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Cidades Maceió, 25 de março de 2020
Miseria na favela Sururu de Capote, no bairro do Dique Estrada. Alagoas - Brasil.
Foto: ©Ailton Cruz

Na orla lagunar, preocupação é ter o que comer

Famílias que moram em favelas convivem com medo do vírus e aumento das condições de miserabilidade

Por Marcos Rodrigues | Edição do dia 28/03/2020 - Matéria atualizada em 27/03/2020 às 20h54

Maceió, 25 de março de 2020
Miseria na favela Sururu de Capote, no bairro do Dique Estrada. Alagoas - Brasil.
Foto: ©Ailton Cruz
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Miseria na favela Sururu de Capote, no bairro do Dique Estrada. Alagoas - Brasil.
Foto: ©Ailton Cruz

“Da lama ao caos”, frase cunhada pelo cantor e compositor pernambucano Chico Science, define a situação de miséria e abandono de quem mora nas favelas da orla lagunar. Sob a sombra de amendoeiras, os dias agora são mais longos para quem mal tem o que comer, já que o sururu não pode ser pescado e até as latinhas sumiram das ruas com o fechamento de bares, restaurantes, churrasquinhos e lanchonetes. A medida para evitar transmissão do coronavírus teve seus impactos de cima abaixo, sendo mais cruel onde o poder público costuma das as costas: no aglomerado de barracos à beira da lagoa.

Segundo dados oficiais da Secretaria Municipal da Assistência Social existem mais de 3 mil famílias vivendo em condições de miserabilidade sem água encanada, tratamento de esgoto e coleta de lixo regular. A região que também sofre com o tráfico, há quatro anos ganhou notoriedade por causa de um surto de “bicho-de-pé”. Hoje, o perfil social continua sendo de dependentes do Bolsa Família. Entretanto, muitos não conseguiram renová-lo. O trabalho varia com retirada de maçunim, sururu e a pesca do peixe. É comum, porém, bicos como diarista, catador de reciclável e vendedor ambulante.

Desde que o coronavírus se transformou em pandemia, até o Decreto de Fechamento de locais públicos, nenhuma autoridade pública municipal ou estadual foi oferecer alguma ajuda. Na verdade, o apelo diário na TV, rádio e internet para higiene das mãos e da casa soa vazio para quem não tem nada.

“Não temos nem água imagine esse tal álcool em gel. Ontem (terça) ganhei dois litros de água mineral de um policial do gerenciamento de crises da PM que me conhece e sabe da minha situação. E a primeira coisa que fiz foi repassar para os idosos aqui de perto e para a minha sobrinha que deu À luz Dandara de quatro meses”, disse Jackeline Gonçalves, 33 anos.

Formada em Pedagogia, mas sem emprego formal, não tem renda fixa e vive de ajuda, ao passo em que também é solidária, pois usa o conhecimento que tem para ensinar a solução de tarefas para crianças numa escolinha improvisada, sem janela, feita com compensados d e construção, portas usadas e uns banners abandonados para evitar goteiras.

Segundo Jackeline, a vida na favela é hostil, por natureza, mas cercada de apoio entre os moradores. Uns ajudam aos outros. Se falta ação coordenada dos órgãos, é o coração de cada um que fala mais alto quando o assunto é solidariedade.

“Aqui cada um conhece a dor do outro e a gente se ajuda. Eu ensino e que sei e ganho o que não tenho. Mas tem dias que a comida é cuscuz puro com café. Acho até graça quando falam em higiene se vivemos nessa situação”, completou Jack apontado para o chão.

Impacto

A conversa chama a atenção do pescador aposentado José da Silva, 53 anos. Ao se aproximar com semblante amistoso e riso fácil, foi logo entrando na conversa. Ao saber que estávamos repercutindo os efeitos sociais das ações contra o coronavírus, opinou.

“Não tenho medo. Para alguém que cresceu aqui, com o pé na lama, já sobreviveu à dengue, a uma hepatite que acabou sendo responsável por meu encosto, não tenho como ter medo. O que está me preocupando é que com o Centro fechado e os bares também, não tem nem latinha para catar. Antes estava conseguindo até R$ 20 por dia, mas agora se comer era difícil, agora tá pior”, confirmou Zé.

Ele convidou a reportagem para ir até o seu barraco. Antes de chegar, a cada passo por dentro da Favela Mundaú, vigiada por jovens que integram facção ligada ao tráfico, a areia solta e às vezes úmidas se misturava ao lixo, pedaços de brinquedo e folhas secas. No ar um cheiro forte de esgoto que cortava o chão formando desenhos tortos iguais as becos improvisados. De forma lenta e gradual a água fétida escorria para o lugar que é fonte de alimento e sustendo quase diário.

