Cidades
ALAGOANOS NO EXTERIOR RELATAM IMPACTO DA PANDEMIA NO DIA A DIA
Cerca de 1,6 milhão de brasileiros vive fora do país e também teve de se adaptar às medidas de distanciamento social
Levar uma vida financeiramente mais tranquila, num lugar onde a economia seja mais desenvolvida, é o sonho e a posterior realidade de muitos brasileiros. Sonho quando se fala nos jovens, uma vez que, segundo sondagem do Datafolha, em junho de 2018, 62% dos brasileiros entre 16 e 24 anos gostariam de sair do Brasil. Realidade, quando se leva em conta o 1,6 milhão de nativos que viviam no exterior no primeiro semestre de 2017 - não se tem dados muito precisos, mas este é o número que aponta o Relatório Internacional de Migração de Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (Desa). Em meio à pandemia que transformou a rotina no mundo inteiro, a Gazeta de Alagoas foi em busca dos alagoanos que vivem fora do país para entender como eles têm encarado a situação.
Eduardo Ferreira, de 29 anos, é um dos conterrâneos no exterior. Natural de Maceió, ele é piloto de avião, modelo, e atualmente trabalha com delivery. Mora há quatro anos em Los Angeles, na Califórnia. A rotina na quarentena, claro, tem sido diferente, mas ele tem encontrado conforto. “Estamos proibidos de sair de casa e está praticamente tudo fechado. Saio para, no máximo, andar de bicicleta, correr na praia e comprar alguma comida. Ainda tenho meus pais aqui comigo, o que ajuda ainda mais neste momento, mas, sempre sentimos falta do restante da família… Estamos sempre nos comunicando por videochamadas e pelas redes sociais, o importante é que todos se mantenham em casa”.
Ele conta que, onde vive, grande parte das pessoas tem respeitado as recomendações das autoridades de Saúde. Contudo, ainda existem os que insistem em não entender a gravidade da pandemia. “Posso falar que 70% das pessoas estão conscientes, até pela educação e respeito ao próximo. Estão sempre usando máscaras e respeitando o distanciamento social. Claro que sempre tem algumas pessoas que têm dificuldade de se manter em casa e tenta viver uma vida normal. Infelizmente, só irão sentir a gravidade do que está acontecendo quando acontecer algo pior com alguém da família ou conhecido”.
Na Califórnia, o bloqueio total foi estendido até agosto. Eduardo, acompanhando tudo de perto, espera que as medidas consigam fazer as pessoas entenderem que não há outra forma mais eficaz, até o momento, de conter o coronavírus. “Esta semana tivemos a notícia de que o lockdown [bloqueio total] foi prorrogado até agosto. Essa foi a terceira prorrogação e, se continuarem desrespeitando as leis, pode continuar se prorrogando. Então, espero que a população leve mais à sério e passe a respeitar mais as regras. Isso foi feito para a saúde de cada um, para que possamos sair dessa o mais rápido possível, e vivos. Basta respeitar as regras, para o bem de cada um”.
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Glória Damasceno também é de Alagoas e mora em Chicago, no estado de Illinois, há três anos. Sua rotina profissional é dividida entre o trabalho como jornalista freelancer e para uma livraria.
“A minha rotina, claro, com a chegada implacável da pandemia do coronavírus, passou a ser basicamente virtual. Quase todo o contato com a clientela é por email ou ligação - no meu caso, já que não estou na livraria para viabilizar a entrega dos livros, por exemplo. Há outra funcionária por lá obedecendo a todas as recomendações de segurança/sanitária da OMS”, conta.
Em Illinois, o governador J.B. Pritzker flexibilizou a quarentena para os negócios considerados não-essenciais, como os serviços de cuidados com animais, por meio do último decreto publicado no final de abril. Os estabelecimentos precisam seguir rigorosamente às orientações da Organização Mundial da Saúde. Alguns parques estaduais também estão voltando, gradualmente, a abrir, porém, sem programação para eventos, como os que acontecem em todo o verão, comuns por lá.
