loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sexta-feira, 31/07/2026 | Ano | Nº 6279
Maceió, AL
22° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Cidades

Cidades

Número de ambulantes cresce e engrossa mercado informal como meio de sobrevivência

Ouvir
Compartilhar
Imagem ilustrativa da imagem Número de ambulantes cresce e engrossa mercado informal como meio de sobrevivência
-

Luana Priscila tem 28 anos, é casada e mãe de uma menina. Todos os dias sai de casa para ficar numa banca espremida na rua que dá acesso à Praça Palmares, no centro de Maceió, local ocupado há mais de oito anos pelos camelôs. Não completou o Ensino Fundamental e revela que nunca conseguiu trabalhar com a carteira assinada. Sobrevive como ambulante desde que se entende por gente e está no contingente dos cerca de 40% dos brasileiros ocupados que atuam no mercado informal, segundo pesquisa do IBGE.

Ela diz que até tentou trabalhar numa empresa, mas foi enganada. Passou três meses numa loja de celular sob a promessa de que seus direitos como trabalhadora seriam respeitados e saiu de lá com uma mão na frente e outra atrás. E o pior: sem o contrato anotado na CPTS [Carteira de Trabalho e Previdência Social].

Após a frustração, preparou uma pilha de currículos (mesmo sem qualquer experiência) e sonhou com uma vaga. Espalhou a papelada em diversas empresas, a maioria do comércio, mas revela que nunca foi chamada e nem teve a oportunidade de participar de uma seleção de trabalho.

Casou, teve uma filha e, sem emprego, foi obrigada a seguir o caminho da informalidade. Sem estudos, ficou com poucas opções também de galgar uma posição melhor de inserção no mercado. O jeito foi vender capas de celular e calculadoras no calçadão do comércio. Como esta área não pode ser ocupada, dentro do que prevê o ordenamento do centro de Maceió, Luana conseguiu um espaço na rua e está lá desde que o início da ocupação.

Shorts Youtube
Play
Caso Nayane: laudo do IML não encontra sinais de violência, mas investigação continua

Caso Nayane: laudo do IML não encontra sinais de violência, mas investigação continua

Play
Gari de 31 anos é morto a tiros no Vergel do Lago, em Maceió

Gari de 31 anos é morto a tiros no Vergel do Lago, em Maceió

Play
Acidente mata agente comunitária de saúde em Palmeira dos Índios

Acidente mata agente comunitária de saúde em Palmeira dos Índios

Play
Soluções defensivas do CRB - 30/07/2026

Soluções defensivas do CRB - 30/07/2026

Play
Datas das quartas de finais da Série D definidas - 30/07/2026

Datas das quartas de finais da Série D definidas - 30/07/2026

O marido dela também trabalha por conta própria. É taxista e complementa a renda familiar, que é curta. “Sobreviver apenas desta banca não dá, mas eu não tenho outra opção”, confessa. A jovem admite estar acomodada e diz que é seria mais difícil, agora, retomar os estudos e procurar outro emprego.“Tem gente que estuda tanto, faz cursos e mais cursos e, mesmo assim, não consegue um trabalho certo. Pelo menos aqui eu tiro meu dinheiro”, avalia.

Em frente à banca de Luana, Eliane Nascimento, de 38 anos, mantém o seu negócio. Vende roupas há 15 anos no comércio de Maceió, sempre em banquinhas. Ela faz questão de dizer que jamais conseguiria trabalhar em uma empresa formal por gostar de ser dona do próprio nariz, sendo impossível admitir ser comandada por terceiros.

Mesmo durona e demonstrando estar convicta do que pensa, Eliane já tentou, uma vez na vida, mudar de área. Incentivada pelo cunhado, fez curso técnico de Radiologia, com duração de 1 ano e 8 meses. Estagiou no Hospital Universitário e foi durante a vivência profissional que ela diz que se sentiu um ‘peixe fora d´água’.

“Eu não gosto de ver fraturas e tenho dificuldades em lidar com acidentes de trânsito. Como eu seria uma boa radiologista e poderia atuar na área? Realmente, não me identifiquei com o curso. Mesmo assim, conclui e deixei pra lá. Preferi continuar atuando como ambulante”, destaca.

