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Flexibilizar isolamento pode colapsar rede hospitalar de Alagoas

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Com uma taxa de isolamento social que deixa a desejar e quantidade de leitos aquém do ideal para atender a demanda de uma pandemia, Alagoas caminha para o colapso da rede hospitalar. O aumento de casos do novo coronavírus no interior - que não dispõe de estrutura para tratar pacientes infectados - deve refletir na capital, que já ultrapassou nos últimos dias 80% de ocupação da Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Junho, mês que deve registrar período ainda mais crítico de crescimento do número de casos de Covid-19, trouxe a angústia de quem vive a rotina nos hospitais, trabalhando, ou à espera de leito hospitalar. "É possível e provável que até o final deste mês nós não consigamos atender essa demanda originária da capital e também dos municípios do interior e o sistema de fato entra em colapso", alerta Rodrigo Cruz, médico clínico da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Memorial Arthur Ramos.

Rodrigo Cruz lembra relatórios do Comitê Científico do Consórcio Nordeste que sugerem o lockdown em cidades como Arapiraca, por exemplo. "Eu acredito que as estratégias de lockdown devem ser vistas com atenção e deve ser uma realidade em cidades do interior pela dificuldade da abertura de novos leitos. A rede hospitalar privada já atingiu seu colapso há mais de um mês, pois a gente não tem mais condições de absorver pacientes em leitos de UTI e isso reflete nas emergências que são periodicamente fechadas. Então a rede privada foi a primeira a atingir a sua saturação total", acrescenta.

De acordo com ele, atualmente os leitos do SUS têm pouco mais de 80% de ocupação. "Eu acredito que não atingiu a sua saturação completa por conta da abertura gradativa de novos leitos de UTI na rede pública, mas se a taxa de novos infectados continuar crescendo na mesma proporção, eu acredito que até metade de junho nós chegaremos ao colapso da rede pública também. Talvez os leitos abertos não sejam mais suficientes como estavam sendo", analisa o médico.

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Não é momento para flexibilizar

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| Foto: Ascom

Vitor Ramalho, diretor médico da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Benedito Bentes, reforça que Alagoas está progressivamente aumentando a taxa de ocupação dos hospitais de referência para tratamento de pacientes com Covid-19 nas últimas semanas. "Com a abertura do Hospital Metropolitano e do Hospital de Campanha do Centro de Convenções, as unidades de atendimento primário (UPA, Centros de triagem e unidades sentinela) estão com menos pacientes ficando represados, e assim, conseguindo dar um melhor suporte a população", destaca.

Há pouco mais mais de um mês, a reportagem perguntou a Vitor Ramalho sobre a necessidade de decretar lockdown em algumas regiões para frear o avanço da Covid-19. Seu posicionamento continua o mesmo, defendendo rigor no isolamento social.

"Medidas para reforço do isolamento social ainda são urgentes. Estamos em curva crescente de novos casos e vemos um aumento gradual da ocupação dos leitos hospitalares. Vendo a experiência de outros países, como Itália, Portugal, Espanha e França, observamos uma boa resposta às medidas de lockdown, como diminuição dos óbitos e do número de novos casos. Por conta disso, precisamos nos espelhar nos modelos de enfrentamento à pandemia que estão obtendo bons resultados, e que são baseados em evidências científicas, assim, prevenindo que ainda mais pessoas venham a óbito", declara.

Na opinião de Ramalho, ainda não é o momento para flexibilizar o isolamento social, que começa a ser menos rígido a partir do dia 22 de junho, conforme decreto do governo estadual. "Vemos em Alagoas, assim como em todos os outros estados do País, aumento diário no número de novos casos e óbitos. Flexibilizar o isolamento social neste momento é acentuar a curva de novos casos, e correr o risco do sistema de saúde entrar em colapso. Não conseguimos testar adequadamente pacientes, assim como não conseguimos rastrear o contágio nem controlar possíveis surtos em populações vulneráveis (idosos em abrigos, moradores de rua, pacientes psiquiátricos e detentos). Reabrir neste momento seria colocar em risco toda a população, especialmente os indivíduos que se encontram nesses grupos".

Novas vagas retardaram colapso

Segundo o médico Vitor Ramalho, até o momento a abertura das novas vagas no sistema hospitalar foi suficiente para evitar o colapso, porém, é preciso manter ou diminuir a taxa de contágio para que assim se mantenha. "No último mês observamos a abertura de novas vagas no sistema hospitalar, desafogando as unidades de atendimento primário. O crescimento da taxa de ocupação hospitalar é esperado, visto que muitos destes pacientes necessitam de longa permanência nos leitos, entretanto, até o momento estamos conseguindo dar suporte a todos que precisam", declara.

