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Cidades

COVID: EM MEIO À DOR, ALAGOAS SE APROXIMA DAS MIL MORTES

Gazeta traz relato de pessoas que perderam parentes para o novo coronavírus

Por regina carvalho | Edição do dia 27/06/2020 - Matéria atualizada em 27/06/2020 às 08h44

Há quase três meses foi confirmada a primeira morte pelo novo coronavírus em Alagoas. Em pouco tempo, a disparada do número de infectados - presentes em todos os 102 municípios - caminha para mil óbitos neste fim de semana, como se quase toda a população de Garça Torta, bairro do litoral Norte de Maceió, por exemplo, desaparecesse.

A primeira morte pelo novo coronavírus em Alagoas foi anunciada pelo governador Renan Filho (MDB) nas redes sociais no dia 31 de março, uma terça-feira. O acriano José Dagmar Xavier da Rocha, 64 anos, faleceu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Trapiche da Barra, em Maceió, após peregrinar por internamento. A família de Dagmar alegou que a vítima não morreu por infecção pelo coronavírus e chegou a acusar o governo de negligência e questionar laudo apresentado pelo Laboratório Central de Alagoas (Lacen/AL), mas até hoje esse caso consta como primeiro confirmado em Alagoas e está na lista publicada pela Secretaria de Estado da Saúde a cada atualização diária. Passados cerca de 90 dias, uma extensa relação com data do óbito, sexo, idade e cidade de origem da vítima traz a frieza dos números publicados pelas autoridades de saúde. Para as famílias, resta o luto sem despedida. Um dos efeitos mais cruéis da pandemia é não poder estar perto de quem ama quando o quadro de saúde piora. Nem um toque nas mãos, não ver o sorriso, não poder dizer algo, nem mesmo estar ao lado. E quando a notícia da morte chega, nenhum velório, apenas um rápido sepultamento. Essa é a orientação do Ministério da Saúde para evitar a disseminação do vírus. Sobram dor e desamparo. A Gazeta de Alagoas ouviu parentes de vítimas da Covid-19 como o professor Nelson, que perdeu a mãe, o tio e o avô; o médico José Luna, que não conseguiu ficar perto do amor da sua vida no momento mais difícil; o ferroviário José Pedro que não verá mais o sorriso da mulher com quem viveu 26 anos, teve dois filhos e um neto e a estudante universitária Layza que deixará de conviver com a avó, uma senhora orgulhosa das conquistas da neta.

A TÉCNICA SORRIDENTE

O ferroviário José Pedro Vieira dos Santos era casado com Jocelina Silva Santos há 26 anos, com quem teve dois filhos e um neto. A alagoana tinha 44 anos e trabalhava como técnica de laboratório do Hospital Geral do Estado (HGE) há quase 15 anos. Conhecia bem a rotina da maior unidade de urgência e emergência de Alagoas.

“A gente está sofrendo muito. Quando um parente morre, só de você não poder fazer um velório, é terrível. Para a gente isso é importante, é como se fosse uma despedida. A gente sabe que o destino da gente é a morte, mas ninguém quer perder um parente, ainda mais com a idade que ela tinha. A gente não quer aceitar, mas é a vida”, afirma José Pedro, que mora com o casal de filhos e o neto. Ele lembra o processo de adoecimento da esposa, muito rápido, segundo ele. “Quando ela chegou em casa do trabalho já estava sentindo sintomas. Reclamou que estava cansada, com dor de cabeça e com febre. Ela tava com o corpo todo dolorido. Aí a gente já isolou ela no quarto e fiquei cuidando dela. Dei remédio, a febre baixou, mas a dor no corpo continuou. A gente esperou uns dias, porque tinha que esperar. Quando levamos para o hospital, começaram a medicar ela e quando fui falar com a enfermeira me disseram que iam deixar internada”, lembra José Pedro.

Pouco tempo após ser internada, Jocelina precisou ser entubada e ficou dez dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital em Maceió. “Sempre que eles tiravam o oxigênio, baixava mais ainda. Com seis ou sete dias ela sofreu uma parada cardíaca e conseguiram reanimar. Tentaram fazer uma diálise, aí ela sofreu outra parada. Não conseguiram reverter. Ela não tinha problemas de saúde, o que tinha era excesso de peso e iria fazer esse ano uma bariátrica porque tinha dificuldade para emagrecer”, lembra. José Pedro conta que Jocelina tinha medo de ser infectada pelo novo coronavírus no trabalho e quando um colega adoeceu ela ficou preocupada. “Ela ficou bem nervosa quando o colega de trabalho se infectou. Ela dizia que tava com muito medo e todas as pessoas que ela ia colher sangue ficava preocupada. Naquela época não sabiam se a pessoa tinha ou não o vírus e faltou treinamento dos profissionais. O que mostraram foi um vídeo, não teve nada prático. Só trabalhavam com luva, máscara e o jaleco deles, não é como hoje. Desde que a doença apareceu a gente começou a se cuidar e sabia que era sério. Ela alertava muito”, explica. Ele e os filhos tiveram apenas sintomas leves da síndrome gripal.

Jocelina faleceu no dia 13 de maio, deixando para trás o sonho de fazer a cirurgia bariátrica, já tinha até comprado novas peças de roupas para quando fizesse o procedimento este ano; deixou para trás também o sonho de viajar ao Rio de Janeiro e conhecer o Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Leia mais na página A13

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