No caso da Fazenda Lucena, o proprietário resolveu aumentar o valor do imóvel para dificultar a reforma agrária. ?Estamos agora numa batalha judicial. Nada pode ser feito à margem da lei?, disse Agra ao pedir paciência aos acampados. Dos 21 barracos de palha e lona que existiam no local, apenas seis foram poupados pelos pistoleiros. Mas a imagem do acampamento, ontem, era desoladora e de destruição. O medo de novo ataque domina os sem-terra. O secretário de Defesa Social, Robervaldo Davino, designou um delegado para investigar o atentado. Mas a polícia não tem pista dos agressores. O dono da fazenda, empresário Flávio Nunes Magalhães, acusado pelos sem-terra de contratar pistoleiros para expulsá-los de lá, negou o envolvimento. ?Soube do atentado pela imprensa. Não tenho nada a ver com isso?, afirmou. Sobre as negociações com o Incra, disse que isso acontece através de advogados. ?Eu acho estranho tudo isso. Sou um homem de paz?, frisou o fazendeiro. O sem-terra Pedro Severo da Silva, que sofreu queimadura grave, está fora de perigo e fora do acampamento.