Ele reafirma a necessidade de medidas mais incisivas de isolamento social. "Me preocupa a taxa decrescente de isolamento que vamos apresentando. O esforço para que o sistema de saúde não entre em colapso tem sido coletivo, e vamos continuar trabalhando desse modo para atender da melhor forma possível toda a população que tenha necessidade e para que continue sendo possível o acesso a saúde integral para toda população alagoana", conclui.

Não é racional flexibilizar agora

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| Foto: Ascom

Para o médico do Hospital Arthur Ramos, Rodrigo Cruz, a abertura de novos leitos consegue dar um suporte até determinado ponto para os novos infectados, já que a curva tem um crescimento exponencial. "Esse crescimento a gente não consegue acompanhar com a abertura de novos leitos. A gente observou isso em maio, que a abertura de novos leitos conseguiu segurar o colapso, que ele não fosse atingido, mas a doença continua crescendo numa curva exponencial e ela vai superar o número de leitos que temos disponíveis. As medidas de isolamento e distanciamento social devem ser muito eficazes para que a nossa rede hospitalar consiga suportar a demanda que vem crescendo gradativamente", avalia.

Rodrigo Cruz ratifica que "nenhuma sociedade, nenhuma entidade, nenhum grupo de epidemiologistas considera racional neste momento flexibilizar o isolamento social. Pelo contrário, nesse momento as medidas deveriam ser de intensificar o isolamento e o distanciamento porque ainda estamos numa curva ascendente de número de casos e óbitos".

Na opinião dele, o que precisa ser feito é um planejamento para que dependendo de critérios se possa flexibilizar. "Durante esse último mês nós observamos que houve abertura de novos leitos para atendimento a esses pacientes e isso conseguiu segurar a nossa demanda crescente, mas agora observamos a interiorização de novos casos e essa interiorização tende a sobrecarregar mais os municípios com baixa capacidade de atendimento e por consequência colapso no interior e a transferência desses pacientes para atendimento na capital, o que pode ser uma segunda onda da doença e acelerar o nosso risco de colapso da rede da capital", acrescenta.

Estamos perto do colapso, diz professor da Ufal

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| Foto: Ascom

A Gazeta pergunta ao professor Sérgio Lira, do Grupo de Modelagem Científica e Simulação do Surto de Covid-19 em Alagoas, pelo que tem observado nos últimos dados da Secretaria de Estado da Saúde se é possível dizer que a rede hospitalar se aproxima do colapso.

"Estamos sim perto do colapso, se é que já não o atingimos e não fomos avisados. Houve um esforço hercúleo por parte de agentes de saúde para eliminar filas de espera para internação, agilizar o processo de regulação de leitos com as secretarias municipais e deixar novos leitos prontos para receber pacientes. Se não fosse o trabalho destes heróis e heroínas do nosso estado os pacientes já estariam morrendo nas calçadas dos hospitais. O Comitê Científico do Consórcio Nordeste em seu boletim 8 continua recomendando uma intensificação do isolamento social para a zona metropolitana de Maceió e também levanta um alerta para o crescimento de casos no interior", avalia.

Em relação a retomada de segmentos da economia alagoana, Sérgio Lira explica que ainda não é momento propício para afrouxar o isolamento social. "De maneira alguma estamos num momento propício para flexibilização, não estamos nem perto de controlar a epidemia no estado, nem na capital. Eu tive acesso a um plano preliminar de reabertura proposto pelo estado e ele carece completamente de critérios epidemiológicos ou de ocupação hospitalar objetivos para delinear fases de flexibilização. O Comitê Científico também propôs em seu último boletim uma matriz de risco com critérios objetivos que deveriam ser utilizados pelos estados do NE para fazer uma reabertura segura para a saúde de seus cidadãos. No entanto, vários estados estão reabrindo de maneira arbitrária e irresponsável", declara o professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Sobre a abertura de vagas na rede hospitalar de Alagoas, Sérgio diz que não é o suficiente para evitar o colapso. "Nenhum sistema hospitalar do mundo consegue suprir a demanda de doentes por Covid-19 sem se utilizar de medidas como o isolamento social, uso de máscaras e rastreamento da cadeia de contágio. É ilusão achar que vamos expandir a capacidade hospitalar o suficiente sem intensificar o isolamento, nem países desenvolvidos como a Inglaterra e EUA conseguiram", reforça.

"Nossas projeções numéricas de número de infectados e demanda de leitos mostraram-se corretas. Como houve um aumento do número de leitos, ganhamos um fôlego e adiamos um pouco a sobrecarga do sistema hospitalar. Seguimos numa crescente de casos e óbitos, e continuamos longe do pico. Não é momento para flexibilização do isolamento", finaliza Lira.

Alagoas conta com pouco mais de mil leitos exclusivos para pacientes com o novo coronavírus, desse total, 219 são vagas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

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