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Cidades Maceió, 13 de abril de 2020   
Fumantes fazem parte do grupo de risco do coronavírus. Alagoas - Brasil.
Foto: ©Ailton Cruz

Mesmo com maior exposição de fumantes à Covid, consumo de cigarros cresce na pandemia

Os números sobre a relação entre mortes e o tabagismo no período da pandemia de Covid-19 ainda não foram fechados. Mas, por ser uma doença com incidência direta nos pulmões quem fuma acaba sendo mais suscetível a complicações. É que o cigarro vai destruin

Por Marcos Rodrigues | Edição do dia 16/07/2020 - Matéria atualizada em 15/07/2020 às 22h46

Os números sobre a relação entre mortes e o tabagismo no período da pandemia de Covid-19 ainda não foram fechados. Mas, por ser uma doença com incidência direta nos pulmões quem fuma acaba sendo mais suscetível a complicações. É que o cigarro vai destruindo a proteção natural do órgão, o que acaba deixando mais fragilizado para reagir a ação do vírus quando ele se instala. Com tudo isso os números indicam aumento de 20% do consumo de tabaco na pandemia em função do estresse e elevação da angustia das pessoas. 

No portal da Sociedade Brasileira de Pneumologia o dependente de fumo está entre as pessoas que compõem o grupo de risco assim como obesos, diabéticos, transplantados, pessoas com problemas de pressão alta e outras enfermidades cardíacas ou até mesmo pacientes que tratam câncer. 

Segundo explicou a média pneumologista Flávia Alécio, que o pulmão de uma pessoa que fuma está sem defesas e isso, no momento, é uma grande preocupação, porque no país ainda existem muitas pessoas dependentes do cigarro.

"Tabagismo é fator de para a gravidade do coronavírus. O cigarro ele acaba com as defesas pulmonares. A doença, se chegar, vai pegar um pulmão sem defesas. Pela a Organização Mundial da Saúde (OMS) o tabagismo é fator de risco. O tabagista tem mais probabilidade de ter a forma grave da doença. Isso por um motivo simples: ele está com as defesas pulmonares como os cílios e a presença de muco, que são defesas naturais extintas ou diminuídas", detalhou Flávia.

Segundo a especialista alagoana, mesmo sem dados precisos desde que a doença chegou no Brasil, pesquisas anteriores já colocavam os fumantes como pessoas vulneráveis a vírus que se instalam nos pulmões, a exemplo da Covid-19. 

E no caso do cigarro ela lembra que o agravante é que ele não é uma droga lícita que pode ter seu potencial destrutivo e de sedução dos usuários descartado. Flávia conta que mesmo quem parou há muito tempo tem que ter uma vigilância permanente para que evite o impulso do primeiro trago, já que ele pode significar o retorno ao consumo até mesmo com mais intensidade.

"Uma vez viciado, sempre viciado. Não existe dar só um trago. As vezes a pensa que pelo tempo está segura e vai dar um traguinho e isso funciona como a primeira dose. Para nenhuma droga a cura, mas sim controle. É sempre bom ter esse cuidado. Quando o processo de recaída um motivo só ele vem à tona com toda a sua compulsão", alertou a pneumologista.

Tensão

O processo de retomada do consumo de cigarro pelo jornalista e escritor Jean Albuquerque está diretamente associado a angústia e dúvidas geradas com a pandemia. Ele conta que antes do distanciamento e o anúncio do isolamento social estava há pouco mais de seis meses. Mas, no período da quarentena.

"Não voltei mais forte não, apesar de que no início, lá pelo mês de março, cheguei a fumar uma carteira por dia. Essa questão de não poder se aglomerar e voltar a normalidade. Mas, agora, compro uma carteira e chego a ficar com ela por uns três dias. Agora dei uma amenizada, mas não consigo largar. Eu atribuo a questão da ansiedade pois também não estou conseguindo dormir direito. Tem sido comum trocar o dia pela noite. Eu penso sempre no cigarro em algum momento do dia", admitiu Jean.

A prova de que é vítima da dependência, assim como milhões de pessoas é que tem consciência dos riscos por saber que a fumaça ataca os pulmões, assim como o vírus para quem o contrai.

"Acho que fumo há seis ou sete anos e não sei como estão meus pulmões. É um receio sim. Tenho evitado sair e quando é necessário tomo todos os cuidados para não contrair a doença, pois tenho medo de pegar e não sei como o meu corpo vai reagir já que compromete os pulmões", revelou Jean.

Ele espera encontrar forças para quando passar a fase de isolamento voltar a se distanciar dos tragos e baforadas. Entretanto, o sentimento de dúvida quanto ao futuro representa uma sensação de preocupação porque profissionalmente revela que havia projetado muitas expectativas para este ano. 

 Tendência

A exposição dos fumantes e ex-fumantes ao riscos e, principalmente, ao impulso para voltar a fumar não surpreendeu a coordenadora Estadual de Combate ao Tabagismo, Vetrúcia Teixeira. Ela lembra que até mesmo os que participavam de grupos de auto-ajuda foram prejudicados com o impedimento de participarem das reuniões por conta do risco de contágio.

"É uma tendência infelizmente. Porque mesmo que não fuma está sofrendo com a pressão psicológica que envolve a pandemia e, o comportamento do governo. Tudo isso tem deixado as pessoas a ponto de pirarem. E o fumante como recorre ao uso da nicotina ele o faz para relaxar. E ela é estimulante, então isso é um desafio para quem trabalha com as pessoas que estão na luta para parar, por conta da impossibilidade de se reunir em grupo", observou Vetrúcia. 

Uma alternativa foi a adoção de apps como o conhecido WhatsApp, mas nem todos têm a mesma habilidade para essa comunicação. Já o telefone acabou ficando ainda mais distante para alguns. Isso tem dificultado o acompanhamento e o monitoramento das pessoas. Deste modo o único recurso é o contato gratuito com o Ministério da Saúde por meio do telefone 136.

Se por um lado o sofrimento das pessoas está expondo-as a mais riscos para a indústria e empresas de distribuição a pandemia representou aumento significativo nas vendas. Elas não estão associadas a novos fumantes, mas sim aos que haviam parado e retrocederam na decisão de largar o cigarro como também dos que continuavam fumando e decidiram comprar mais para estocar.

Um levantamento feito pela Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, aponta um crescimento do consumo de 28% entre essas pessoas. E um detalhe importante é que tudo isso sem a necessidade de terem feito nenhum investimento a mais em publicidade, o que indica o quanto essa dependência por si só já é capaz de mover a busca pelo produto.

O levantamento indicou que em média, os fumantes aumentaram o consumo de dez cigarros por dia, além do que já consumiam. Um detalhe é que parte desse consumo tem ocorrido no período da noite e madruga quando muitos acordam ou até mesmo não conseguem ter uma noite de sono tranquilo. Então, em meio a solidão da madrugada o companheiro passou a ser o cigarro e todo o seu poder destrutivo. 

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