Glória mora sozinha, entretanto, por causa da quarentena, resolveu ficar com amigos, para o caso de precisar de ajuda imediata. Ela relata que a situação tem sido tranquila, no geral, vendo as ruas cada vez mais desertas, com menos pessoas sem máscaras. “Os mercados gradualmente foram adotando o protocolo de segurança da OMS, e as ruas do subúrbio em que estou passando a quarentena têm estado bem desertas. Mas há dias e dias, uma vez que o verão se aproxima e traz aquela sensação de que ‘tá tudo bem lá fora’, então por que não dar uma voltinha? E aí, acaba meio que ‘todo mundo’ tendo a mesma ideia e provocando aglomeração mais ou menos densa à beira do lago, principalmente”, explica.
Eduardo Vieira é Relações Públicas de uma agência de intercâmbio e vive com a esposa Natália Normande em Melbourne, capital do estado de Victoria, na Austrália, há pouco mais de um ano. Também foi para o exterior para aprender inglês e estudar Mídias Sociais, além de querer uma experiência diferente, numa outra cultura. No lugar que se tornou sua segunda casa, Vieira conta que o governo local tem se preocupado principalmente com as condições de vida de seus habitantes.
“Aqui na Austrália todos levaram muito a sério o isolamento social. Já estou há quase dois meses trabalhando de casa. Restaurantes, bares e cafés estão fechados por esse mesmo período, funcionando só para delivery. As pessoas estão usando máscaras, algumas até luva. Todo lugar que vamos tem álcool em gel na entrada. O governo tem ajudado as empresas com auxílios financeiros e fiscais, também tem ajudado os trabalhadores australianos que perderam seus empregos e, agora, também vai ajudar os estudantes internacionais, onde eu me enquadro, que são muitos por aqui. A preocupação com a economia é grande, mas a vida é mais importante que tudo, é isso que o governo daqui tem adotado e tem feito sua parte para amortecer a crise o máximo possível, e é isso que o governo brasileiro deveria fazer também”, defende ele.
PREOCUPAÇÃO COM A FAMÍLIA
A distância dos parentes continua sendo reduzida pelo contato virtual. “Muito preocupado com todos da família, conversamos todos os dias pela Internet e sempre querendo saber como eles estão, se sentem algum sintoma, se alguém próximo teve a doença. Mas, graças a Deus, está todo mundo bem e respeitando as regras de isolamento”, relata Vieira.
“Até onde consigo alcançar virtualmente, estão quase todos cientes da gravidade dessa doença, ou seja, sabem que a ciência não trabalha com achismos ou mentiras, o que os torna mais cautelosos/responsáveis sobre suas ações no dia a dia. Mas ninguém é invencível, ninguém é ileso ao coronavírus, por mais cuidados que se tome, e menos comorbidades que se tenha. Além disso, e em especial, este não é um momento para pensar apenas em quem ‘eu’ amo, em mim. Então, não! Não estou menos preocupada. Mais do que nunca tenho pensado nos outros - que não têm cara ou nome na minha memória afetiva”, diz Glória. “Ou nós pensamos coletivamente, como somos afinal, ou não há futuro possível para a humanidade, não um capaz de seguirmos vivendo com as mínimas condições (falo aqui da qualidade do ar, da qualidade da água). Há um planeta muito hostil à vida - não só humana - já em curso. O quão insuportável ele será depende de nós. Como li numa pixação pelo mundo afora, não me lembro exatamente onde: também não espero que o mundo volte ao normal, porque foi justamente esse ‘normal’ que nos trouxe até aqui. Espero que o mundo nasça de novo”.
Eduardo Vieira reforça a importância da prevenção contra o coronavírus. “Minha expectativa é que a ciência encontre logo uma vacina, acredito que só assim poderemos voltar a viver normalmente. Enquanto isso não acontece, temos que respeitar o isolamento social e as regras de distanciamento e higiene, só assim a gente evita que o vírus se espalhe”.