O tempo passou e Eliane garante que não se arrepende de nada. Apesar de não pensar em mudar de negócio, ela revela que tem interesse em realizar um sonho: fazer um curso de corte/costura. Seria uma maneira, como avalia, em unir a sobrevivência com o amor por costurar. Se isto acontecer, assegura que jamais abandonará a venda de roupas e relógios.

Sobre a rotina, reconhece que o trabalho é duro, cansativo, mas prazeroso. “É justamente com este negócio que eu consigo pagar minhas contas, sustentar minhas duas filhas e mantê-las, inclusive, em colégios particulares. Estou acostumada com o que faço e gosto da informalidade”, assume.

Curiosamente, a ambulante revela que é casada com um porteiro (tem emprego formal), porém o marido tem um pé no mercado informal também. Atua como motorista de transporte por aplicativo e o que tira por mês dá para complementar o orçamento familiar. “Mesmo assim, eu não conto muito com o dinheiro do meu marido. Confio mais do que ganho aqui na banca”, revela.

CAMELÔ ABRIU MÃO DE EMPREGO FORMAL

Diferente das outras colegas de batente, Lucélia Veríssimo já trabalhou de carteira assinada durante seis anos, em uma ótica, e pediu as contas ao perder a paciência com a rotina e com as cobranças que enfrentava. Fez um acordo com a empresa, abriu mão da multa de 40% no ato da rescisão e conseguiu a liberação do FGTS [Fundo de Garantia por Tempo de Serviço]. Recebeu o seguro-desemprego e pouco tempo depois pediu para o marido, que já era ambulante, abrir uma banca para ela no centro da capital.

Já se passaram 10 anos desde que tomou a decisão de sair do mercado formal. Questionada se a mudança interferiu no seu bem-estar ou gerou algum tipo de arrependimento, Lucélia é rápida na resposta. “Estou muito aliviada e leve. Não aguentava mais ter que conviver na empresa, sendo submetida a várias regras e com todos os meus passos vigiados. Se eu fizesse algo errado, meu salário era descontado”.

Ela conta que decidiu ser ambulante por presenciar, em casa, o exemplo do esposo, que sempre atuou neste ramo e no comércio da cidade. Então, para conseguir montar uma banca foi mais fácil. Já sabia até onde conseguir as mercadorias a serem comercializadas. E, segundo a camelô, o negócio está indo bem.

Como meta, diz que pensa em montar uma loja. Para isso, admite que precisa fazer reserva de caixa (ainda não conseguiu). “É um sonho que meu esposo e eu temos, mas não é para agora. Vamos organizar melhor as contas, guardar um pouco de dinheiro e investir mais à frente”.

Lucélia mora em Marechal Deodoro e vem todos os dias para Maceió. Tem dois filhos (de 11 e 9 anos) que estudam em colégios particulares, cujas mensalidades são pagas, de acordo com ela, com o dinheiro que o casal ganha na atividade que desempenha. “Meus filhos sabem do nosso sacrifício diário, embora saibam que a gente gosta muito do que fazemos. Porém, sonho que eles tenham um emprego fixo e não sigam o nosso exemplo”.

DESEMPREGO E REFORMA TRABALHISTA ALAVANCARAM A INFORMALIDADE

Embora as três personagens ouvidas estejam no ramo há anos, é cada vez maior o número de brasileiros na informalidade. Os economistas Rômulo Sales e Lucas Barros explicam que o crescimento em virtude do desemprego e a incerteza da economia mundial, além de ser uma consequência da reforma trabalhista, aprovada há dois anos, no governo de Michel Temer (MDB).

Alimentação, beleza, estética e oficinas mecânicas seriam as áreas mais procuradas pelos interessados no mercado informal. E são escolhidos por alguns destes necessitarem de baixo investimento e baixa qualificação.

“A tendência é que se sinta, ano após ano, as medidas desta política econômica adotada lá atrás, que valoriza a diminuição e perdas dos direitos trabalhistas. Na contramão, percebemos o aumento da informalidade com o incentivo do próprio governo, levando em consideração que a política de formalização do trabalho não é incentivo de geração de novos empregos, qualificação dos trabalhadores, incentivo de crédito para desenvolvimento de novas indústrias, pelo contrário, é o regulamento do trabalho informal, a exemplo do MEI”, opina Lucas Barros.

