Cidades
Escudo humano na Guerra do Iraque prepara livro
ANA MÁRCIA O jornalista Cláudio Bulgarelli, ex-repórter da GAZETA DE ALAGOAS, foi o único escudo humano brasileiro que se encontrava no Iraque na madrugada de 20 de março, quando iniciava a guerra de Bush contra Saddam Hussein e os iraquianos. Contatado pela Rede Globo, foi tema de uma reportagem de encerramento do Fantástico e relatou, por telefone, nas duas primeiras semanas, momentos de medo e fúria. Da experiência, iniciada em 15 de fevereiro em Roma, numa manifestação contra a guerra que reuniu três milhões de pessoas, entre as quais 80 pacifistas que também viraram escudo humano, ele reúne material para lançar um livro com 150 fotos; uma exposição fotográfica e a realização de conferências. ?Foi uma vivência humana incomparável e como experiência profissional estou analisando estes projetos por acreditar na importância de expô-los?, disse Cláudio Bulgarelli, que está em busca de patrocinadores, faculdades ou empresas interessadas. Durante a guerra, passou praticamente duas semanas entre Bagadá e Ar Ramadi, antes de conseguir sair do Iraque. Após um mês de sua saída e a três semanas do fim da guerra, voltou ao país para dar continuidade ao trabalho de cobertura jornalística. A viagem rumo à guerra, como escudo humano, começou em 17 de março, em Damasco, na Síria, onde conseguiu visto iraquiano no passaporte vermelho da União Européia. ?Um motorista-guia e 200 dólares nos levaram a Abu Kamal. Mais 1.300 km de Damasco a Bagdá, muitos dos quais margeando o Rio Eufrates e o deserto siriano e o palpitar contínuo e assustado do coração com a proximidade da fronteira?, relata Bulgarelli. Na fronteira se descobre que a situação era dramática em Bagdá. Militares, segundo sua descrição, nada simpáticos, impedem a entrada de máquina fotográfica e celular via satélite, mas o grupo decide entrar com os equipamentos escondidos, mesmo correndo risco, para não abrir mão do único contato com o resto do mundo. No dia 20 de março ele estava em Bagdá quando a guerra começou. No terceiro dia, durante a madrugada, uma bomba cai próximo ao hotel onde os escudos humanos estão hospedados. Caso se aproximasse um pouco mais, seria o fim de todos eles. ?No terceiro dia em Bagdá descobri que o pior de uma guerra é tentar dormir, tornando-se quase uma operação de guerra?, diz. O furioso e violento domingo com bombas atingindo populações civis, causando mortes e feridos, obriga o grupo a deixar Bagdá. Eles seguem para Ar Ramadi, retornando para Bagdá, quando Bush anuncia o fim da guerra. Cláudio Bulgarelli, natural do Espírito Santo, mas vivendo hoje entre Roma e Alagoas, é um viajante nato. Ele prepara conferências sobre três temas. Inicialmente, pretende apresentar a Guerra do Jornalismo, mostrando os últimos 150 anos de guerras no mundo, sobretudo a do Iraque, que matou 17 jornalistas e 10 mil civis. A outra abordará a Guerra do Turismo, que desde o episódio do 11 de setembro, nos Estados Unidos tem levado à falência companhias aéreas, abordando, ainda, os 46 conflitos mundiais hoje existentes no mundo. O terceiro tema será Guerra e Sobrevivência ? Escudos Humanos, falando sobre a experiência vivida pelo grupo. Para continuar suas viagens, Bulgarelli prepara para janeiro, um documentário a ser produzido para uma emissora de televisão italiana, sobre o sertão do Nordeste: de Nossa Senhora da Lapa a Sete Cidades, no Piauí, contando a história de Canudos e Angicos, entre outras. Ele pretende fazer o percurso a pé, passando pelo Raso da Catarina, onde está o único exemplar do mundo da espécie Ararinha Azul e chegando a Souza, no vale onde se estuda as pegadas de dinossauros. Ele garante, porém, que voltará à área de guerra, desta vez para a região do conflito entre Índia e Paquistão, onde pretende percorrer os 800 km de linha de controle que divide os dois países, em guerra há 50 anos. Contatos podem ser feitos pelo site: [email protected]