Cidades
Na trilha de Lampi�o, uma gastronomia da seca
XICO SÁ No terreiro de casa, passa o rio São Francisco, meio acabrunhado depois da construção da vizinha hidrelétrica de Xingó. No quintal, tem a grota de Angicos, onde Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram chacinados no ano - calibre de 38 - 1938. Dentro de casa, dona Gilda Correia Nunes, 58 anos, mãe de 12 criaturas, transforma a memória de necessidades e secas brabas em fina gastronomia. Da cabeça-de-frade, aquele cacto redondinho com o cocoruto vermelho, faz um doce de lamber os beiços. Do talo da urtiga, uma salada sob medida para acompanhar o surubim, peixe que já escasseia no velho Chico cansado de guerra. Do facheiro, também nascido na teimosa flora semi-árida, sai uma geléia de primeira. ?A gente tem que aprender a tirar desse deserto tudo que é sustança?, dá o exemplo. ?E isso vem de longe, eu já aprendi com a minha mãe, que aprendeu com a dela, que aprendeu mais atrás ainda e as minhas filhas já fazem tudo melhor do que eu?. Luíza, novinha cheirando a leite, é uma dessas criaturas. Faca amolada, retira os espinhos dos cactos com a habilidade de um japonês cortando peixe para fazer sushis. Um mar de água, o cacto desmancha-se na bacia. ?Muita gente já matou a sede, em tempo ruim de verdade, com essas plantas?, conta. Repete a narrativa que ouviu dos mais velhos. ?Os bodes tiram os espinhos espezinhando a cabeça-de-frade, depois enchem o bucho d?água, felizes, Deus sabe o que faz?. O doce do cacto é de botar abaixo qualquer regime ou cuidado de mulher com a silhueta. Lembra doce de mamão verde, mas é muito melhor. Embora, algumas mais jovens sigam os padrões estéticos importados na parabólica da TV, sertanejo que é sertanejo aprecia mesmo, seja morena ou galega, é uma moça ?forte?, corada, roliça, cheinha. Macho considerado também é o que apresenta sinais de fartura para encobrir o esqueleto. Homem fornido, redondo na cintura e nas bochechas, pança que dá o ritmo em qualquer forró. ?Hoje em dia, na capital, tem essa moda de graveto, coisa sequinha, só o osso, as moças parecem aquelas vaquinhas da seca, andam tudo desconjuntadas, pernas destrambelhadas, vixe!, que diabo de tempo é esse??, pergunta dona Gilda. ?Tem moça que é só o fiapinho de gente. E moça rica, com condição de comer direitinho!?. De certa forma, o pendor pelos mais cheinhos e cheinhas, sinais de bonança, não deixa de ser uma vingança estética contra a memória da fome, sertão dos flagelos. Há busca da fartura até nas carnes de casamentos e pecados, cercas tantas do amor. Mas, no restaurante familiar de dona Gilda, de nome Angicos, batismo que nem carece de placa, as moças sequinhas das metrópoles escapariam com peixes e saladas da caatinga. ?Mas aviso logo: comer pouco aqui é uma desfeita?, diz. ?Gosto de quem come como se o mundo fosse acabar logo um tempinho depois?. Para a sobremesa, além dos doces, redes estendidas debaixo de mangueiras garantem uma sesta de rei. Fichado no ?adjitório? O sertão das memórias da fome antiga, cuja imagem popular, lembra o etnógrafo Câmara Cascudo, é uma velha de chapelão, mal-assombro de todas as carências e da morte morrida antes dos trinta. Dona Gilda não fala por ter ouvido falar, fala por ter visto a cara da assombração de perto: ?Meu filho, esse povo hoje passa aperto, mas muita gente reclama sem necessidade, o pior foi o que vi com esses olhos que a terra há de comer?. O terreiro da casa de Angicos pertence a Canindé do São Francisco. O quintal, 700 metros adiante, caatinga acima, onde está a cruz da morte de Lampião, é Poço Redondo. Os dois municípios de Sergipe estão na rota do programa Fome Zero. ?Rapaz, vi uma reunião bonita sobre essa ajuda. Tô pra receber esse ?adjitório? (corruptela de adjutório, ajuda) de Lula, tô fichado lá, e num vejo a hora?, diz Orestes Pereira da Silva, 45 anos (?com cara de centenário, né? Parece barro de açude seco, né??). Agricultor de um assentamento na região, Orestes conta que o inverno - como é chamada a estação das chuvas no Nordeste - foi fraco demais. Para ajudar, se vira fazendo pequenos carretos numa carroça movida a tração animal. ?Quero melhorar também a minha assinatura com o Fome Zero, pois assino só um garrancho de nome. Eu sei que num é só o ?adjitório?, pra gente comer, tem ensino, tem estudo, tem projeto de cisterna, um magote de melhoria, é o que tão falando?, conta. ?Se aqui é desse jeito, que tem a água do rio perto, imagino lá pras brenhas do sertão velho?. Em cima da carroça, o amigo Zildo Jesus Duarte, 38, dono da parabólica e da TV que carregam. ?Nosso divertimento aqui é esse mesmo (aponta para a TV), se não a gente se larga a fazer menino que não acaba mais?, conta Zildo. O jegue segue, lerdo, meu Deus, conduzindo as duas criaturas e os aparelhos do mundo moderno. Até parece que vai desembocar na rodovia de ?O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro? (1969), filme do baiano Glauber Rocha. Corta para a trilha da grota de Angicos. Lá, Francisco Rodrigues Correia, 18 anos, filho de dona Gilda, fala sobre a energia solar - projeto do Instituto Xingó, sociedade alternativa - que move luz e geladeira da sua casa. Embora, a hidrelétrica fique na vizinhança e os seus fios passem ali por cima, é o sol que dá conta do recado. Guia da trilha que leva à cruz de Lampião, o rapaz parece repetir, ao seu jeito, uma cena pedagógica da fita de Glauber, na qual acontece uma sabatina de mestre para alunos, com a seguinte ladainha: - Em que ano foi descoberto o Brasil? - 500 - De novo. -1500. - A independência do Brasil em que ano foi? -1822. - Os escravos, em que ano foi? -1888. - De novo. -1888. - A República, em que ano foi? -1889. - De novo. -1889. - De novo. - E Lampião em que ano morreu? -1938. - De novo. -1938.