Cidades
Comunidade quilombola quer estar no mapa da fome
Se a Guaribas piauiense, cidade piloto do programa Fome Zero, foi colocada no mapa, como dizem seus moradores, a sua xará pernambucana ainda aguarda a hora e a vez. Uma espera que se arrasta desde o século XIX, quando lá chegaram os primeiros negros que fugiam dos engenhos da região e formaram essa comunidade quilombola encravada em um pé-de-serra de Bezerros, no agreste do Estado. Da sede do município até o povoado são cerca de quarenta quilômetros. Nas ruas, ninguém dá notícia da localidade. ?Sei não senhor, sei não senhor, sei não senhor?, respondem os moradores, sempre depois daquele paciente gesto de passar a mão no queixo para matutar. No guia rodoviário também não consta. Mesmo com a proximidade, é difícil encontrar uma viva alma que saiba o rumo. Já chegou carro por lá, mas nessa ocasião, com a piora de uma estrada que já era ruim, não foi possível. Guaribas de Baixo, como é chamada, ainda é um pedaço de terra arrodeado por preconceito e abandono por todos os lados. ?Ah, vocês vão lá na favela? Lá é perigoso, outro dia mataram dois?, diz uma senhora da vizinhança, que faz questão de delimitar os territórios. ?Olhe, aqui é Guaribas de Cima, a Guaribas deles começa bem ali?, faz o gesto com os beiços. Um cartaz na porta de uma casa, lembrança do II Encontro das Comunidades Quilombolas de Pernambuco, realizado este ano em Conceição das Crioulas (leia texto nesta página), não deixa dúvidas. ?É Guariba de Baixo, sim senhor?, confirma Flávio José da Silva, 13, filho de uma das 52 famílias remanescentes de escravos que moram no local. Morte por ali, só morte morrida, como dão notícia os próprios viventes do local. Pode-se dormir de portas e janelas escancaradas, como muita gente faz ainda em dias mais abafados pelo calor. Ladrões, nem de galinhas - essa gente só é conhecida pelas poucas televisões que existem nos arredores. Silva, Souza e Santos Os Silva, como Flávio, os Souza, como seu primo Pedro, 11, e os Santos, como a prima Josilene, de 26, formam o povoado. Quase todos são parentes entre si, como conta Maria Isabel da Conceição, 61, mãe de Josilene. ?Netos e bisnetos do sofrimento de muito antigamente, nossa sina vem de longe, das moendas e do ?carrasquismo? dos engenhos?, diz a xará da princesa que assinou a dita Lei Áurea, em 1888. ?Agora é tudo livre, mas os direitos são poucos. A gente ainda apanha muito da vida?. A favela é uma pequena fileira de casas de taipa e de tijolos. Mais adiante, um campo de futebol onde os meninos apostam iguarias. Ao vencedor, doces e bolo de milho. O time tem ginga de um Camarões, narra José Levino Luís da Silva, 14, um dos organizadores dos embates. Sandro Lido de Souza, 28, é o presidente da Associação dos Moradores do povoado quilombola. Representa Guaribas nos encontros políticos nos quais se discute a situação dos remanescentes. E se preocupa em não deixar apagar a memória dos antepassados. ?A peleja que vivemos tem uma origem histórica, os mais jovens precisam ser lembrados disso sempre?, diz. Choveu muito na região este ano. O Agreste anda verde, quase a desmentir a vocação geográfica para as dificuldades. É tanto sapo na lagoa ao lado que o ?foi-não-foi? da cantoria encobre a conversa. Terreno molhado, mas ainda alheio, não representa fartura. ?Não temos a posse da terra, o que nos obriga a plantar em pequenas áreas cedidas pelos outros?, intervém Valdemar Lido de Souza, 65, pai de Sandro e mais 15 filhos. A maioria dos pais de família trabalha ?alugado? aos proprietários da região. Um dia de serviço, quando muito, sai por R$ 8. E não tem vaga para todo mundo. Com a mão-de-obra em excesso, alguns fazendeiros abaixam o pagamento para R$ 5, R$ 6. A velha chantagem do pegar ou largar. ?Cuidar do que é dos outros é perder um tempo danado?, matuta o agricultor Lido de Souza. O título da terra é uma demora. O processo, iniciado em 1996, com a assinatura de decreto pelo governo do Estado, perdeu-se na burocracia. ?Mas nada pra nós é fácil, nunca foi?, lembra da sua herança o presidente da associação de moradores. ?Embora o que se pretende é apenas que se devolva o que já foi nosso?. Chegada do Fome Zero No mapa da insegurança alimentar, a Guaribas pernambucana está escalada para fazer parte do programa Fome Zero a partir deste mês. Com a comunidade, entram também os outros povoados quilombolas do Estado: Imbé, no município de Capoeiras; Negros de Jilú, em Itacurubá; Conceição das Crioulas, em Salgueiro; Serrote do Gado Brabo e Sítio Caldeirãozinho, ambas em São Bento do Una. O programa vai atender, inicialmente, 142 comunidades de remanescentes de quilombos em todo o País. São 15 mil famílias, estabelece o acordo firmado entre o Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e a Fundação Cultural Palmares. Os líderes de Guaribas apostam na ajuda emergencial do cartão-alimentação, com R$ 50 para as famílias mais necessitadas, como meio de reduzir o problema do alto número de crianças desnutridas na área. Não existe estatística sobre o assunto, mas vê-se, de forma explícita, nos olhos esbugalhados de meninos e meninas daquele corte do território Agreste. ?Perdi a conta do que já vi de criança virar os ?zoinhos? por aqui?, relembra Maria Isabel da Conceição, uma das moradoras mais antigas. ?Muitas vezes por falta de uma besteirinha de nada, uma sustançazinha de nada, uma ?peinha? de nada?.