É assim com o esgoto de água servida dos barracos. Os dejetos sanitárias têm o mesmo destino, mas quando não são levados por alguns canos, são jogados dentro de sacos plásticos ou arremessados com penicos. Não existe banheiro. Quando muito, um espaço um pouco isolado que ao mesmo tempo serve para banho e fazer as necessidades fisiológicas.

No barraco do catador de reciclável José da Silva não é diferente. O espaço quente, de 3m x 7m com um amontoado de roupas em cima de uma mesa, ao centro, ele revirava algumas peças para tentar diminuir o volume. Mais adiante mostrou, dentro de um móvel velho, usado como despensa, só tinha açúcar, café uns pedaços de pão e cuscuz para enfrentar mais uma noite ao lado da esposa.

"Quase sempre não sei como vai ser a minha comida durante o dia. Quando estava catando lata, muitas vezes pessoas que conheço e que sabem do meu sofrimento me doavam alimentos para cozinhar à lenha. De outras ganhava alguma quentinha de um ou outro lugar que já garantia o almoço. Quem tem fé em Deus tem alegria no coração", completou Zé que mesmo com enormes dificuldades manteve sempre um sorriso espontâneo.

A hepatite que adquiriu devido a anos de vida sem higiene adequada e a poluição da lagoa é tratada com remédios comprados. O valor sai de uma aposentadoria que se esvai rápido por causa das cinco pessoas que moram com ele.

Comida

Muito mais que higiene, a preocupação de todos é com a comida. E isso passou a ser maior com o fechamento das escolas municipais. A dona de casa Adriana Pereira da Silva, 27 anos, é um exemplo. Desempregada, ela vive dos bicos que o marido faz com uma carroça. Para complicar, um irmão que antes a ajudava também está desempregado. Mãe de dois filhos, 5 e 7 anos, o fechamento das escolhas lhe deu mais dor de cabeça.

“Com a escola fechada por causa da doença, a comida que antes eles tinham com a merenda, que era a principal refeição do dia, deixou de existir. Agora somos nós que temos de nos virar para arrumar”, disse a mulher com olhar meio desolado.

A rotina diária, que incluía um pouco de tranquilidade com a presença das crianças na escola, agora dá lugar a uma vigilância permanente, já que, junto com outras tantas, elas brincam entre os barracos.

Solidariedade

Maceió, 25 de março de 2020
Miseria na favela Sururu de Capote, no bairro do Dique Estrada. Alagoas - Brasil.
Foto: ©Ailton Cruz
Maceió, 25 de março de 2020 Miseria na favela Sururu de Capote, no bairro do Dique Estrada. Alagoas - Brasil. Foto: ©Ailton Cruz - Foto: © Ailton Cruz
 


A solidão e o abandono só não são maiores que o instinto de solidariedade da ONG Instituto MandaVer, comandada por Carlos Jorge, um jovem que decidiu virar o jogo e acreditar na força da periferia. Depois de cinco anos de existência, essa foi a primeira vez que ficou impedido de atender crianças e os adolescentes. Foi aí que viu na obrigação de fazer algo.

“Colocamos um anúncio em nossa rede social @mandaverorg na quinta-feira (19) e, a partir daí foram surgindo várias doações de alimentos pré-cozidos ou embutidos e material de limpeza, além de higiene pessoal. Desde então temos nos dedicado a receber em nossa sede ou ir buscar na casa das pessoas”, disse Carlos Jorge.

A meta era formar 470 cestas. Até o final da semana passada, mais de 300 já haviam sido montadas. Quanto ao detalhe de serem alimentos pré-cozidos a explicação é simples: as pessoas não têm botijão de gás. Com a perda do Bolsa Família, algumas ficaram sem condições de comprar. Por isso a cena comum entre os barracos é o cozimento num fogãozinho improvisado com tijolos ou paralelepípedo com uma pequena grade improvisada de metal.

“Tivemos que tomar essa atitude porque as demais organizações também ficaram impedidas de trabalhar, e aí as crianças e adolescentes iam ficar em situação ainda muito difícil. Em nossa sede nós atendemos pessoas em situação de muita pobreza, mas com um incrível potencial. Nossa missão não é o alimento, aqui é um socorro imediato, nossa missão é promover a inclusão deles no mercado de trabalho por meio da formação em cursos técnicos”, disse Carlos.

Esse seu olhar diferenciado para a região do Vergel do Lago lhe rendeu o reconhecimento nacional da Gerando Falcões, que lhe deu formação, o aproximou dos grandes apoiadores nacionais e o aproximou de empresas com visão social. Graças a ele e sua equipe, a “onda” solidária da última semana colocou comida dentro da casa de algumas famílias.

Tanto envolvimento com a comunidade ganhou o mundo e até mesmo no programa do Caldeirão do Huck. Há três semanas o próprio apresentador Luciano Huck esteve em Maceió e de surpresa quis conhecer o público e personagens com quem o MandaVer trabalhavam. O cenário de miséria generalizada mexeu com ele. Possivelmente no próximo mês a história será contada em rede nacional.

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