Cidades
BAIXA TESTAGEM PARA COVID PÕE EM XEQUE ESTABILIZAÇÃO DA PANDEMIA
Para pesquisador, quantidade de testes feitos em Alagoas ainda é insuficiente para avaliação
A baixa testagem põe em xeque a certeza da estabilização da pandemia do novo coronavírus em Alagoas e leva à desconfiança sobre a superficialidade dos dados que apontam uma redução de casos e óbitos pelo coronavírus. A avaliação é do pesquisador e professor Jonas Augusto Cardoso da Silveira, vice-diretor da Faculdade de Nutrição da Ufal e colaborador do Observatório Alagoano de Políticas Públicas para o Enfrentamento da Covid-19.
“Os casos não dispararam porque ainda não tivemos tempo para observar os resultados dos testes e porque a testagem ainda é insuficiente. Se não testa, não observa o que está acontecendo. Sem testes, não têm casos, não tem diagnóstico e fica sem ver o que está acontecendo. Houve avanço rápido para a flexibilização que pode colocar em grave risco o sistema de saúde e a vida de de pessoas”, declara o pesquisador.
De acordo com Jonas Augusto, é difícil avaliar nesse momento se há ou não estabilização dos casos de Covid em Alagoas. “Essa é uma pergunta difícil de responder. Se for responder simplesmente como os dados que estão colocados, pegando as estatísticas como número de novos casos e novos óbitos, eu poderia dizer que sim, que os números estão estabilizando. O problema é que desconsidera um componente muito importante desse monitoramento da pandemia que diz respeito a como está sendo feito o processo de testagem da população”, detalha.
Na avaliação dele, deve-se observar o tempo de demora da pessoa para a realização do teste e o resultado, além de um terceiro componente, que é saber o tipo de exame. Sobre a testagem, como ela pode influenciar na contagem dos casos? de acordo com Jonas Augusto, se observar os dados de Alagoas, o número de novos casos por semana epidemiológica percebe-se uma tendência a estabilização, mas qual o problema disso? É que, segundo o pesquisador, essa estabilização pode ser uma avaliação artificial.
“Vamos supor que a gente tenha mil testes para serem realizados por semana (número hipotético), se executo esses mil testes toda a semana chega num ponto que eu não consigo diagnosticar mais as pessoas porque eu não tenho mais testes. Ou seja, se eu tenho uma capacidade de mil testes e em média 50% das pessoas são diagnosticadas o resultado dá positivo para o exame molecular, o RT-PCR, eu tenderia a estabilizar meus resultados em mais ou menos 500 pessoas por semana. Então se eu faço isso eu estabilizo artificialmente. Não quer dizer eu tenha mais casos, significa que eu não estou conseguindo diagnosticar por um problema de infraestrutura de testagem em massa, que é uma das principais recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), porque a gente não sabe efetivamente o que está acontecendo em relação à pandemia”, declara o doutor em Ciências e professor da Ufal. “Realmente não se faz grande quantidade de exames e muita gente que apresentou sintomas começou a se tratar em casa. Há sentido nessa questão de não se saber se a pandemia está controlada se não sabemos os números exatos. Mas a nossa avaliação é do ponto de vista dos hospitais que caíram os internamentos. Reduziu a procura. Em relação à pandemia de um modo geral, ela só vai começar a ceder realmente quando 60% ou 70% da população se contaminar ou a vacina aparecer”, declara o presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas, Marcos Holanda.
Essa situação chegou ser avaliada pelo pesquisador Daniel Lahr, da Universidade de São Paulo (USP). Há pouco mais de um mês em entrevista ao G1 ele disse que: “o Brasil está testando brutalmente menos do que deveria. Na melhor das hipóteses, 20 vezes menos do que é considerado adequado. É tão pouco que a amostra pode ser basicamente ignorada”.