Para Rômulo Sales, os brasileiros não estão optando pela informalidade, mas a necessidade os obriga a seguir por este caminho. “Alto nível desemprego tanto local como em nível nacional faz com que as pessoas procurem alternativas de ganhar dinheiro”.

Por outro lado, ele explica, no caso dos ambulantes, que a única vantagem que observa em atuar nesta atividade, superficialmente falando, é continuar tendo dinheiro para honrar com seus compromissos. “Ademais, a informalidade carrega em si um nível de precariedade das condições de trabalho que de forma geral, o mercado formal tende a eliminar através das leis trabalhistas”, completa.

Lucas Barros acredita que o nível de informalidade deve continuar crescendo em Alagoas e um dos motivos é a desindustrialização. “A gente sabe que as indústrias geram mais empregos formais. Alagoas tem uma malha industrial pequena, mas, em compensação, tem um percentual grande de trabalhadores no setor industrial. Não há, no entanto, uma política de industrialização, sobretudo aqui no Estado”.

Ele se diz preocupado com a romantização do trabalho informal. “Claro que é um trabalho honesto, digno, suado, mas estas pessoas estão sem opção de emprego formal”.

MUNICÍPIO FISCALIZA ATUAÇÃO DE AMBULANTES

A Secretaria Municipal de Segurança Comunitária e Convívio Social (Semscs) confirmou que é cada vez maior a quantidade de pedido de permissões para ambulantes em Maceió. O número exato de pessoas que atuam ainda está sendo contabilizado pelo Município, inclusive com a atualização do sistema, mas é possível afirmar que os camelôs se espalharam pela cidade.

O órgão admite que muitos que pedem permissão para atuar como ambulantes enfrentam problemas sociais, como o desemprego. “Dessa forma, estão sempre surgindo novos ambulantes, o que não ocorre exclusivamente no centro da cidade, mas em vários bairros. Para disciplinar, são consideradas as características de cada região administrativa e legislação vigente. Infelizmente, essa é uma situação comum em vários centros urbanos brasileiros”, destaca a Semscs, por meio de nota.

De acordo com a secretaria, no ano passado, foram averiguados mais de 1.600 processos (dentre pedidos de permissão, denúncias, notificações e penalidades) só no setor de fiscalização de ambulantes. O número tem aumentado a cada ano.

E, falando em sanções, também é grande o percentual de ambulantes que descumprem as regras e, por isso, são punidos. As penalidades previstas por lei podem ser advertência, perda da licença, multa, apreensão de equipamentos e produtos, dependendo de cada caso, além de multas, previstas pelo Código Tributário Municipal.

A secretaria informa que a fiscalização atua por meio de notificações e autos de infração, que geram processos administrativos e, após análise, podem resultar na aplicação de penalidades. Todavia, a depender da infração, a legislação administrativa permite a atuação imediata, como, por exemplo, a apreensão de mercadorias e equipamentos. É o atributo de autoexecutoriedade do poder de polícia da Administração Pública, que permite a aplicação de medidas e sanções necessárias à repressão de atividades lesivas ao interesse público.

O controle dos ambulantes em toda capital é realizado pela equipe de fiscalização de posturas, por meio de denúncia e por ações preventivas e de ofício. Na região dos calçadões do Centro de Maceió, a atividade ambulante é proibida por lei.

Quem tiver interesse em realizar esse tipo de atividade, precisa solicitar autorização no órgão de licenciamento municipal que, em Maceió, é Semscs. Para isso, é necessário levar originais e cópias de documento de identificação válido com foto, CPF, comprovante de residência na cidade de Maceió, ser maior de 18 anos e estar adimplente com as taxas municipais referentes à atividade.

O interessado preenche um requerimento com informações, como: produto a ser comercializado, local, horário, equipamento a ser utilizado, depois o processo é avaliado pela fiscalização. Nos casos em que o pedido é deferido, o solicitante recebe uma licença, que pode ser renovada sempre. O ambulante autorizado também é orientado quanto às normas que deve cumprir e, caso descumpra o acordo da licença, pode perder a autorização emitida.

A secretaria informa que o calçadão está ordenado e ações de manutenção são realizadas diariamente para garantir acessibilidade e mobilidade no local. O ordenamento das ruas do entorno do calçadão já está em planejamento e, nos próximos dias, vai chegar à Rua do Comércio para melhorar a mobilidade no corredor de ônibus.

Relacionadas