Cidades
Moradores dizem que s� agora foram descobertos
A maioria das mães perdeu filhos por causa da desnutrição. ?Toda casa já mandou seus ?anjinhos? pro colo de Nosso Senhor, num tem jeito?, conta o agricultor João Bertoldo, 76, que viu escapar oito de seus 15 filhos. Guaribas nunca teve hospital ou médico. ?Vi muita gente sendo retirada numa rede, carregada por homens nesses serrotes acima até chegar em um lugar que tivesse um carro para tentar salvar até uma cidade mais próxima?, conta Orlando Rocha. O município ainda não tem hospital, mas agora conta com visita de médicos, o que é outra grande novidade. Novidade é o que não falta em na Guaribas descoberta em 2003, como relatam os moradores. Durante os festejos juninos, além da Rádio Esperança, a cidade assistiu à abertura da primeira lanchonete. Dias antes, havia sido aberto um salão de beleza pioneiro na região. ?Com chapinha japonesa e tudo?, anunciam os donos. Por causa de uma agência dos Correios, inaugurada também este ano, os aposentados e as famílias beneficiadas com programas sociais do governo não carecem mais de enfrentar a estrada de terra até Caracol ou São Raimundo Nonato, a quase 200 quilômetros dali. As construções também chamam a atenção à frente dos serrotes rasgados de pedra que enfeitam a paisagem da cidade. Um mercado municipal e 66 casas populares estão sendo levantados como parte do programa de desenvolvimento. ?Vocês vieram ver que a gente virou gente, né??, indaga Lídio Duarte Rocha, 27 anos. Ele trabalha como pedreiro em uma das casas, logo atrás de uma placa do Banco do Nordeste que anuncia a chegada à cidade do Fome Zero. Com jeitão de lenda, os moradores contam histórias curiosas sobre a repercussão da fama do município fora da região. ?A polícia, outro dia, em São Paulo, já ia prender um rapazinho. Mas quando ele mostrou os documentos e viram que era de Guaribas, ah!, meu filho, mudou tudo, pediram desculpas até demais, pois era um cidadão da cidade mais ?precisada? do Brasil?, narra o bom contador de histórias Orlando Rocha, com juras de veracidade que se sustentam e se encaracolam nos seus respeitáveis cabelos brancos. As novidades repercutem nas localidades vizinhas. Acostumados a receber os moradores de Guaribas para compras, os comerciantes de Caracol agora é que seguem até lá. Promovem feiras nas ruas, com suas mercadorias. ?As coisas estão vindo até nós?, diz dona Tereza Rocha. ?Às vezes eu fico bestinha com o que anda acontecendo, parece que chegou a nossa vez. Ninguém descobriu o céu, mas que a gente agora é gente ninguém pode negar. E isso pode ser pouco para quem vive no bem bom, mas pra nós não é não, senhor?.