Cidades
Deficientes visuais quebram tabus sobre sexualidade
Percebendo a necessidade de promover uma reflexão na sociedade e nos próprios deficientes visuais, que são os mais interessados no tema, a Secretaria Executiva de Educação (SEE), por intermédio do Programa de Educação Especial (Proeesp) promoveu, na Escola de Cegos Cyro Accioly ? única em Alagoas a atender pessoas que possuem comprometimento visual ? uma mesa-redonda com o tema ?Sexualidade e Relacionamento Homem x Mulher?, que teve como palestrantes o professor da própria unidade de ensino, José Cícero Tenório, e o psicólogo Jorgeval Farias. Na concepção de Jorgeval Farias, a perplexidade diante de um casal de deficientes visuais centra-se em torno da sexualidade, já que a sociedade ainda busca compreender como ocorre a prática sexual entre os que não enxergam. ?Os órgãos genitais não são a única expressão da sexualidade, isso porque, qualquer região do corpo é suscetível ao prazer sexual, mesmo sem a união genital. Para aqueles que têm a visão perfeita, a imagem aflora o desejo, já os que não enxergam passam a desenvolver outras formas de despertá-lo?, afirma ele, fazendo um alerta aos pais e professores de portadores de deficiência visual, que na maioria das vezes ?educam? os filhos e alunos passando aos mesmos a idéia de incapacidade, inabilidade, insegurança e gerando um clima de dependência ? o que os leva a se considerar assexuados. Mas o casal Karla Blekson, 25, e Sérgio Rodrigo, 23, ambos acometidos pelo glaucoma, jamais reprimiram seus sentimentos ? conseqüência da orientação sexual adequada que receberam pela equipe pedagógica da Cyro Accioly. Eles contam que suas afinidades foram o pontapé inicial para o início do romance, que já dura cinco anos. ?No início, ela relutava em namorar comigo, mas depois de três meses minha persistência a convenceu?, relembra Rodrigo, aconselhando os deficientes como ele a expressarem seus sentimentos. ?Não podemos permitir que a sociedade que venera gente bonita seja intolerável com aqueles que não enxergam?, reitera o jovem apaixonado. Preocupação Acerca da sexualidade e formação dos portadores de deficiência visual - focalizada por Farias - a diretora da Cyro Accioly relata que a preocupação da equipe pedagógica tem sido inserir os Portadores de Deficiência Visual (PDV), no ambiente social, trabalhando suas potencialidades e os orientando para que levem uma vida normal, inclusive no aspecto relacionado à sexualidade. ?Não os instigamos, e sim trabalhamos com naturalidade para que se sintam integrados ao convívio social, levando-os a perceber que seu lado afetivo não deve ser camuflado?, explica Eleuza de Araújo Barros, destacando, inclusive, que infelizmente, ainda há uma resistência da sociedade com relação aos PDVs. As pessoas só se solidarizam com os cegos quando o problema atinge a própria família?, lamenta a educadora, explicando que essa é uma das razões pela qual a escola busca apresentar o trabalho desenvolvido em prol dos deficientes visuais, mostrando que, com apoio profissional, é possível conhecer e superar as barreiras e limites causados pela cegueira. ?Muitos cidadãos apresentam problemas de cegueira ou comprometimento visual, mas não nos procuram por achar que a Cyro Accioly é uma instituição particular, quando na verdade pertencemos à rede estadual de ensino e o atendimento é totalmente gratuito?, explica a diretora. Atendimento A escola trabalha com 84 portadores de deficiência visual, entre pessoas cegas ou que possuem visão subnormal. A instituição existe há 27 anos e atende até aqueles que apresentam o problema desde o nascimento, recebendo alunos antes mesmo de estes completarem o primeiro ano de vida, isso porque, quanto mais cedo forem iniciados os estímulos, melhor será o convívio com a deficiência. Os PDV também aprendem a como realizar, sozinhos, atividades da vida diária. O ensino da leitura e escrita em braile, a matemática por meio do sorobã ? método concebido para o ensino de cálculos para cegos - além da capacitação em informática são outras das atividades desenvolvidas. Em alguns casos, o aluno freqüenta o sistema regular de ensino, recebendo apenas acompanhamento da escola de cegos, que fica responsável pela transcrição das provas para o braile. Exemplo O professor da Cyro Accioly, José Cícero Tenório (54), ilustra de forma contundente o trabalho desenvolvido pela escola. Segundo ele, os casais ?considerados normais? valorizam apenas a aparência, o que não lhes dá a dimensão do quanto um simples afago e afinidades podem dar sustentação a um relacionamento. ?Nos completamos inclusive no ato sexual, porque não trato minha companheira com submissão. A sedução em minha vida matrimonial é mútua, pois quando ambos não se aceitam, a relação tem hora para começar e terminar?, afirma o historiador que se destaca também por sua paixão pela música, já que só aos 40 anos aprendeu a tocar violão - idade considerada complexa pela inflexibilidade da coordenação motora e, no caso de Cícero, o grau de dificuldade ganha maior dimensão, devido à falta de visão. Ele conta, que antes de conhecer Irismar ? sua esposa ? nunca havia se relacionado amorosamente e que ao conhecê-la, mesmo sem vê-la, apaixonou-se e passou a viver momentos de felicidade plena. ?Nossas famílias não foram contrárias ao nosso relacionamento. Os pais em nenhum momento devem reprimir os sentimentos e vocações de seus filhos, principalmente, quando não enxergam?, e sentencia ?nunca pude enxergar o rosto de meu filho e de minha esposa, nunca vi as imagens contidas nos livros de história e as letras musicais que dedilho em meu violão, mas, nem por isso, me abati e deixei de aproveitar o que a vida ofereceu. Amei, sou pai, historiador-professor, músico e feliz?, se autodenomina, emocionado. Investimento A gerente do Programa de Educação Especial da Secretaria Executiva de Educação (Proeesp/SEE), Joelina Cerqueira, informou que o atendimento aos portadores de deficiência visual avançou muito nos últimos anos, principalmente devido à preparação e à Capacitação Profissional para Cegos (CAP) ? que está previsto para ser inaugurado no fim deste mês. O CAP é resultado de uma parceria entre a SEE e o MEC, e atenderá alunos e professores. ?São equipamentos de última geração, que facilitarão a inclusão do portador de deficiência visual e atenderão todo o Estado?, comemora Cerqueira.